sábado, 5 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - personagens e intro



OMNIBUS IN MUNDUS




(DOS PERSONAGENS)
Elas tentaram; eles também; os outros vieram; muitos passaram; alguns não; e aquele que firmou o pé e nunca existiu, também teve seu anônimo e belo enredo; e todos participaram do enredo universal.


(À GUISA DE INTRODUÇÃO)
Ele, que pensou morrer jovem, resistiu bravamente até os dezenove anos de idade; e, então, estava velho. Elas, que se acreditavam senhoras da eternidade, morreram antes da velhice. Outros nasceram velhos. Alguns, velhos, morreram em mocidade. Mas aquele que aos trinta dias do mês de fevereiro, tendo partido desde a Escola de Minas rumo ao Morro de São João e, certificando-se de que ali em 1698 os bandeirantes fundavam Vila Rica, tocou com absoluta alegria o badalo do sino caído-de-maduro, aquele nunca existiu; mas nem por isso deixou de maldizer alguma vez o dia em que nasceu. A verdade é que todos acabaram do mesmo modo: morrendo; e se nem todos amaldiçoaram alguma vez o dia do próprio nascimento, todos seguramente choraram por algum motivo neste dia.
Ele viveu dezenove anos. Considerando o código genético humano permitir cerca de cento e vinte anos de vida, a dele não chega a dezesseis por cento. Sob um diverso entendimento , mil anos é um tempo considerável para a História, ao passo que nada significa para um elétron. E se encerradas as férias escolares, parece que ontem foi o último dia de aula, ele pode ter vivido bem uma eternidade e ninguém nunca saberá por quê. Já aquele que tendo nascido no cume dum vale nos Alpes Africanos, dividiu o período de sua vida e fez esta divisão tender ao infinito, aquele nunca existiu.
Acorde aos outros, ele provavelmente se tenha reconhecido pessoa em torno dos três anos; jurava, porém, de pés juntos que o haviam sacado do abdômen de seu pai após uma gestação extra-uterina arriscadíssima, embora seu parto houvesse sido normal (e materno). Elas desde sempre se escandalizaram, e proclamaram. Alguns se abstiveram. Aquele único fiel amigo que jamais duvidou desde a primeira vez que a ele ocorreu blasfemar a esdrúxula pilhéria, aquele nunca existiu.
Seria assim razoável aceitar que seus anos conscientes tenham amontado dezesseis. Sucede que ele não vem a ser um só indivíduo em particular, e é fácil que por vezes seja inclusive aquele que estando até mesmo inconsciente vive o que bem ou mal teria sido aquele que nunca existiu. De sorte que ele tanto poderá acompanhar com precariedade indulgente o ciclo vital dum pepino, quanto deitar ao pó o da seqüóia adamastórica.
.