terça-feira, 15 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - da inocência









OMNIBUS IN MUNDUS





(DA INOCÊNCIA)
Eram os dias de céu nublado, as nuvens quase pretas pareciam formar uma crosta pesada sobre a terra, dando vontade para nada, senão dormir.
À tarde, conforme há séculos se tem esperado, choveu. Depois da chuva os namorados saíram às praças de cada povoado, e o dia chegou a fenecer tranqüilo com a missa dominical e o tempo ainda encoberto.
Deu meia-noite; o pai e a mãe estavam dormindo; embora não tão forte quanto antes, a chuva persistia. Podia-se notar um certo quê de ansiedade na expressão dele ao arrumar sua mala de viagem. Maria dos Anjos já devia estar no lugar combinado. Eles iam se encontrar em frente ao bar do Arlindo, e daí seguir para a estação, onde tomariam a barcaça-gaiola das seis horas partindo em direção a Manaus. O plano era perfeito. Eles se casariam no mesmo dia, e ninguém descobriria a tempo de os impedir. Sim, porque a família dele, bem como a de Maria, era ainda, e com muitíssima razão, declaradamente contra essa idéia.
Lá pelas tantas da madrugada: Maria, coitada, parecia mais um bichinho do mato em pé ao lado da mala; narizinho vermelho, cabelo empastelado sobre o rosto, vestido branco todo encharcado, ela esperava o noivo. Foi então que, entre trovões, a sombra de um homem aparentemente gigantesco surgiu sobre a calçada a poucos metros da mocinha. Esta, vendo a sombra crescer cada vez mais, teve medo que seu dono viesse a dobrar a esquina, e saiu correndo; imediatamente tropeçou na raiz podre de uma amendoeira e caiu.
Quem vinha era o noivo. Ele ajudou a noivinha se levantar, e os dois andaram lado a lado até a saída do povoado, onde ficava o último poste de luz. A partir daí o casalzinho teve que seguir no escuro, enfrentando o desconhecido e se orientando pelo olfato até as plantações de banana. Eles não estavam muito seguros, mas, pelo pouco das conversas que às vezes conseguiam escutar, era por ali que deveria passar a barcaça.
Já queria o dia clarear quando os dois chegaram à estação. Era uma estaçãozinha um tanto quanto sofisticada para o povoado ao qual servia, com alguns bancos de madeira e ferro, a bilheteria com dois caixas, sanitários, e até uma central telegráfica. Para ele, aquilo tudo era uma maravilha; ter chegado ali fôra a glória. E, agora, junto da noiva maquinava um truque para driblar o cobrador durante as três horas e meia de viagem até Manaus.
Maria, que nunca tinha passado uma noite em claro, sentou em um banco, e por maior esforço que fizesse para manter os olhos abertos, a imagem do noivo e tudo o mais foram se confundindo até que o sono a dominou por completo. De repente ela sentiu uma mão poderosa em seu ombro. Alguém a sacudia. Abriu os olhos e reconheceu um homem fardado e com boné: era Santos, o guarda da estação, que vinha direto do telégrafo.
—Façam o favor de me acompanhar —dizia ele. —Vocês dois.
Ele, que observava tudo, sentiu o coração parar de bater; a garganta estava seca, e foi com grande esforço que conseguiu intervir: —Mas meu senhor, nós vamos nos casar daqui a pouco!
—Está bem, eu compreendo —disse Santos. —Os guardas compreendem tudo. Agora vamos voltar para casa, e um outro dia vocês se casam. Amanhã, talvez.
—Amanhã? —perguntou ele.
—Sim, meu filho, talvez amanhã. Até lá vocês acabarão entendendo que um rapaz de sete anos não pode se casar com uma jovem de seis. Vamos embora, crianças; as mães de vocês estão esperando!
Só então ele percebeu que estava chovendo.
E aquele que, tendo se casado em qualquer idade, crente que estava maduro o suficiente para o matrimônio e realmente estava, aquele nunca existiu
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