sábado, 3 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 11

CAPÍTULO XI
De como Francisco
submete a Biologia e a Química
às leis da Física como regedoras do
mundo perceptível.

Francisco voltou entusiasmado da viagem. Trouxe reagentes, dois ou três livros, e alguma vidraria de laboratório. Agora, pasmem, trouxe também a maior novidade dos últimos tempos, uma invenção que marcaria o século: o televisor.
Harumi se desesperou: “Você gastou todo o nosso dinheiro neste trambolho?!”. Quase todo, respondeu com inocência Francisco, mas ainda deu para comprar outras coisas. E, pendendo a cabeça para um lado, Harumi se lamentou: “Eu desisto...”.
A criançada logo fez uma roda em torno do aparelho. Francisco se juntou aos filhos dizendo: “Aqui dentro desta caixa existe um monte de bonequinhos que andam e falam!”. Põe eles pra mexer, disse Dario.
José, que apesar de bêbado tinha momentos de invejável lucidez, obtemperou: “Não estou vendo onde colocar óleo nessa máquina, e, com esse fio que sai cá detrás, deve funcionar com a tal da eletricidade que a gente não tem na fazenda; que tristeza...”. Francisco caiu sentado.
Mas, no decorrer da semana, ele achou num dos livros um modelo de pilha que poderia fornecer a eletricidade. Com a ajuda de “meia-garrafa”, algumas sugestões de Harumi, e os reagentes trazidos da capital, a pilha foi construída. Ligaram o televisor à pilha, contudo, para decepção das crianças, os ditos bonecos não apareceram. Será que a força gerada era muito fraca, ou nenhuma eletricidade aparecia?
Pondo os dedos simultaneamente nas extremidades da pilha, nada era sentido. O teste final foi tentar separar os dois elementos componentes da água através duma corrente elétrica. A pilha passou no teste desta desidrólise da água. A força é que era fraca para um televisor.
Então, José deu uma solução mais fácil. Foram a Nhandeara, compraram baterias para rádio, e as ligaram em série com o televisor. Um chuvisco apareceu na tela; experimentaram todos os canais, mexeram na antena, mas remanescia apenas um chuvisco sem imagem. O aparelho só serviu de enfeite na sala, e juntou poeira ainda por muitos anos até que se instalassem estações retransmissoras para o interior do estado das ondas eletromagnéticas emitidas em São Paulo.
Embora estudando Química, o objetivo de Francisco era a Biologia. Após realizar algumas experiências químicas que aprendeu nos livros, ele uniu numa idéia três áreas do conhecimento: Biologia, Química e Física. Notou que ao fazer esforço físico ele sentia calor, e algumas reações químicas produziam calor; portanto a energia química produzia movimento, ou melhor, energia mecânica, e calor no ser vivo. Para completar, ele reparou que não bastava água e terra para uma planta viver; uma muda de café, que ele deixou no escuro do galpão, morreu por falta de luz; além disso, os animais também precisavam de luz, pois a base de toda cadeia alimentar eram plantas. Faltava estudar a luz.
Com os meios rudimentares de que dispunha, a nenhuma conclusão chegou sobre a decomposição das cores e outras propriedades da luz, a não ser a de que ela se propaga em linha reta. Mas cogitou que havia uma possibilidade de a luz ter velocidade limitada. Para comprovar a idéia, saíram à noite ele e José munidos cada um com uma lâmpada a querosene, e postaram-se na estrada a mil metros de distância um do outro. Num momento, Francisco cobriria sua lâmpada com um pano; quando esta mensagem chegasse a José, ele deveria fazer o mesmo, retornando o sinal a Francisco que contando o tempo de ida e volta e sabendo a distância percorrida poderia calcular a velocidade da luz. Mas pareceu a Francisco que seu movimento e o de José eram simultâneos. Chegando em casa, disse a Harumi: “Se a velocidade da luz não é infinita, é rápida demais para ser medida”.
Ora, mas isso já era estudar Física. Também os fenômenos químicos se deviam ao modelo físico dos átomos. E os seres vivos eram ricos laboratórios químicos. Francisco verificou que toda a matéria bruta ou viva do mundo perceptível estava submetida às leis da Física.
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