terça-feira, 8 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - da hora-extra



OMNIBUS IN MUNDUS



(DA HORA-EXTRA)
Nos portos abarrotados, o trânsito infatigável de capital era a vitrine da guerra. Nas minas, aturava-se a fome para fomento da indústria. As fábricas a fabricar ira.
No uniforme recinto do lar, entre outros lindos pombais do conjunto habitacional B, setor J, ala D —a redenção do sono. Então, como um pesado navio cargueiro que desponta pequenino nos abismos da terra e vem com cautela arribar no porto consciência, chega o compulsório despertar. Pouco leva para acometer-lhe o distúrbio. Ora, como é devido encarar a realidade se esta se mostra dependente do momento e do lugar? Consoante, há várias versões de mundo: Velho Mundo, Novo Mundo, Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo, o Mundo dos Negócios, o Mundo Infantil, o Outro Mundo... É um paradoxo o universo parecer tão diverso. A ele não ocorre esta questão em plena consciência, senão por muda intuição; mas a rechaça com um punhado de água fria ao rosto, sentindo a insalubridade da temática justo antes da labuta diária.
Na esquina hibernal, na noite pia, elas e as crianças do bairro confortam-se em expectativa. Um menininho nem muito branco nem muito preto escala a muretinha de canga do canteiro e atira mixiricas com orvalho para a risonha senhora de Helsinki, mãe do Cláudio, o espanholzinho, que ficou em casa porque não quis tomar banho. Todos comem da mixirica fazendo folia; o Pedrinho ordena ao Manezinho que espie mais de perto um pedacinho de casca e espreme-lhe o sumo ardido nos olhos —isso é muito feio. O mundo infantil confunde-se com o mundo delas e, malgrado, de início, as mentes de Cláudio, Manuel e Pedro fossem nulas de entendimento, seus mundos (pois cada um já formava o seu) possuíam verdades sólidas, tinham amarras. É seguro, porém destituído de função um barco com amarras ao porto. Mas é fácil a felicidade dos que têm amarras em verdades de essência; talvez a fé seja menos um mérito do que a causa lógica da bem-aventurança.
Para ele a fé traduzia-se na plausibilidade jurídica das leis: as leis do Monte Sinai, as leis do Alcorão, as leis do Monte das Oliveiras; sem graça, mas com observância; sem esperança, tão somente senso de justiça. Neste exato momento, nem um pouco preocupado com fé alguma, espremido na condução superlotada (o humilhante) que o leva à fábrica, ele especula as implicações metafísicas da hora-extra de trabalho planejada para à tarde. Será que sua esposa sentirá admiração? E seus vizinhos da ala D? E o patrão? Provavelmente, caída a máscara da convenção, ninguém aplauda. Também, que tolice querer aplauso. Todos sentem sim são os resultados. O único resultado será um orçamento mais gordo no fim do mês. Mas ao diabo o orçamento! —age a lei da inércia. Ninguém fará hora- extra não! E aquele que tendo feito hora-extra de trabalho engordou o orçamento e por isso viveu mais alegre, aquele nunca existiu.
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3 comentários :

Ana Karenina disse...

Eu não consigo achar a internet palco justo para sua arte. Mas que local o será?
A imortalidade, quem sabe?
Talvez exagere, talvez não.
A verdade é que achei foda tudo isso.
Parabéns!
De verdade!

Gabriela disse...

"Ora, como é devido encarar a realidade se esta se mostra dependente do momento e do lugar?"

Quando eu fico tempos sem ler, seme squeço como você é.
Ah, adorei a foto.

E, quanto ao meu post, é simples: só sobre procurar outros amores, tão humanos e incapazes de ser amor, quando já se tem o divino amor de Deus.

Um abraço.

Marguerita disse...

Marcos, tu salva o meu blog com teus comentários sempre pertinentes!

rs!
Não vi este filme, mas já está na minha lista.

Escuta, esta história de faxineiro de motel rende boas conversas de bar, em?

Êta profissão que tenho muita curiosidade de conhecer o cotidiano!
;)


Bjooo