sexta-feira, 2 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 10

CAPÍTULO X
As incursões
de Francisco nos domínios da Química,
que o levou à capital paulista.

Ou devido aos estudos com técnicas rudimentares, ou por realmente crer que as mães são mais capacitadas para tal ofício, Francisco influenciava um mínimo na educação dos filhos, limitando-se a narrar-lhes contos, alguns verídicos, outros fictícios. Na verdade ele virava um grande menino no meio dos filhos, lembrando as travessuras que aprontava quando criança em Sorocaba. Mas aconteceu que o tio de Fernanda, que a acolhia na cidade durante a semana, apareceu com a sobrinha na fazenda certa manhã comunicando a Harumi que Fernanda não ficaria mais na casa dele por que flagrara-a beijando um rapaz. Harumi já queria catar uma vara de marmelo para bater na filha quando Francisco interveio apaziguando os ânimos. Primeiro pediu desculpa ao tio de Fernanda, prometendo que isso não se repetiria. Depois, dirigiu-se à menina nos seguintes termos: “Minha querida, você deve ter visto outra mocinha dando beijos por aí, e quis fazer o mesmo para se exibir, não é? Que ridículo... quem namora quer casar, e para casar há que ser adulta. Olha, falta pouco, espere uns dois ou três anos, está combinado?”. Fernanda admitiu a imaturidade, pois não sentia atração pelo rapaz que beijara, prometendo se comportar. Assim, ela pôde voltar à casa do tio.
Algumas questões familiares qual essa, e o quotidiano trabalho, embora nunca afetassem a calma de Francisco, estorvavam-lhe a concentração nas pesquisas químicas para as quais dispunha de recursos precários. Houve um caso, dentre suas inúmeras desventuras, digno de ser contado. Francisco estava sentado na soleira do galpão, abatido por mais um fracasso na tentativa de isolar o agente estimulante do café, quando José pôs-lhe as mãos nos ombros, e disse: “A vida é dura, meu amigo”. Francisco, displicentemente confirmou: “É... a vida é dura”. Ao que José emendou: “Para quem é mole!”. José ficava muito engraçado estando bêbado.
O êxito maior alcançado por Francisco no tocante ao café foi forçar a casca e a poupa separarem-se da sua infusão, o que qualquer pessoa dispondo de um coador de pano ou papel poderia fazer. Desacorçoado, ele acrescentou açúcar no líquido resultante e bebeu. Aí surpreendeu-se com a idéia de que o açúcar é que era estimulante, mas como sempre era misturado ao café, atribuía-se a este último aquela propriedade. Então, passou a ministrar água com açúcar para curar as bebedeiras de José, o que só agravava o efeito do álcool; por outro lado, o café sem açúcar surtia efeito. A teoria falhara.
As descobertas de Francisco usualmente eram triviais e óbvias, muitas não merecendo ser relatadas, todavia a verdade é sempre óbvia uma vez provada. Ele que jamais estudara Química em compêndios, achava tudo novidade; como, por exemplo, quando descobriu o “equilíbrio de densidade”, para usar suas próprias palavras. O experimento nasceu por acaso. Harumi deixara uma caçarola de feijão esfriar; Francisco, procurando o que comer, destampou a panela e enojou-se com a gordura que boiava sobre o caldo. Logo, pensou que se a gordura boiava seria por que esta era mais leve que a água. Quem sabe se uma maior quantidade de gordura para um mesmo tanto de água faria a gordura afundar? Então, pegou um copo e nele colocou um pouco de água; em seguida foi acrescentando óleo, mas o copo chegou a encher-se e a água ainda permanecia no fundo. O que importava era a densidade, não a quantidade: para um mesmo volume a água invariavelmente pesava mais que o óleo.
Buscando uma substância cuja densidade fosse igual à do óleo, Francisco misturou óleo com o álcool que José andava bebendo na falta da cachaça; desta vez o óleo é que afundou. Então, fez uma solução de água com álcool. Primeiro encheu pela metade um copo com álcool, adicionou uma pequena medida de óleo, e José começou a pingar a água. O óleo, inicialmente todo no fundo, foi subindo até formar uma esfera no centro do copo. Era, portanto, possível manipular a densidade das soluções! Dario, que presenciara a experiência, lembrar-se-ia para sempre disto como uma divertida brincadeira do pai.
Outra questão que intrigava Francisco era o “apodrecimento do ferro”, ou seja, a ferrujem, a oxidação. Por que o ferro das enxadas era corroído, ao passo que as engrenagens de ferro lubrificadas do amassador de pão pouco se desgastavam? Era possível que isto se devia ao fato da enxada sofrer um uso mais forçado. Para tirar a prova, Francisco poliu duas lâminas de ferro, deixando-as totalmente limpas; uma ele submergiu num pote com graxa, a outra ele guardou numa estante do galpão. Quando a do galpão ficou bem enferrujada ele removeu a graxa da segunda lâmina examinando que nesta quase inexistia ferrugem, e fez a seguinte anotação: “O contato com o ar provoca ferrugem no ferro. Nos animais, analogamente, é capaz que dentro do pulmão ocorra uma reação química semelhante”.
Mas o que tinha o ar para causar ferrugem?
A chave para o enigma veio numa festa de São João no sítio da comadre Josefa. No meio do terreiro uma fogueira iluminava a noite, e sob suas brasas eram assadas batatas-doces. José bebia quentão, um sanfoneiro enchia o ambiente de música, os convidados dançavam, e as crianças imitavam os adultos do jeito que dava. Francisco pensava na maneira que o fogo transformava a madeira em carvão. A tese nenhuma chegaria se não tivesse presenciado o fim da festa consumado com Josefa cobrindo a fogueira com terra para extinguir o fogo. Da mesma maneira que a graxa havia separado o ar do ferro, a terra separava a madeira do ar impedindo a combustão. Daí Francisco concluíu que o processo de ferrugem era um tipo de combustão. Para finalizar, ele botou um toco de vela aceso dentro dum copo de vidro tampando-lhe a boca; em segundos a chama se apagou, mas ainda existia ar dentro do copo pois não se fez vácuo para dificultar sua abertura. Portanto, não o ar como um todo, mas um seu componente é que viabilizava a combustão e a ferrugem. Ou ele poderia ter chegado ao famoso postulado de Lavoisier: nada se cria, nada se acaba, tudo se transforma. Mas não foi o caso.
Infrutiferamente, por anos Francisco buscou descobrir quantos eram os componentes do ar, e separá-los. Pensou também em decompor a água, igualmente fracassando. Vendo-se exaurido de técnicas, Francisco deliberou empreender uma viagem à capital estadual afim de comprar livros e equipamentos. Harumi, agora já conformada com as pesquisas do marido, aprovou sua vontade apesar de lastimar o gasto pecuniário que a viagem consumiria.
Francisco juntou as escassas economias da família, e partiu.
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