domingo, 13 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - do descuido






OMNIBUS IN MUNDUS



(DO DESCUIDO)
Ele passou tão desapercebido pelo mundo que nem lembrava como nasceu. Nunca soube ao certo quem era seu pai, nem sua mãe lá na casa; porque a cidade tinha tantos bairros, e os bairros tantas casas! Era difícil assegurar-se ao certo em qual delas fôra criado. Daí não recordar-se do nome que deram seus progenitores para si.
Bendito o dia em que sua avó o ensinou um truque para lembrar do que necessitasse, ou seja, tudo, sem exceções. Mas deu-se que a jovem octogenária, em tempo, esclerosou perdendo um tanto a memória —fato que insinua a hereditariedade do problema. Assim, o menino olvidou a razão de algumas vezes por dia amarrar barbantes nos dedos das mãos. Em uma semana estava que era só barbante, e cogitava partir para as falanges dos pés. Anos mais tarde, este hilário episódio ainda era evocado pelas comadres e aranzéis de botequim.
Ele despertava segunda-feira e esquecia de sair para a repartição. Só não permanecia o dia todo de pijama porque na noite anterior esquecera de tirar a roupa de rua. Não esquecia de se levantar porque primeiro sempre esquecia de deitar, e não chegava atrasado e o chefe o elogiava porque ele estava no serviço desde sexta-feira quando esquecera das horas. De modo que não batia o ponto, perdia ponto, passou do ponto, dormiu no ponto, e esqueceu de se aposentar.
Na adolescência, é bem verdade, só pensava em namorar. Mas não era mulher rendeira, nem nunca ensinou ninguém a fazer renda, e esqueceu o namorar. Uma única mulher, contudo, marcaria para sempre a sua vida sentimental, jamais esvair-se-indo de sua mente, desde aquele domingo fatídico em que no Alto da Glória, vestida de noiva, ele a esqueceu. Nos versos tantos que esqueceu de compor, era dela que ele esquecia.
Muitas coisas mais acerca de sua vida poderiam ser ditas ou... omitidas, recordadas ou esquecidas. Mas findemos pronto esta narrativa, e não sigamos o exemplo dele que esqueceu o remoto dia de sua escolaridade em que o professor de gramática o chamou de prolixo. Desarte, por terminar, dou ciência de como ele se encontra no presente momento.
Não se encontra, não se cuida: se esquece. Andou esquecido das horas, foi. Esqueceu-se também do tempo. Ficou velho, velhinho, velho velho Austragésilo. Os cabelos, foi esquecendo-os um por um no ralo do banheiro. Esqueceu também a dentadura onde Judas perdeu as botas, e só não perdeu a cabeça por ser de natureza pacífica e porque afinal de contas todo o mundo sabe que a cabeça está grudada no pescoço. Por último esqueceu de erguer a tampa da privada, e ainda: que raios haveria de fazer naquilo?
De descuido em descuido descuidou-se em ser prolixo. Acabou na Academia Brasileira de Letras. É imortal. Esqueceu de morrer.
Descuido maior?!
.

5 comentários :

Caio Timbó disse...

Hahaha
Faz tempo que não vinha aqui.
Talvez não me lembrava que era engraçado.

Cáh Morandi disse...

imortalidade é muito tempo. e o novo?

Marcos Satoru Kawanami disse...

Cáh Morandi,

É verdade. Quando eu escrevi o texto "do descuido" eu tinha 17 anos, e a vida ainda era novidade para mim; então, pensava que o eterno não seria tão enfadonho. Por outro lado, um imortal pode se renovar, se atualizar, se modificar, se revigorar e se adaptar continuamente. Mas eu ainda me lembro o que realmente quis dizer na época: sacanear o pessoal da ABL, que se intitula imortal; tanto que a ilustração é o túmulo do Machado de Assis; foi uma piada de um moleque de 17 anos.

Marguerita disse...

Não entendi!

XD

:s

Marcos Satoru Kawanami disse...

Marguerita,

studi pra intendelas,
poi só qui giá studó Astrolonomia
é capais di intendê istas istrella.
(Juó Bananère)