quinta-feira, 1 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 9

CAPÍTULO IX
Começam as experiências
científicas rudimentares de Francisco
na fazenda.

O cafezal já estava formado; Francisco e José retiravam o leite de manhã, almoçavam, e tinham o resto do dia praticamente livre, a não ser que houvesse uma vaca parindo, uma bicheira para curar, ou algo a resolver na cidade, o que era muito raro.
Fernanda permanecia a semana inteira em Nhandeara na casa de um tio afim de estar mais próxima da escola. José gastava as tardes a fabricar utensílios e brinquedos de madeira que comercializava num bazar de libaneses na cidade, gostava também de rotineiramente vistoriar a cerca da fazenda quando se sentia um verdadeiro senhor feudal; isso quando não enchia o bucho de água-ardente, o que era mais comum, pois todo dinheiro que ganhava no bazar virava cachaça, razão pela qual ele afirmava que nunca poderia arranjar uma esposa por já estar casado com a bebida. Harumi era mui zelosa pelo recém-nascido Dario, mas rejeitava os afazeres domésticos, trocando-os por qualquer jogo de baralho, costume que adquiriu com o falecido Oswaldo. Resulta que as horas livres de Francisco tinham que ser dedicadas a fazer companhia à esposa no jogo.
No começo Harumi se entreteu demais nas tardes de jogo com o marido, mas depois foi percebendo uma gradativa displicência dele: “Francisco, você está me deixando ganhar; assim não dá! De agora em diante vou jogar com a comadre Josefa como costumava fazer”. Assim, ela pegava Dario e ia ao sítio vizinho encontrar Josefa, livrando Francisco para fazer o que quizesse.
E o que ele queria? Dedicou dias à meditação infértil até dar-se conta que o que mais havia na fazenda eram seres vivos, ele estava rodeado de vida por todos os lados. Achou que seria divertido construir uma biologia.
Primeiro sistematizou o estudo classificando os seres vivos em dois grandes grupos: vegetal e animal. O que os distinguia era a locomoção, propriedade característica dos animais, da qual os vegetais seriam desprovidos. A partir daí adotou outros critérios de classificação, tais como ciclo vital, modo de nascimento, reprodução, e mais alguns.
Um dia, ordenhando uma vaca, quis saber como o leite era produzido. Creio que só abrindo o bicho pra ver, disse José.
Desde então Francisco ficou ansioso que uma vaca morresse, afim de poder desvendar o mistério do leite, dissecando-a.
Pare de ficar agourando as pobres vaquinhas, disse-lhe Harumi ao saber da sua sinistra intenção. Mas querida, eu não vou matar; farei tal qual o urubu: espero morrer primeiro, depois...
Doido!, foi o veredito de Harumi. Ai meu Dario, continuou embalando o filho no colo, você não vai perder o juízo igual seu pai, vai? Lembrando bem, acho que ele nunca teve; é moleque até hoje.
Demorou quase dois anos para uma vaca adulta morrer. Entanto Francisco estudava o sistema circulatório das plantas, e tentava explicar a cor verde das folhas em geral. Harumi teve mais duas filhas: Renata e Lucilene. Por essa época Dario já conseguia andar, e acompanhou José campo adentro procurando uma vaca da qual tinham dado falta. Encontraram-na atolada; a cena grotesca ilustrava perfeitamente a figura de linguagem da gíria popular quando diz que “a vaca foi pro brejo”, significando que tudo deu errado. José e Francisco tentaram salvar o animal laçando-o pelo pescoço e puxando, sem êxito. Tiveram que chamar o trator da prefeitura que conseguiu desatolar a vaca, porém, fraturando-lhe o pescoço. Era a oportunidade esperada.
O trator arrastou a vaca morta até o terreiro de secagem do café, onde deu-se a dissecação num estilo bem rudimentar, com faca de cozinha e a céu aberto, debaixo dum forte sol. Fazendo a observação a olho nu, Francisco só pôde chegar a uma conclusão superficial. As glândulas mamárias eram irrigadas por sangue que provavelmente alí sofria uma ou mais reações químicas para se transformar em leite. Certo, não havia milagre. O processo era químico.
Harumi viu o lado prático deste estudo orientando Francisco a destrinchar o resto da vaca antes que começasse a apodrecer, além do que a colheita do café estava perto e o terreiro tinha que ser limpo. Então, ela salgou a carne e a distribuíu entre Josefa e outros vizinhos, como era costume nos tempos em que o meio rural não conhecia eletricidade e muito menos geladeira. Até meados do século XX, mesmo nas grandes cidades brasileiras este costume fraternal prevalecia, sendo os bairros verdadeiras famílias; eram também os tempos das serestas que podiam começar com um melódico solo de flauta... logo um vizinho chegava com um violão no acompanhamento, alguém vinha batucando um pandeiro, e assim as noites se alegravam com saudosa simplicidade.
Mas, voltando à fazenda, a dissecação da vaca não se limitou ao estudo do leite. Francisco aproveitou para estudar os órgãos internos, notou que cada tecido tinha uma função colaborando uns com os outros; daí teorizou que, em tempos remotos, as células que constituíam os órgãos viviam independentes, cada qual com suas características, até que por acaso passaram a colaborar entre si formando colônias que por sua vez originaram as primeiras plantas e animais. Harumi achou esta teoria uma delirante heresia; ora, será que o marido havia esquecido o livro do Gênese? Eis o lamentável conflito entre ciência e religião.
José divertiu-se com a teoria do patrão crendo-a bem possível, mas ao fim sentenciou: “Bicho, para mim, é apenas um grande tubo digestivo”.
O que, portanto, faria funcionar esse tubo digestivo? As víceras produziam substâncias para a digestão; contudo, abrindo os órgãos, nada além de tecidos era visto. Mesmo o coração, o que o faria pulsar?, e o que ocorreria no pulmão? Um dia, vendo Harumi a preparar o jantar, Francisco contemplou a lenha se transformando em carvão, e de um salto exclamou: “A resposta está na Química!”.
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2 comentários :

Gabriela disse...

Retrospecto amoroso, nada demais.
Lembro que Jesus foi o sétimo na vida daquela viúva...enfim, perdão pelo intimismo.

Agora sim, lerei seu texto.

Bibi disse...

Isso será (é) um livro? Não tem medo que te roubem a ideia???? Corajoso! Obrigada pela visita :)