quinta-feira, 29 de julho de 2010

Soneto ao Cachorro



SONETO AO CACHORRO

É o Cão, do Homem, seu melhor amigo,
conforme reza o velho e bom ditado;
quem nunca nesta vida foi amado
dará valor a tudo quanto digo.

O Cão nem mesmo tem aquele umbigo
egoísta pra ser idolatrado,
enquanto o ser humano, do pecado
escravo, do egoísmo herda castigo.

Xingando uma mulher, dizem: “Cadela!”;
ofensa muito rude para ela,
a Cadela, mulher casta do Cão,

um bicho que, sem ter nem mesmo mão,
o asseio preza, nos deixando à míngua
quando se limpa com a própria língua!

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 24 de julho de 2010

poema físico

Eu, no curso de Astronomia da UFRJ, com voto de castidade e desobediência.



tg(a) = tg(θ) + sec(θ)

Achar a fórmula do alcance máximo
para um plano de inclinação qualquer
parece até, mas nem tão fácil, mo
disse Álgebra —da Poesia requer.

Téta inclina angularmente o plano;
alfa põe balisticamente o cano.
A diferença angular de saída
igual à de chegada é definida;

isso, para se ter máximo alcance.
Mas se o inverso do cosseno é secante,
e de cos-i! cos-á! tangente cante,
derive o barco até que a mente canse.

Pois assim, a tese alguma se chega;
somente a vista turva e se faz negra.

Os 45 de Galileu
reduz-se do que tento provar eu.

45 graus pra alcance máximo
em téta nulo e aclive uma reta,
pois que a tangente alfa a Lira disse-mo
—É a tangente mais a secante téta.

E sendo o seno nulo em téta zero,
tangente alfa é 1, como provar quero.

De modo a prestar Lira à Matemática
grande auxílio. Que corrobore a Prática.

Marcos Satoru Kawanami
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sexta-feira, 23 de julho de 2010

A VIDA NÃO É FILME




TROVA AO PIVA

Morre mais um putanheiro
que a trovar nos insentiva:
sem comenda e sem dinheiro,
fodeu-se Roberto Piva.

Bocage D'Eu


A VIDA NÃO É FILME

Quitou-me o romantismo esta verdade:
—A vida não é filme nem romance!—
Incauto o adolescente que se lance
a dar vaza ao Amor em tenra idade…

Mais vale bem-querer Sobriedade,
casta lira impassível ao alcance
da cupidez mundana que lhe avance
no esplendor da virgínea mocidade.

Não à toa os antigos, por costume,
prezavam a senil opinião,
que vivência e razão enfim resume.

Amor? Existe. Longe da paixão,
do romantismo e do carnal betume:
—Conjugo o verbo amar, sem transição.

Marcos Satoru Kawanami
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"Se o sol nasceu pra todos, por que existe aquele lugar onde o sol não bate?"
(Jeca Tatoo - tatuador e serralheiro, especializado em piercing genital)
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quarta-feira, 21 de julho de 2010

TESTAMENTO - Alda Lara















TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem, esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara
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"Eu compro alho picado, porque não gosto de picar alho."
(Tia Anastácia, com o consentimento de Dona Benta)


"ANTONIO, guerreiro de Deus" - Paris Filmes - Audio: Português ou Italiano.
(Garota Know-how)

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

poeta menor, perdoai

Recife: monumento a Manuel Bandeira

POETA MENOR

Com dois livrões: o Código Penal
mais o Civil, de capa a capa lidos,
teúdos, manteúdos e engolidos,
se faz um Bacharel Judicial.

Com porcas, parafusos de metal,
concreto, vergalhões, homens polidos
no Cálculo de Newton, entendidos,
a carta de Engenheiro é bem legal.

Jurando pelo Hipócrates antigo,
depois de nove anos de esqueleto,
germina um médico doutor amigo.

Sem vulto para o último terceto,
o poeta contempla o próprio umbigo,
e dá cabo de mais um seu soneto.

Marcos Satoru Kawanami

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"Eu fiz o Juramento de Hipócrates, mas não sou hipócrita."
(O Analista de Bagé)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

carta testamento



CARTA TESTAMENTO

Eu, Zé Ninguém, desejo piamente
às pessoas de bem, as quais no mundo
muito têm me chamado vagabundo,
que alcancem junto a Deus favor clemente.

Sim, porque, se sou eu um inocente,
meu único defeito tão jucundo,
que causa este feitio meditabundo,
é ser um livro aberto do que sente.

Por isso tenho sido injuriado,
por isso tenho sido rejeitado,
por isso não conheço piedade.

O mundo pede sempre a falsidade,
pois tudo neste mundo é aparente,
só resta o Reino Eterno que não mente.

Marcos Satoru Kawanami
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Ao contrário do ser humano, mulher feliz é mulher fodida.
(Odorico Paraguaçu, o bem-amado, meu compadre para colóquios de além da matéria)
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

terra de amanhã


TERRA DE AMANHÃ


Descendo pela encosta da campina
que se estende longínqua atrás da serra,
camponeses cultivam boa terra
oculta em sereníssima neblina.

Na candura da paz adamantina,
quem suporá que lá se fez a guerra?,
que um tiro de canhão abriu cratera,
e exangue agonizou uma menina...

Eis a história de toda a Humanidade:
se pelas mãos humanas se fez tanta
perversa irracional atrocidade,

um dia, toda a Terra será santa,
pois mais forte que o mal é a bondade,
o valor que mais alto se alevanta!

Marcos Satoru Kawanami
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domingo, 4 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 12

CAPÍTULO XII
De como Francisco
passa a acreditar num princípio
único para todas as forças; e Harumi
propõe onde estará Deus.

Fernanda, em tempo, atingiu a idade adulta; já havia terminado a escola, mas permanecia na casa do tio para facilitar seu noivado com um funcionário da prefeitura. Noivou seis meses até casar, emancipando-se definitivamente da mãe e do padrasto. Padrasto é uma palavra um tanto feia; Francisco, apesar de nunca ter perdido a postura juvenil, foi junto com o tio um verdadeiro pai para Fernanda.
Conforme os filhos cresciam, e outros iam nascendo, Harumi tinha que fazer novas roupas. Certa vez, quando ela costurava um vestido, um alfinete escapou caindo no chão. Para achá-lo, usando da sabedoria feminina, pegou a tesoura e foi rastreando as redondezas até o alfinete grudar na tesoura. Francisco, observando o ocorrido, viu que aquela atração entre alfinete e tesoura era uma força da natureza.
Dias depois, tirando leite, ele escutou uma vaca defecando; virou-se e pela primeira vez reparou como o estrume era atraído pelo chão. À noite, numa observação menos escatológica, admirou-se de como Terra e Lua jamais se separavam... outra força da natureza!
No dia seguinte, depois do almoço, fazendo a sesta naquele torpor entre o sonho e o delírio, Francisco imaginou flutuando no ar um modelo de átomo igual ao que um dos livros descrevia: o núcleo formado por neutrons e prótons, em torno do qual orbitavam os elétrons. Contemplou-o preguiçosamente fazendo-o bailar para lá e para cá. De repente acordou sobressaltado com a revelação de que estava diante de uma nítida contradição. Se os neutrons não tinham carga elétrica, como é que os prótons de mesma carga não desgarravam-se do núcleo? Alguma força qualquer devia estar atuando. E por que os elétrons não perdiam sua energia e colapsavam para dentro do núcleo? Era outra força.
Quatro anos mais tarde, após uma viagem de estudos insatisfatória à capital do estado e quase ensandecido por teorias que careciam de instrumentos para comprová-las, Francisco fez uma comparação entre as transformações de energia nas suas diversas formas e as várias manifestações de força do universo. Da mesma maneira que a energia da vida em nosso planeta principiava com a luz do Sol, e então se transformava em energia química, mecânica e térmica; assim também as forças magnética, nuclear e gravitacional poderiam ter um princípio único.
Minha querida, minha companheira desde a infância, que consolo terei se não consigo ver o objeto de meu estudo?, lamuriou Francisco à esposa, creio que chegarei a velho sem nunca esclarecer todas as leis do mundo material. Harumi, pois, maternalmente consolou o marido: “Lembra quando nós éramos criança e você era ateu? Então eu lhe disse que Deus poderia estar no que a humanidade não conseguia explicar. Está muito além da nossa sensibilidade compreender Deus, eis o mistério da fé. Até o fim dos tempos haverá algo a ser explicado, por que sempre existirá Deus”.
A partir daí, Francisco voluntariou-se a ajudar padre Antônio (o mesmo que celebrou seu casamento) nos finais de semana. Lecionou catecismo.
E quando alguém lhe perguntava: “Como está?”, ele invariavelmente respondia: “Estou na mais obscura ignorância...”.
Francisco morreu num ano glorioso para a ciência que ele tanto investigou. Vendo o pai no leito de morte, Dario promete que sempre se lembrará dele com orgulho. Francisco responde: “Nada há para ser lembrado, eu fui apenas mais um servo inútil de Deus”; estas foram suas últimas palavras. No ano em que a Lua foi primeiro pisada pelo homem, morre Francisco Reinisch.


EPÍLOGO

Não me pareceu pertinente averiguar a vida nem os nomes dos vários primos de Francisco, na medida em que pouco ou nada influenciaram neste sucinto relato.
Quanto a sua avó materna, tenho dúvida que se chamasse Rosângela ou Isabel. É possível que tenha feito doces cada vez melhores até morrer.
Padre Silas cuidou das almas da freguesia rural de Sorocaba até se aposentar, indo residir na casa de um sobrinho em São Paulo, e findou seus dias certo de que Francisco continuara no sacerdócio.
José Barbosa de Oliveira, o “meia-garrafa”, colheu café, retirou leite, trabalhou com madeira, e bebeu muita cachaça até vir a falecer antes da velhice devido a uma fulminante cirrose hepática.
Harumi vive hoje na cidade de Nhandeara com a filha Fernanda, a qual lhe deu um casal de netos: Kelly e José Eugênio. Sabe-se que Harumi e Francisco tiveram muitos filhos, um dos quais: Dario Reinisch, eminente astrônomo do Observatório Nacional, que transmitiu-me a tarefa de dar ao mundo conhecimento desta Singela História De Um Brasileiro, exemplo de vida para as futuras gerações.

es hat nicht mehr
DAS ENDE
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sábado, 3 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 11

CAPÍTULO XI
De como Francisco
submete a Biologia e a Química
às leis da Física como regedoras do
mundo perceptível.

Francisco voltou entusiasmado da viagem. Trouxe reagentes, dois ou três livros, e alguma vidraria de laboratório. Agora, pasmem, trouxe também a maior novidade dos últimos tempos, uma invenção que marcaria o século: o televisor.
Harumi se desesperou: “Você gastou todo o nosso dinheiro neste trambolho?!”. Quase todo, respondeu com inocência Francisco, mas ainda deu para comprar outras coisas. E, pendendo a cabeça para um lado, Harumi se lamentou: “Eu desisto...”.
A criançada logo fez uma roda em torno do aparelho. Francisco se juntou aos filhos dizendo: “Aqui dentro desta caixa existe um monte de bonequinhos que andam e falam!”. Põe eles pra mexer, disse Dario.
José, que apesar de bêbado tinha momentos de invejável lucidez, obtemperou: “Não estou vendo onde colocar óleo nessa máquina, e, com esse fio que sai cá detrás, deve funcionar com a tal da eletricidade que a gente não tem na fazenda; que tristeza...”. Francisco caiu sentado.
Mas, no decorrer da semana, ele achou num dos livros um modelo de pilha que poderia fornecer a eletricidade. Com a ajuda de “meia-garrafa”, algumas sugestões de Harumi, e os reagentes trazidos da capital, a pilha foi construída. Ligaram o televisor à pilha, contudo, para decepção das crianças, os ditos bonecos não apareceram. Será que a força gerada era muito fraca, ou nenhuma eletricidade aparecia?
Pondo os dedos simultaneamente nas extremidades da pilha, nada era sentido. O teste final foi tentar separar os dois elementos componentes da água através duma corrente elétrica. A pilha passou no teste desta desidrólise da água. A força é que era fraca para um televisor.
Então, José deu uma solução mais fácil. Foram a Nhandeara, compraram baterias para rádio, e as ligaram em série com o televisor. Um chuvisco apareceu na tela; experimentaram todos os canais, mexeram na antena, mas remanescia apenas um chuvisco sem imagem. O aparelho só serviu de enfeite na sala, e juntou poeira ainda por muitos anos até que se instalassem estações retransmissoras para o interior do estado das ondas eletromagnéticas emitidas em São Paulo.
Embora estudando Química, o objetivo de Francisco era a Biologia. Após realizar algumas experiências químicas que aprendeu nos livros, ele uniu numa idéia três áreas do conhecimento: Biologia, Química e Física. Notou que ao fazer esforço físico ele sentia calor, e algumas reações químicas produziam calor; portanto a energia química produzia movimento, ou melhor, energia mecânica, e calor no ser vivo. Para completar, ele reparou que não bastava água e terra para uma planta viver; uma muda de café, que ele deixou no escuro do galpão, morreu por falta de luz; além disso, os animais também precisavam de luz, pois a base de toda cadeia alimentar eram plantas. Faltava estudar a luz.
Com os meios rudimentares de que dispunha, a nenhuma conclusão chegou sobre a decomposição das cores e outras propriedades da luz, a não ser a de que ela se propaga em linha reta. Mas cogitou que havia uma possibilidade de a luz ter velocidade limitada. Para comprovar a idéia, saíram à noite ele e José munidos cada um com uma lâmpada a querosene, e postaram-se na estrada a mil metros de distância um do outro. Num momento, Francisco cobriria sua lâmpada com um pano; quando esta mensagem chegasse a José, ele deveria fazer o mesmo, retornando o sinal a Francisco que contando o tempo de ida e volta e sabendo a distância percorrida poderia calcular a velocidade da luz. Mas pareceu a Francisco que seu movimento e o de José eram simultâneos. Chegando em casa, disse a Harumi: “Se a velocidade da luz não é infinita, é rápida demais para ser medida”.
Ora, mas isso já era estudar Física. Também os fenômenos químicos se deviam ao modelo físico dos átomos. E os seres vivos eram ricos laboratórios químicos. Francisco verificou que toda a matéria bruta ou viva do mundo perceptível estava submetida às leis da Física.
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 10

CAPÍTULO X
As incursões
de Francisco nos domínios da Química,
que o levou à capital paulista.

Ou devido aos estudos com técnicas rudimentares, ou por realmente crer que as mães são mais capacitadas para tal ofício, Francisco influenciava um mínimo na educação dos filhos, limitando-se a narrar-lhes contos, alguns verídicos, outros fictícios. Na verdade ele virava um grande menino no meio dos filhos, lembrando as travessuras que aprontava quando criança em Sorocaba. Mas aconteceu que o tio de Fernanda, que a acolhia na cidade durante a semana, apareceu com a sobrinha na fazenda certa manhã comunicando a Harumi que Fernanda não ficaria mais na casa dele por que flagrara-a beijando um rapaz. Harumi já queria catar uma vara de marmelo para bater na filha quando Francisco interveio apaziguando os ânimos. Primeiro pediu desculpa ao tio de Fernanda, prometendo que isso não se repetiria. Depois, dirigiu-se à menina nos seguintes termos: “Minha querida, você deve ter visto outra mocinha dando beijos por aí, e quis fazer o mesmo para se exibir, não é? Que ridículo... quem namora quer casar, e para casar há que ser adulta. Olha, falta pouco, espere uns dois ou três anos, está combinado?”. Fernanda admitiu a imaturidade, pois não sentia atração pelo rapaz que beijara, prometendo se comportar. Assim, ela pôde voltar à casa do tio.
Algumas questões familiares qual essa, e o quotidiano trabalho, embora nunca afetassem a calma de Francisco, estorvavam-lhe a concentração nas pesquisas químicas para as quais dispunha de recursos precários. Houve um caso, dentre suas inúmeras desventuras, digno de ser contado. Francisco estava sentado na soleira do galpão, abatido por mais um fracasso na tentativa de isolar o agente estimulante do café, quando José pôs-lhe as mãos nos ombros, e disse: “A vida é dura, meu amigo”. Francisco, displicentemente confirmou: “É... a vida é dura”. Ao que José emendou: “Para quem é mole!”. José ficava muito engraçado estando bêbado.
O êxito maior alcançado por Francisco no tocante ao café foi forçar a casca e a poupa separarem-se da sua infusão, o que qualquer pessoa dispondo de um coador de pano ou papel poderia fazer. Desacorçoado, ele acrescentou açúcar no líquido resultante e bebeu. Aí surpreendeu-se com a idéia de que o açúcar é que era estimulante, mas como sempre era misturado ao café, atribuía-se a este último aquela propriedade. Então, passou a ministrar água com açúcar para curar as bebedeiras de José, o que só agravava o efeito do álcool; por outro lado, o café sem açúcar surtia efeito. A teoria falhara.
As descobertas de Francisco usualmente eram triviais e óbvias, muitas não merecendo ser relatadas, todavia a verdade é sempre óbvia uma vez provada. Ele que jamais estudara Química em compêndios, achava tudo novidade; como, por exemplo, quando descobriu o “equilíbrio de densidade”, para usar suas próprias palavras. O experimento nasceu por acaso. Harumi deixara uma caçarola de feijão esfriar; Francisco, procurando o que comer, destampou a panela e enojou-se com a gordura que boiava sobre o caldo. Logo, pensou que se a gordura boiava seria por que esta era mais leve que a água. Quem sabe se uma maior quantidade de gordura para um mesmo tanto de água faria a gordura afundar? Então, pegou um copo e nele colocou um pouco de água; em seguida foi acrescentando óleo, mas o copo chegou a encher-se e a água ainda permanecia no fundo. O que importava era a densidade, não a quantidade: para um mesmo volume a água invariavelmente pesava mais que o óleo.
Buscando uma substância cuja densidade fosse igual à do óleo, Francisco misturou óleo com o álcool que José andava bebendo na falta da cachaça; desta vez o óleo é que afundou. Então, fez uma solução de água com álcool. Primeiro encheu pela metade um copo com álcool, adicionou uma pequena medida de óleo, e José começou a pingar a água. O óleo, inicialmente todo no fundo, foi subindo até formar uma esfera no centro do copo. Era, portanto, possível manipular a densidade das soluções! Dario, que presenciara a experiência, lembrar-se-ia para sempre disto como uma divertida brincadeira do pai.
Outra questão que intrigava Francisco era o “apodrecimento do ferro”, ou seja, a ferrujem, a oxidação. Por que o ferro das enxadas era corroído, ao passo que as engrenagens de ferro lubrificadas do amassador de pão pouco se desgastavam? Era possível que isto se devia ao fato da enxada sofrer um uso mais forçado. Para tirar a prova, Francisco poliu duas lâminas de ferro, deixando-as totalmente limpas; uma ele submergiu num pote com graxa, a outra ele guardou numa estante do galpão. Quando a do galpão ficou bem enferrujada ele removeu a graxa da segunda lâmina examinando que nesta quase inexistia ferrugem, e fez a seguinte anotação: “O contato com o ar provoca ferrugem no ferro. Nos animais, analogamente, é capaz que dentro do pulmão ocorra uma reação química semelhante”.
Mas o que tinha o ar para causar ferrugem?
A chave para o enigma veio numa festa de São João no sítio da comadre Josefa. No meio do terreiro uma fogueira iluminava a noite, e sob suas brasas eram assadas batatas-doces. José bebia quentão, um sanfoneiro enchia o ambiente de música, os convidados dançavam, e as crianças imitavam os adultos do jeito que dava. Francisco pensava na maneira que o fogo transformava a madeira em carvão. A tese nenhuma chegaria se não tivesse presenciado o fim da festa consumado com Josefa cobrindo a fogueira com terra para extinguir o fogo. Da mesma maneira que a graxa havia separado o ar do ferro, a terra separava a madeira do ar impedindo a combustão. Daí Francisco concluíu que o processo de ferrugem era um tipo de combustão. Para finalizar, ele botou um toco de vela aceso dentro dum copo de vidro tampando-lhe a boca; em segundos a chama se apagou, mas ainda existia ar dentro do copo pois não se fez vácuo para dificultar sua abertura. Portanto, não o ar como um todo, mas um seu componente é que viabilizava a combustão e a ferrugem. Ou ele poderia ter chegado ao famoso postulado de Lavoisier: nada se cria, nada se acaba, tudo se transforma. Mas não foi o caso.
Infrutiferamente, por anos Francisco buscou descobrir quantos eram os componentes do ar, e separá-los. Pensou também em decompor a água, igualmente fracassando. Vendo-se exaurido de técnicas, Francisco deliberou empreender uma viagem à capital estadual afim de comprar livros e equipamentos. Harumi, agora já conformada com as pesquisas do marido, aprovou sua vontade apesar de lastimar o gasto pecuniário que a viagem consumiria.
Francisco juntou as escassas economias da família, e partiu.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 9

CAPÍTULO IX
Começam as experiências
científicas rudimentares de Francisco
na fazenda.

O cafezal já estava formado; Francisco e José retiravam o leite de manhã, almoçavam, e tinham o resto do dia praticamente livre, a não ser que houvesse uma vaca parindo, uma bicheira para curar, ou algo a resolver na cidade, o que era muito raro.
Fernanda permanecia a semana inteira em Nhandeara na casa de um tio afim de estar mais próxima da escola. José gastava as tardes a fabricar utensílios e brinquedos de madeira que comercializava num bazar de libaneses na cidade, gostava também de rotineiramente vistoriar a cerca da fazenda quando se sentia um verdadeiro senhor feudal; isso quando não enchia o bucho de água-ardente, o que era mais comum, pois todo dinheiro que ganhava no bazar virava cachaça, razão pela qual ele afirmava que nunca poderia arranjar uma esposa por já estar casado com a bebida. Harumi era mui zelosa pelo recém-nascido Dario, mas rejeitava os afazeres domésticos, trocando-os por qualquer jogo de baralho, costume que adquiriu com o falecido Oswaldo. Resulta que as horas livres de Francisco tinham que ser dedicadas a fazer companhia à esposa no jogo.
No começo Harumi se entreteu demais nas tardes de jogo com o marido, mas depois foi percebendo uma gradativa displicência dele: “Francisco, você está me deixando ganhar; assim não dá! De agora em diante vou jogar com a comadre Josefa como costumava fazer”. Assim, ela pegava Dario e ia ao sítio vizinho encontrar Josefa, livrando Francisco para fazer o que quizesse.
E o que ele queria? Dedicou dias à meditação infértil até dar-se conta que o que mais havia na fazenda eram seres vivos, ele estava rodeado de vida por todos os lados. Achou que seria divertido construir uma biologia.
Primeiro sistematizou o estudo classificando os seres vivos em dois grandes grupos: vegetal e animal. O que os distinguia era a locomoção, propriedade característica dos animais, da qual os vegetais seriam desprovidos. A partir daí adotou outros critérios de classificação, tais como ciclo vital, modo de nascimento, reprodução, e mais alguns.
Um dia, ordenhando uma vaca, quis saber como o leite era produzido. Creio que só abrindo o bicho pra ver, disse José.
Desde então Francisco ficou ansioso que uma vaca morresse, afim de poder desvendar o mistério do leite, dissecando-a.
Pare de ficar agourando as pobres vaquinhas, disse-lhe Harumi ao saber da sua sinistra intenção. Mas querida, eu não vou matar; farei tal qual o urubu: espero morrer primeiro, depois...
Doido!, foi o veredito de Harumi. Ai meu Dario, continuou embalando o filho no colo, você não vai perder o juízo igual seu pai, vai? Lembrando bem, acho que ele nunca teve; é moleque até hoje.
Demorou quase dois anos para uma vaca adulta morrer. Entanto Francisco estudava o sistema circulatório das plantas, e tentava explicar a cor verde das folhas em geral. Harumi teve mais duas filhas: Renata e Lucilene. Por essa época Dario já conseguia andar, e acompanhou José campo adentro procurando uma vaca da qual tinham dado falta. Encontraram-na atolada; a cena grotesca ilustrava perfeitamente a figura de linguagem da gíria popular quando diz que “a vaca foi pro brejo”, significando que tudo deu errado. José e Francisco tentaram salvar o animal laçando-o pelo pescoço e puxando, sem êxito. Tiveram que chamar o trator da prefeitura que conseguiu desatolar a vaca, porém, fraturando-lhe o pescoço. Era a oportunidade esperada.
O trator arrastou a vaca morta até o terreiro de secagem do café, onde deu-se a dissecação num estilo bem rudimentar, com faca de cozinha e a céu aberto, debaixo dum forte sol. Fazendo a observação a olho nu, Francisco só pôde chegar a uma conclusão superficial. As glândulas mamárias eram irrigadas por sangue que provavelmente alí sofria uma ou mais reações químicas para se transformar em leite. Certo, não havia milagre. O processo era químico.
Harumi viu o lado prático deste estudo orientando Francisco a destrinchar o resto da vaca antes que começasse a apodrecer, além do que a colheita do café estava perto e o terreiro tinha que ser limpo. Então, ela salgou a carne e a distribuíu entre Josefa e outros vizinhos, como era costume nos tempos em que o meio rural não conhecia eletricidade e muito menos geladeira. Até meados do século XX, mesmo nas grandes cidades brasileiras este costume fraternal prevalecia, sendo os bairros verdadeiras famílias; eram também os tempos das serestas que podiam começar com um melódico solo de flauta... logo um vizinho chegava com um violão no acompanhamento, alguém vinha batucando um pandeiro, e assim as noites se alegravam com saudosa simplicidade.
Mas, voltando à fazenda, a dissecação da vaca não se limitou ao estudo do leite. Francisco aproveitou para estudar os órgãos internos, notou que cada tecido tinha uma função colaborando uns com os outros; daí teorizou que, em tempos remotos, as células que constituíam os órgãos viviam independentes, cada qual com suas características, até que por acaso passaram a colaborar entre si formando colônias que por sua vez originaram as primeiras plantas e animais. Harumi achou esta teoria uma delirante heresia; ora, será que o marido havia esquecido o livro do Gênese? Eis o lamentável conflito entre ciência e religião.
José divertiu-se com a teoria do patrão crendo-a bem possível, mas ao fim sentenciou: “Bicho, para mim, é apenas um grande tubo digestivo”.
O que, portanto, faria funcionar esse tubo digestivo? As víceras produziam substâncias para a digestão; contudo, abrindo os órgãos, nada além de tecidos era visto. Mesmo o coração, o que o faria pulsar?, e o que ocorreria no pulmão? Um dia, vendo Harumi a preparar o jantar, Francisco contemplou a lenha se transformando em carvão, e de um salto exclamou: “A resposta está na Química!”.
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