segunda-feira, 14 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - da desilusão





OMNIBUS IN MUNDUS



(DA DESILUSÃO)
Menino quieto, quase efeminado, tornou-se ele um jovem homem vigoroso e pacato. Dedicava-se resignadamente à sua profissão, ou melhor, ao seu serviço, pois este não requeria profissionalismo algum: era contínuo no Banco do Brasil. Por diversão, nem isso, quem sabe uma higiene mental, às noites de sábado ensaiava numa escola de teatro; nada com muito entusiasmo. Seu entusiasmo, o exauriu a adolescência, a poesia, e as desilusões e malícia adquiridas até a maturidade.
Viveu, assim, quase que por inércia e no sentido de lei da física; na infância distante adquirira a quantidade de movimento, e pois seguiu...
Tinha, porém, talento. Revelou carisma numa peça montada por seu grupo teatral. Foi contratado por uma emissora de televisão, e abandonou o banco sem nem precisar cumprir aviso prévio; afinal, seria um famoso artista!
O glamour jamais alcançaria o cume esperado. Mas ele se divertia sobre modo quando em alguma novela seu personagem morria; mas como as gravações fossem realizadas muito previamente, ele chegava em casa e ainda assistia no televisor seu personagem mais vivo do que nunca...
Quando havia cenas românticas, e ele tinha que beijar a mocinha, transportava-se à própria juventude na ilusão de estar beijando um antigo amor; mas sempre logrou conter-se e manter o profissionalismo —era uma volúpia apenas de leve e sutil.
Seu amor juvenil fôra uma linda menina. Era séria, mas espirituosa e lúcida, mas não o de mister para compreender as oferendas poéticas dele. Em suas interpretações cênicas iludia-se que ela o estivesse admirando; mas não, ele nunca fez papel destacado e à esta época ela, sendo diplomata, já havia se mudado para a Nigéria, onde na televisão local nada aparecia do trabalho dele.
De maneira que em vão profetizara:


indeclarado

Minha alma que tem medo,
que tem medo de escrever;
treme o pulso, a mão, o dedo
no receio que se cumpra,
toda vez que a pluma empunha,
um profético segredo:

Se amou Iolanda ,
sem ser amada,
hoje coitada
minh'alma anda.

Se sigo amando
sem ser amado,
e se procuro
sendo afastado
em cada canto,
por cada canto,
em riso ou pranto,
trancafiado
ao catre duro
dissimulado
sem compaixão;

e se procuro,
não sendo amado,
se sigo amando
é por pensar,
por pretensão,
que quem não chama
o verbo amar,
chamar deseja
contra a razão;
conforme seja
ao coração.

Se sigo amando,
eu sigo só
acreditando
que quem eu amo
não vive sem
o amor de meu;
nem já viveu
sem este bem!
E terei dó
de quem eu amo
se lhe deixar,
pois, já de amar...

Se sigo amando,
eu sigo só
por compaixão;
pois terei dó
da donzelinha,
hoje formosa,
que quando idosa,
fraca e cansada,
abandonada,
terá só a minha
franzina mão
por companhia,
no catre tosco
da lassidão.


O amor não é perfeição;
ele é tudo:
falhas, virtudes,
defeitos, formosuras,
erros e acertos.
Assim, é o amor
uma comunhão.
Do contrário, não seria perfeição;
seria sem graça.

E se de ilusão também se vive, ele diria que só dela se vive. E aquele que tendo vivido em absoluto ceticismo jamais sofreu uma desilusão, aquele nunca existiu.
.

2 comentários :

Marcos Satoru Kawanami disse...

a la pucha! a Débora Duarte era mais provocante que a filha...

tonhOliveira disse...



Bons tempos!

Beto Rockfeller!?
Era um "tezãozim"a Débora (era DuART).

Gostei do novo visual,
verdim verdim!

Declarei!

Abraços Marcos