quinta-feira, 17 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - cruzeiro do sul



OMNIBUS IN MUNDUS



(cruzeiro do sul)
Liricamente... analfabeto. Era analfabeto de pai e mãe o futuro químico e então garoto Dario Arruda Monteiro. O pai era marujo, vivia entre Caracas, Amsterdã e Tóquio; e a pobre mãe dona Rosângela teve que agüentar sozinha quando o filho deu-se a versejar despudoradamente sem pé nem cabeça, e de uma hora para outra, assim. Sendo que "nem nunca ele teve ficha na polícia, nem fugiu de Barbacena (terra dos hospícios)!", comentavam as comadres aos compadres do bairro, e da cidade toda que era quase um bairro só: Ouro Preto.
Dizer que lirismo pega como malária, quem dirá? Mas que gruda como câncer, gruda. Essa era a explicação profilática. Os espiritualistas e espirituólogos discutiam a teoria de que o Dirceu de Marília voltava de Santiago do Chile num raio cósmico trans-temporal e ia fazer o terror da cidade. A igreja questionava a originalidade dos versos, recomendando aos fiéis um cuidadoso estudo do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos, enquanto que os físicos abandonavam as partículas elementares, esmerando-se uns para confirmar, e outros para refutar um previsto efeito relativístico no desfecho dum fenômeno que, a bem guardar, nada vem a interferir nesta narrativa. Tudo porque uma escandalosa hérnia de palavras brotou do bucho de Dario, e não parava mais de ulcerar.
Mas a explicação verdadeira, Colombo que o diga, é óbvia só depois de revelada: ninguém dizia, nem saberia o próprio bardo.
Até o ano em que acometeu-lhe a patologia já conhecida, sua ocupação mais alegre era seguir da escola para a casa de Obispo, ele, que hora recebeu esta alcunha. Ocupavam-se no saudável ofício da molecagem, fartando-se do torpor tropical e o refrigério eólico da chapada. O fim do dia era conhecido: a mãe de Obispo, dona Isabel, reprochando a macacada por algum motivo reincidente, e obrigando Dario a regalar-se com seus manjares, confeitos de artista. Boa vida... Não é de se estranhar que poucos anos mais tarde ele, cujo apelido episcopal faz jus à vocação, estaria sendo expulso do seminário por violações à santa hóstia de ordem gastro-sacrilégicas, e inclusive com queijo e geléia!
Inquietação, gula, e brincadeira é comum aos infantes e quem vai perceber o que maquinam em pensamento? Ele remanescia no feliz tempo da vida, pela graça da Providência. Dario não conheceu mais as delícias da casa do amigo. Somente a Química viria livrá-lo das chagas que perdurariam ainda por quatro anos; não um remédio, mas a atividade que é a saúde das gentes. Entanto, labutava em pipetar e diluir palavras. A rima e a métrica outorgadas pela escola secundária abriram Dario: é claro que ele andava apaixonado; se alguma opinião das autoridades municipais chegou perto da verdade, foi esta a profilática; mas não era doente de câncer, era cardíaco.
O diagnóstico materno (toda mãe tem-se por doutorada em pediatria) encontrou paliativo no marido que zarpava no próximo cargueiro da marinha mercante rumo ao "não me importa aonde, Fernando, leva esse menino!". Donde se vê que não há melhor terapia para cardíaco do que encontrar os parentes em Lisboa. Dario desembarcou na Ibéria e não quis mais arredar pé.
—Pai, porque nossa família Monteiro que parece até ter tido brasão de nobreza aqui, saiu desse continente rico para se aventurar lá do outro lado do oceano?
Seu Fernando, deitado embaixo no beliche, abriu um olho, passou em revista o camarote, com esforço míope focalizou o filho e suspirou pescando a resposta:
—Nem sempre o mar está para peixe.
—Pois, deste mar não tiro mais a rede.
—E por acaso lá no Brasil você está mal arranjado, meu filho?
—É que o país é pobre.
—Mudar de um bairro pobre para um rico adianta? O mesmo é vir para cá ou para Viena ou Copenhague, a favela brasileira e as poblaciones latino-americanas estarão no mesmo chão de antes. Você vê que é uma coisa só sobre o planeta, somos Humanidade. Em qualquer parte a pobreza é uma equação de derivada nula. Ademais, não pense que é apenas sangue lusitano que pulsa em você. Se não fosse pelos índios americanos e negros que receberam o nome dos Arrudas e dos Monteiros, sem assombro, você não existiria!... nem eu.
O conselho de seu Fernando foi bom. Mas um disparo sem mira. O filho não lhe dissera o que realmente pensava, o que a propósito é o mais recomendável pertinentemente aos pais segundo a ecumênica antilógica filial. A dita paixão de Dario vinha sendo pan-passional, um amor divergente, sem imagem, cujo único foco era ele mesmo irradiante. Todavia, à noite anterior à conversa: ele, Obispo, dispôs-se a contemplar o céu pela cúpula do observatório da Escola de Minas de Ouro Preto. Jogou a luneta para as bandas do Cruzeiro do Sul, notando um novíssimo diamante a luzir na (*)"caixinha de jóias". Dario conhecia uma moça catalã, e lhe escrevia suas primeiras rimas de amor.
Com tal conluio fenomenal da natureza, desde já é vão ocultar que Dario viria a se casar com a rapariga. Chamava-se Maria, cristã como não poderia deixar de ser; católica convicta e invicta, e quanto a este último predicativo muitos acreditem que o teria levado até a morte, socorro não lhe houvesse prestado Dario, porque nutria, e nisso era adubada com abastança pela mãe, aspirações afins às do outro que olhava o céu. Tanto que quando ele insandeceu e começou a dizer missa a cães e gatos pelas praças, ela foi a primeira a correr e interceder junto aos padres de Mariana por sua alma ébria e não menos glutona. Pessoa dulcíssima, dona Maria Monteiro, gema inconcebível aos olhos, das que tomam séculos para serem lavradas, e eras inteiras para serem idealizadas por Deus; aos que melhor a conheceram, não bastaria todo um dia para contar sua bondade. É fácil que tenha sido fulminante a revelação de seu marido em Madri.
Aqueles dias no mês de agosto pareciam ser férias a Maria. Férias meio estranhas, porém. Dario decidiu tudo muito às pressas, quase em desespero, e quando ela se deu conta, encontravam-se os dois cônjuges (que por essa época já iam beirando a senilidade) humildemente sentados como duas crianças nas escadarias do Palácio das Comunicações observando um deferente silêncio extasiado ante a Puerta del Sol.
Ele preparava a luneta. Nesse momento, tomou sua alma o fluido lírico do amigo, porém não chegou a contaminá-lo de tal maneira que viesse a valer-se da métrica e rima; mas quando a inspiração vem espontânea, para que regras? Escreveu:

Dario, viajor, como todos, para além...
anônimo ilustre amigo
na multidão dos séculos perdido
não quedes triste; também
viajas comigo

com todos num mar desconhecido
que a mapear seguimos
nesta nau também pouco conhecida
rumo àquela sorte
desta vida: morte

mas somos fortes
e a vida é dura
tão somente
para quem é mole...

A companhia petrolífera estatal desde os tempos do estágio universitário fôra o único emprego em que Dario trabalhou. Nada menos que trinta e sete anos de casa, inumeráveis crises mundiais de combustível, e o menos notado e mais sentido, talvez seu pesar mais bem calado: a lira que desde a remota juventude igualmente calou. Não sem mérito, neste ano da revelação feita a Maria, nosso químico nem podia com os louros de reconhecimento: chegara a um grupo de molécula sintéticas de baixo custo que simplesmente vinham salvar de novas crises o país como também qualquer terra em que estivesse funcionando um motor a combustão.
Glória? Qual! Muito antes aprendera a rechaçar as vaidades; queria paz, e nisso ao fim seria confortado. Foram fonemas ásperos e envelhecidos, céticos pela velhice as primeiras palavras a tangir os ainda juvenis tímpanos da esposa, pondo fim ao cerimonioso silêncio na escadaria:
—Saiba, Maria, nada me anima este feito profissional. Nem um pouco. Profissão que oprime, consome, amordaça. Mas agora acharei paz. Tenho doença grave... e sei que vou morrer. Na morte serei feliz. Na vida, em verdade confesso-te que se eu tive quaisquer razões para alegria, estas teriam sido única e tão somente as minguadas trincas e quadras daquele primeiro soneto que te escrevi ainda menino.
No céu das Minas Gerais, sumia à vista dele, ao mirante telescópio, a jóia mais rara do Cruzeiro do Sul. Dona Maria Monteiro, alma menina, era fulminada de morte.
Dario Arruda Monteiro, não chegou a regressar da Ibéria. Foi sepultado juntamente com a esposa em terra natal desta.
Eis o referido primeiro soneto a Maria:

Tão feia paisagem que se desvela,
invariável, a todo momento,
ao caminhar da humana alma que péla;
a fazer acre o mel, e a paz tormento.

Que se passa a esta pobre caminhante
rumando ignara por destino ingrato,
a deliberar seguir sempre adiante,
se já lhe aprece tal modo insensato?

Faz-se tudo patético ao amante
que em plagas sublimes se acha distante
do fragor pulsante do seio amado.

E vivendo, portanto, sem talante,
como o Fidalgo ao léu de Rocinante,
vai por sendas sem fim enamorado.


Quanto às senhoras Rosângela e Isabel, com seus respectivos maridos, é justo que há muito se tenham ido para a casa do Criador.
Ele, dito Obispo, voltou a rezar missa aos cães e gatos. Está bem vivo, e é fácil de ser reconhecido pelas praças e igrejas da antiga Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto.
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