sábado, 12 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - necrofilia


O mais difícil não era suportar o contato do corpo frio, nem por vezes o cheiro prenúncio da decomposição, mas a rigidez cadavérica é o que mais lhe estorvava e tirava o ânimo em seu afã necrófilo. Aquela noite, porém, tudo estava cheiroso, macio, e firme apenas nas partes assim desejadas.
No pequeno vilarejo basco em que ele morava lá pelos idos do século XIX o casamento era muito comum de ser combinado entre os pais dos noivos. Todavia seu casório haveria de sair mais venturoso que o de ordinário, tendo por impulso o raro e confuso sentimento de amor. Josefa, a noiva, tinha sido criada pelas freiras e trabalhava para elas como enfermeira; a ausência de família e a disciplina das irmãs só lhe trouxeram benefícios: esbelta, ativa, teve oportunidade e juízo para encontrar um noivo adequado, e era uma mulher com profissão.
A celebração do casamento foi misteriosamente sendo adiada pelas freiras semanas a fio até sobrevir o incontéstil diagnóstico da tuberculose de Josefa. Certamente a contraiu de algum paciente. O fim não tardou, e um ano depois quando o enterro saiu ele parecia mais tísico que a morta. Na mesma noite, pulou o muro do cemitério e retornou em absoluto silêncio e sem lágrimas ao túmulo de Josefa; conseguira o que jamais fora capaz: pensar em nada. Teve ímpeto de profanar o túmulo —que a poucas horas ajudara fechar--, queria possuir a noivinha que acabou tão frágil! e lhe pareceu mais linda que nunca... disparate, queria engendrar-lhe um filho!
Respeitou o túmulo da noiva, mas usou o corpo de outra mulher recentemente enterrada. Não passado muito tempo, foi à casa das mulheres públicas e passou a co-habitar com a moça que melhor entendeu-se com ele. Ela remanesceu na profissão, pela renda e por já ter se acostumado. Abstiveram-se de ter filhos; adotaram uma criança, que por isso não seria chamada de filha de puta. À noite ela ia para a vida, ele para a morte; enquanto a mulher ganhava uns dinheiros, ele profanava os túmulos e usava o corpo das mulheres.
Assim foi até aquela noite. Era esquisito, estava muito natural, muito bom para acreditar; talvez houvesse se acostumado... era uma defunta recente, e era virgem e quase menina. E então, depois de consumado o ato, quando ela abriu os olhos e pôs-se de pé, sem espanto a mente insana dele creu tratar-se duma forma vária de sua finada noiva.
Logo na manhã seguinte o vilarejo inteiro proclamava o milagre; pouco morou para que beatos de toda Ibéria afluíssem ao lugar. A Igreja acusou ele de profanador de túmulo. Foi grande a polêmica. Mas as polêmicas são esquecidas. Esquecida também foi a menina nascida daquele encontro, que por questão da família foi entregue aos cuidados das irmãs religiosas; tornou-se mais uma dentre as santas anônimas da Cristandade, e seguramente haveria de se tornar a mais bela filha que à Humanidade trouxe em todos os tempos o País Basco. Batizaram-na Josefa.
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