domingo, 4 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 12

CAPÍTULO XII
De como Francisco
passa a acreditar num princípio
único para todas as forças; e Harumi
propõe onde estará Deus.

Fernanda, em tempo, atingiu a idade adulta; já havia terminado a escola, mas permanecia na casa do tio para facilitar seu noivado com um funcionário da prefeitura. Noivou seis meses até casar, emancipando-se definitivamente da mãe e do padrasto. Padrasto é uma palavra um tanto feia; Francisco, apesar de nunca ter perdido a postura juvenil, foi junto com o tio um verdadeiro pai para Fernanda.
Conforme os filhos cresciam, e outros iam nascendo, Harumi tinha que fazer novas roupas. Certa vez, quando ela costurava um vestido, um alfinete escapou caindo no chão. Para achá-lo, usando da sabedoria feminina, pegou a tesoura e foi rastreando as redondezas até o alfinete grudar na tesoura. Francisco, observando o ocorrido, viu que aquela atração entre alfinete e tesoura era uma força da natureza.
Dias depois, tirando leite, ele escutou uma vaca defecando; virou-se e pela primeira vez reparou como o estrume era atraído pelo chão. À noite, numa observação menos escatológica, admirou-se de como Terra e Lua jamais se separavam... outra força da natureza!
No dia seguinte, depois do almoço, fazendo a sesta naquele torpor entre o sonho e o delírio, Francisco imaginou flutuando no ar um modelo de átomo igual ao que um dos livros descrevia: o núcleo formado por neutrons e prótons, em torno do qual orbitavam os elétrons. Contemplou-o preguiçosamente fazendo-o bailar para lá e para cá. De repente acordou sobressaltado com a revelação de que estava diante de uma nítida contradição. Se os neutrons não tinham carga elétrica, como é que os prótons de mesma carga não desgarravam-se do núcleo? Alguma força qualquer devia estar atuando. E por que os elétrons não perdiam sua energia e colapsavam para dentro do núcleo? Era outra força.
Quatro anos mais tarde, após uma viagem de estudos insatisfatória à capital do estado e quase ensandecido por teorias que careciam de instrumentos para comprová-las, Francisco fez uma comparação entre as transformações de energia nas suas diversas formas e as várias manifestações de força do universo. Da mesma maneira que a energia da vida em nosso planeta principiava com a luz do Sol, e então se transformava em energia química, mecânica e térmica; assim também as forças magnética, nuclear e gravitacional poderiam ter um princípio único.
Minha querida, minha companheira desde a infância, que consolo terei se não consigo ver o objeto de meu estudo?, lamuriou Francisco à esposa, creio que chegarei a velho sem nunca esclarecer todas as leis do mundo material. Harumi, pois, maternalmente consolou o marido: “Lembra quando nós éramos criança e você era ateu? Então eu lhe disse que Deus poderia estar no que a humanidade não conseguia explicar. Está muito além da nossa sensibilidade compreender Deus, eis o mistério da fé. Até o fim dos tempos haverá algo a ser explicado, por que sempre existirá Deus”.
A partir daí, Francisco voluntariou-se a ajudar padre Antônio (o mesmo que celebrou seu casamento) nos finais de semana. Lecionou catecismo.
E quando alguém lhe perguntava: “Como está?”, ele invariavelmente respondia: “Estou na mais obscura ignorância...”.
Francisco morreu num ano glorioso para a ciência que ele tanto investigou. Vendo o pai no leito de morte, Dario promete que sempre se lembrará dele com orgulho. Francisco responde: “Nada há para ser lembrado, eu fui apenas mais um servo inútil de Deus”; estas foram suas últimas palavras. No ano em que a Lua foi primeiro pisada pelo homem, morre Francisco Reinisch.


EPÍLOGO

Não me pareceu pertinente averiguar a vida nem os nomes dos vários primos de Francisco, na medida em que pouco ou nada influenciaram neste sucinto relato.
Quanto a sua avó materna, tenho dúvida que se chamasse Rosângela ou Isabel. É possível que tenha feito doces cada vez melhores até morrer.
Padre Silas cuidou das almas da freguesia rural de Sorocaba até se aposentar, indo residir na casa de um sobrinho em São Paulo, e findou seus dias certo de que Francisco continuara no sacerdócio.
José Barbosa de Oliveira, o “meia-garrafa”, colheu café, retirou leite, trabalhou com madeira, e bebeu muita cachaça até vir a falecer antes da velhice devido a uma fulminante cirrose hepática.
Harumi vive hoje na cidade de Nhandeara com a filha Fernanda, a qual lhe deu um casal de netos: Kelly e José Eugênio. Sabe-se que Harumi e Francisco tiveram muitos filhos, um dos quais: Dario Reinisch, eminente astrônomo do Observatório Nacional, que transmitiu-me a tarefa de dar ao mundo conhecimento desta Singela História De Um Brasileiro, exemplo de vida para as futuras gerações.

es hat nicht mehr
DAS ENDE
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