segunda-feira, 7 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - do Eclesiastes

OMNIBUS IN MUNDUS


(DO ECLESIASTES)
Todos estavam contentes aquele dia. Faziam o trivial. A pueril aparição do sorriso mais solto soltou as rédeas da tristeza, que assume tantas formas quantas há de alegria.
Alguns aprendiam com elas aquilo que é feio e isso que é bonito. A preferência quase unânime laureava o feio; elas ralhavam; alguns zombavam e se regozijavam ainda mais, a macacada pulava de galho em galho e se coçava toda; elas se davam por satisfeitíssimas —ora, cumpriam o dever prioritário da pátria! da pátria que governariam.
Alguns simplesmente faziam barulho, o tanto quanto suportavam, até a prostração deleitosa.
Alguns tagarelavam a falar de tudo quanto pudesse ser impertinente. Nada se resolvia nessas conversas; nenhum assunto era discutido a fundo senão a fundo perdido, e embora cada tema fosse devassado às minúcias mais subatômicas, coisa nenhuma comprometia ninguém. E era bom ouvir e falar besteira.
Alguns brincavam de guerra, e realmente matavam-se uns aos outros —já que estamos aqui para isso mesmo, não é gente? Se a morte fosse propriedade alheia, acharam a maneira mais oficiosa de a usurpar. E empolgavam-se sobre modo.
Alguns simplistas redescobriam o paganismo reduzindo a totalidade dos rituais ao culto de Baco e Afrodite. Outros, mais ortodoxos, ainda integravam a seita hermafrodita. Sabe-se que o fanatismo religioso, por vezes levava ao envernizamento de falo —celebrado em apoteose.
Alguns —e estanquemos nestes para evitar a citação de artes mais elevadas qual fazer mandinga, umbanda, quimbanda, tocar reco-reco na banda, e debandar na chuva em procissão a São Tomé —alguns consagravam toda hora útil ao mui difundido hábito de coçar o saco.
Ele passeava ao largo, sem palavra nem esclarecimento. Foi então que ao sorriso mais inocente de contentamento, de seu ventre brotaram pestilentos impropérios de tristeza. Todos ao redor sentiram as emanações sem que ele falasse. Efetivamente, ele é que por veleidade imaginava uma existência sublime. E aquele o qual ele logrou enlouquecer, aquele nunca existiu.
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