domingo, 6 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - da moral











OMNIBUS IN MUNDUS







(DA MORAL)
Todos pediam uma moral para guia do convívio. Alguns a estabeleceram. Outros criaram outras mais. Do seu rincão escuro no resplandecente salão das eras, ele, velho, as vê desfilar uma por uma; repetindo o monótono cerimonial, elas nutrem esperança aos tolos; os sábios vertem-lhes palavras de cortejo; todas suaves e pudicas; mas é na concupiscência dos bastidores que permitem de bom grado serem violadas pelos hipócritas. Isso posto, ele as tem respeitado com o devido tratamento dispensado às damas, sem contudo esperar alguma consideração. Já aquele que tendo por genitora uma dessas ilustríssimas, nunca levou desaforo para casa, aquele nunca existiu.
Mas logo no princípio, quando o mundo foi criado, e todos nasceram e ele nasceu, o fundamento de sua visão de mundo foi distorcido; em certo grau devido a elas, que atribuíam a cada ação sua um predicativo estético: "aquilo é feio, isso é bonito". Em controvérsia, aquele que encontrou a causa dessa questão na disfunção óptica da qual ele sofria e que lhe permitiu somente aos oito anos de idade enxergar que os pássaros batiam asas para voar, aquele nunca existiu. Outros tinham diversas compreensões e morais. Alguns se diziam amorais. Alguns outros cambiavam freqüentemente de moral. Outros ainda, buscavam a vida inteira, sem que isso lhes desse sentido à existência. Resulta que a moral instou em marcar presença em todos os tempos na vida de todos.
Poucos souberam tirar proveito da moral; todavia, o bem comum ora a ferros, ora castrado, foi sendo preservado. Devido à lei da inércia, e por ser mais cômodo deixar ser conduzido que conduzir, muitos mormente se ativeram ao movimento retilíneo uniforme da conduta moral.
Agora, estará se ocupando de tais frivolidades quem se debruça sobre uma janela de sobrado no cruzamento da Rua dos Paulistas com a Camillo de Brito na cidade de Ouro Preto? Se a moral lhe estraga o dia, a esta sobrepujam por demais, num primeiro plano, os telhados patrimônio cultural da humanidade; mais abaixo, a inconfidente Matriz do Antônio Dias e as crianças reunidas junto à Fonte de Marília; ao fundo de tudo, o céu, exaurido de branco, a contrastar com o cinza, verde, e amarelo queimado dos braços colossais do Morro do Itacolomi que a urbe encerra numa cratera dos tempos imemoriais. A paisagem grita o esquecimento letárgico, aquele que lírico se encontre sob semelhante contingência, escreverá por acaso:

"Por acaso nasci no Novo Mundo,
Por acaso meu sangue vem do Japão.

E minhas veias lusitanas,
Por incongruências várias
Pertencentes a um coração judeu,
Fazem o orgulho do meu ser:

Por acaso me chamo Marcos.
Por acaso um nome muito católico.

Por acaso nasci numa cidade,
Resido em outra,
Mas tenho habitado mesmo é numa terceira:
Por acaso Vila Rica,
Mas, hoje, Ouro Preto.

Por acaso observei o céu de hoje.
Um milagroso luzeiro
Indicou-me que era dia!
Depois... que era lua-cheia.

Por acaso amanhã,
Ao pé de minha janela,
Dois gatinhos rolarão brincando.
E a cuidar disso hei de lamentar:
Tal bastasse ao amor!
—as razões estragam tudo...

Por acaso ainda
As pessoas tão intencionais
Entanto a Natureza tão
Por acaso."

Aquele que tendo escrito isso conseguiu estragar seu dia, aquele nunca existiu.
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