sexta-feira, 18 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - das convenções



OMNIBUS IN MUNDUS



(DAS CONVENÇÕES)
Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, ele menino encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência. Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
Apesar de ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas condições subiam os dois primos pelas escadas rolantes da estação Tiradentes, e já desciam a avenida onde dobrados e marchas insinuavam anunciar a passagem dum grande circo. A certa distância, uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. Ele quis saber das arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades, em destaque, e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes anos de idade, respondeu Francisco com ares de presunçosa superioridade de dezesseis, dizendo que o outro estava a confundir a metralhadora do soldado com o reco-reco do passista, e os doirados do almirante de fragata com os da porta-bandeira e mestre-sala; misturando pelotão de artilharia com escola de samba, e desfile da pátria com carnaval. Pois arquibancada na rua, só no carnaval, e cara. Sim, vamos assistir em pé.
Ele pareceu não gostar muito desse negócio de não haver onde acomodar as pequenas nádegas, mas agüentou-se calado por alguns minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as mesmas intenções suas: ir embora!
—Chato essa chuva, não é? Olha, pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai continuar. E a gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na nobreza deste dia —começou a dizer— imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e verás quão insignificante é este o nosso.
—Ora pois sim,— ele buscava argumentos que favorecesse seu lado (ir embora) e depreciassem a importância do desfile —que sacrifícios? que heróis? Você delira. "Independência ou morte!" e acabou-se. A colônia do pai virou império do filho; tudo em família, tudo na santa paz.
—Disse pouco, mas disse bem, tudo na santa paz. Assim foi nossa independência, o que não é vergonha alguma. Antes, é fato que vem a distingui-la mais ainda, posto que maior proeza que valer-se da espada por um agravo qualquer é guardá-la precavidamente na bainha, e tê-la segura à mão quando de uma emboscada.
—Espada? bainha? emboscada? quiii...
Pondo de lado sua vontade de ir embora, ele começava a se preocupar com o raro comportamento do primo. Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho tão ardoroso da pátria. Pelo contrário, sempre se mostrava indiferente e quase cético ante as paixões da coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes. Sobre essa disfunção de comportamento, ele ponderava em sua mente infantil que Francisco só poderia estar ensandecendo. Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com febre; o outro respondeu cantando: "Amor febril...pelo Brasil".
Não passaria isso de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores? Acometido por esta idéia, ele franziu a testa e fez brincando:
—Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu lado!
Vendo ele que o primo não atentara às suas palavras, proferidas em meio ao zumbido da multidão e ao repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém um tanto ainda desconfiado. Francisco não lhe pareceu estar agindo muito conforme o ordinário de sua personalidade; também, por outro lado, sinal nenhum de representação ou disfarce deixava-se transparecer sob seu semblante.
Francisco era outro. Símbolos nacionais, armas e generais, motivos seus de indiferença, ojeriza e mofa de outrora, mais pareciam nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
—Ei, acorda Fran-cis-co!
—Io.
—Que aconteceu contigo? Donde veio essa idéia de heróis com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio de patriotismo é esse que menos deve ter caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira. Olha, não tem graça nenhuma: você está todo molhado, eu também, e a pátria nem aí conosco. Sua mãe eu não sei, mas a minha vai ficar danada da vida quando me ver nesse estado de roupa no varal. Está me escutando, sim?
Francisco escutava muito bem. Na verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu patriotismo. Buscava tão somente ilustrar um assunto sobre o qual discorreria ao término do desfile.
—Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
—Correto —replicou ele ironicamente —e por isso, concordo, havemos de ficar na chuva.
—Não, ali.
Afastando-se da multidão, encontraram abrigo sob um ponto de ônibus que se achava deserto devido à interdição da avenida aos veículos. Da mesma forma como esteve até agora, com a fronte voltada para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
—A questão é simples: convencionar.
—Eu —prosseguiu Francisco em tom mais grave e voltando-se para o outro —falo do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a você. Vejo a vida ser traçada por convenções, e dessas dependem nosso estado geral de ânimo, idéias, reações; são como bússolas internas a nortear nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que esteja previamente convencionado, e que seja respeitada integralmente a convenção.
Ele, atordoado, mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido algum que viessem a ter. Francisco, falando.
—O desequilíbrio não é necessariamente a loucura; são coisas distintas. Fique claro: o louco, pela própria loucura, já chegou ao equilíbrio. Porque o louco é coerente. Prova é que, depois de conhecido, suas ações são previsíveis, ou previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como benefício. De modo que nada do que digo faz menção à loucura, abordo a questão do desequilíbrio.
Algo vinha, de forma crescente, a preocupar-lhe já há algum tempo; inicialmente uma intuição desagradável. Cada vez mais a vida ia como que esvaindo-se das pessoas. Os ponteiros dos relógios, os carros nas ruas, a agitação usual da cidade, e tudo que provinha desta Humanidade, parecia mover-se por inércia, existir pelo hábito de existir, tudo assim parecia ficção, depois sonho, ao fim, farsa! Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a civilização prestes a parar. Sim, parar porque não encontrava motivo concreto a explicar o sentido das coisas humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
—Chegava primeiro de setembro. Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia estar parando perante a indiferença agonizante com que tudo se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estava eu vendo a realidade pelos enganosos prismas do —foi então que me ocorreu— desequilíbrio. Ou desequilibrada era essa gente que vivia a sustentar a farsa? Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese. Porém, as divagações recusavam-se pertinentemente a seguir o traçado prescrito, conduzindo-me o mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrém. Não raro, o encontrei.
Francisco com ademanes fez uma pausa. O outro, que permanecia calado, aproveitou para se pronunciar:
—Então você não era desequilibrado? Mas todo mundo também não poderia ser. Quem ficaria sendo finalmente?
—Priminho, vamos mais devagar. O desequilíbrio é muito comum e suas causas diversas. A princípio, um exemplo, o que nos dá meu tio, seu pai.
—Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns anos para cá ele tenha ficado estranho, meio triste, fala menos... mas para lá de ser louco!
—Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa causa. Não era seu pai que, quando moço, imaginava o homem a dobrar por completo a natureza à sua vontade? que acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento e prestígio?
—Sim.
—Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde, hoje, vê aquele homem retroceder perante a revolta da natureza, e vê seu país vinte anos mais moderno e individado? Não é ele mesmo que projetava ser através de seu esforço reconhecido, e que trabalhou com afinco pra que dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e ferro?
—Estou entendendo...
—Os antigos valores —concluía Francisco —sobre os quais seu pai edificou a vida extinguiram-se, e ele quedou desequilibrado. Veja, esses valores extintos nada mais são que convenções quebradas. A pesar de se apresentarem de formas distintas, a causa régia do desequilíbrio de seu pai é a aflição que se instalou na mente dele por ocasião da dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
—Agora atropelei as idéias, confundi...
—Você entenderá. Conhece Hurtado?
—É, por acaso, aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi preso quando se confessava na igreja!?
—Ele mesmo, o lendário Hurtado de Santa Cruz De La Sierra, o demônio branco; que foi preso no confessionário. Era desequilibrado.
—Os malfeitores —retrucou ele absoluto —são desequilibrados. O desequilíbrio leva à prática do insensato, ao mal caminho.
—Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom caminho. Ele era bandido e portava-se como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo ruim; sua vida, pecado; sua consciência, limpa; ele, feliz. Naquele momento da confissão, suas convenções dissolveram-se. A fé, equilíbrio de outros, foi, no caso de Hurtado, refúgio do desequilíbrio. De maneira que o problema reside primeiro nas convenções, segundo na quebra das mesmas; e ainda depende da personalidade.
—Quer dizer que todos estamos sujeitos?
—Desde que deixemos de crer nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas. Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os motivos não têm mais resposta, seu peso faz pender a haste, eis que se estabelece o desequilíbrio. O resultado imediato é aparentado pelo profundo desgosto, desânimo, tristeza; o que hodiernamente recebeu na terminologia psiquiátrica a designação de depressão.
—A amargura, a tristeza —deduzia ele alumiado —a tristeza do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
—Policarpo? —Francisco fez surpreso —Vejamos o sonhador major Policarpo Quaresma: não, desequilibrado não, triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
—Sim.
—Bem, as convenções dele nunca se quebraram. O seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a pátria, a pátria seu maior afeto, e pela pátria viveria. No cárcere, anos depois, uma lágrima despontava em sua face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de um pobre bastardo do mundo, que sempre fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver, que até o último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto dos dezoito anos, e que uma vida depois diante do pelotão de fuzilamento não reconheceria a pátria na farda verde-oliva do soldado cujo pau-de-fogo viria a deferir-lhe o projétil letal; pois nos dias de prisão em Villegagnon, era também a pátria carcereiro; ele não via.
Pode ser que as convenções de Quaresma tenham sido firmadas no sonho, mas importante é não ter ele sido desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias, pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir; elas são as regras. Não há verdade única que indique as convenções, absolutamente.
Meu caso foi, na ocasião em que desacreditei da importância da civilização existir da forma que existe, ter negado a todas as convenções possíveis. O desequilíbrio foi completo. Acredite, é um estado entre afogante e afogado.
Francisco calou esperando a reação do primo, ao que este lhe perguntou admirado:
—E você ainda está assim?
—Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje pela manhã, pouco antes de ligar para você e convidá-lo a acompanhar-me no assistir o desfile das armas, foi aí, idéias que vinham fermentando em minha mente quase no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e expandiram-se para o campo saudável da ação: Convencionei-me! E para tal fazer é de mister a humildade de adotar valores que a Humanidade criou, ainda que careçam de razão plausível. E o que resta é viver, ter aspirações, decepções, pelejar pelas esquinas da vida, ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva), momentos de prantina e consolo, tristeza e alegria; é ter mais a arrepender-se do que fez que do que deixou por fazer, é não ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos sentimentos da coletividade, sim; de seus anseios e lutas. É viver também... —e a música sobressai-se à voz dele
Nesse instante a banda executa a Canção do Soldado. Ele corre para ver. Marcha o último destacamento de infantaria.
Alguns aplaudiam, outros cantavam, todos em manifestação. Acercando-se da multidão que começava a se dispersar, Francisco, endireitando o corpo, pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:
"Como é sublime
saber amar;
com a alma adorar
a terra onde se nasce!
Amor febril..."

A manhã estava por terminar. O nosso raquítico sol do meio-dia da independência, com toda deferência reservada ao dia, despontava por entre as sombras da senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para reclamar em outras freguesias, pois terça-feira, por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura agradabilíssima, um domingo fantástico, e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de setembro. Como de costume, o pessoal do palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado o maçante compromisso. Os militares a ponto de chorar de emoção (embaixo da armadura de ferro: coração de manteiga). Os demais, cada um a sua maneira: muitos, pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com a máscara do cidadão exemplar; outros, típicos foliões (finados, carnaval, tanto faz); a maioria alegre sem saber por quê.
Os dois meninos nossos conhecidos, igualmente, plenos de contentamento seguiram atrás marchando logo que a derradeira coluna de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças, sobrancelhas cerradas, o sangue à cadência do bombo, áurea radiante. Os sentidos vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
Tomados de benévola ingenuidade, brilhavam seus bons olhos, seus olhos sãos.
E aquele que, nunca tendo convencionado sua vida segundo os paradigmas engendrados pelas vivências, ainda assim veio a sofrer uma única decepção sequer, aquele nunca existiu.
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