sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Antologia do Corno



SONETO DE TODOS OS CORNOS

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Corníssimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos têm reinado.

Siqueu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu a c'roa;
Anfitrião com toda a sua proa
Na Fábula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.

José Anselmo Correa Henriques


AMOR DE CORNO

Eu devo ser tratado como um verme:
qualquer castigo é pouco para corno,
conforme diz o povo; e pese o adorno
sobre a minha cabeça a entreter-me...

Quando ainda eu gozava na epiderme
o tátil gozo do teu corpo morno,
delegava ao sabão, vassoura e forno
o afeto que não pôde comover-me.

Mas neste pranto em forma de bolero,
eu me humilho até o cúmulo do brega
se ter-te novamente é o que mais quero!

Na fossa a gente vê que o bicho pega,
na lata implorarei sem lero-lero
até que desta voz não reste prega!

Nhandeara, 6 de maiô em 2008, ai que frio!
Marcos Satoru Kawanami


ATAVISMO

Não se incomode, Euclides, por ser corno;
predicados havia na tal Ana
raros em toda a fauna americana:
mais que a vaca, era boa de contorno.

Qual ninguém, pilotava bem um forno;
podia ser gazela da savana,
contudo, se ao chifrar-lhe, foi sacana:
o chifre ela lhe deu foi por adorno.

Veja bem, você foi da Academia;
pois, isso basta, vale mais que tudo!,
não vá se ater com reles ninharia.

Se seu filho também sucumbiu mudo
tentando a vil vingança, a pontaria
demonstra o atavismo em ser cornudo.

Marcos Satoru Kawanami


APOLOGIA DO CORNO

Terei do amor um nojo rancoroso;
podia ser, por tanto que hei sofrido
em femininas teias iludido
esparro e corno, e corno não zeloso.

Mas não; sou mais altivo e valoroso
paladino fiel, mesmo abatido,
do conformismo aos cornos conferido
desde o mais novo até o mais idoso.

Não se deve temer, sendo traído,
o apodo de cabrão ou melindroso,
nem o ornato na testa já crescido.

Porque será mais vil e doloroso
nunca beijar um lábio apetecido,
e furtar-se do chifre glorioso!

Marcos Satoru Kawanami


TROVA DO CORNO

Se sou corno ou sou honrado,
isso nada me interessa;
eu só sei que, do meu lado,
ela finge bem à beça!

Marcos Satoru Kawanami



SER PAI
“Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!”
(Coelho Neto)

Ser pai é duvidar, mas ir em frente
criando o bacuri que está no mundo
com zelos e cuidados, sem no fundo
saber se esse pirralho é seu parente!

Ser pai é ter um título aparente
de rei, que empunha o cetro cornibundo
e veste o ledo manto vagabundo
do Chaplin que parece estar contente.

Mas, enfim, o que vale é a Família
à parte de somenos prejuízo
que fica bem na altura da braguilha.

Confie que a comadre tenha siso,
assim você verá que maravilha:
ser pai é padecer num paraíso!

Marcos Satoru Kawanami

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SONETO DE TODAS AS PUTAS

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Manuel Maria Barbosa du Bocage