quarta-feira, 16 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - cônica crônica



OMNIBUS IN MUNDUS




(CÔNICA CRÔNICA)
Quando ela cursava o terceiro ano da escola secundária, existia uma dita aula de redação que, a bem dizer, não era o que poderia ou mesmo pode ser chamado aula. Era um tipo de avaliação semanal compulsória, e contava na nota do bimestre. Seria um treino formal, porque do contrário ninguém treinava, e a nota existindo servia de estímulo, porque do contrário... e como sempre o corpo docente lembrava: "aqui você vale de zero a dez". De modo que, certa vez (quinta ou terça-feira, um dia ímpar, sabe-se lá), ela encontrou-se na contingência de elaborar uma crônica a partir do dístico "o prato não é de quem faz, é de quem come". Algo lhe dizia que seria incapaz de escrever nada de bom sobre aquilo, ou sobre qualquer coisa para variar; ademais —que diabo é crônica? E o ponto mais crônico é que a tarefa nem era para ela, mas de uma colega de outra turma que só veio achá-la no recreio faltando dez minutos para a quarta aula, na despojada e indefesa situação de aperto do vaso sanitário, e até muitos anos depois intrigaria o entendimento dela que artifício habilitou a Maria de abrir a porta do reservado para dizer: "Amiga, me faz uma cônica!".
Dez minutos...
A primeira idéia que lhe saltou foi escrever sobre prisão de ventre, e a implicação da referida moléstia com a Guerra Civil da Iugoslávia e o surto do cólera na Baixada Santista; a final, o prato não é de quem faz, é de quem come. A própria Maria a descartou.
Sirene da quarta aula!
"Faz o seguinte", ela disse enquanto erguia as calças, "vai indo para a sala, que eu termino e depois te entrego... que tempo?" —"Última aula.", virou-se e saiu.
Quarto tempo foi prova de História. Ela pensando na "cônica". Napoleão tinha úlcera de estômago. Crônica: comunismo versus liberalismo e a úlcera na problemática das mulheres estupradas na Bósnia.
Penúltimo tempo, aula de física. Campo elétrico nulo no interior de condutores. Crônica: a eletrostática cabeleira de Einstein e a manga crônica de Faraday —crônica não, agora sim: cônica de Faraday.
A verdade é que ela perdeu toda a explanação ( fato que só veio a constatar na prova bimestral), e o tema da crônica permaneceu indefinido até o fim, quando naquele exato momento fez-se ouvir a sirene. Turma A, está entregue a crônica da Maria; cinqüenta e seis linhas; razoável, convenhamos. Razoável não, "aqui você vale de zero a dez", a nota foi sete e meio.
Notaça! Maria malandra. Quanto à outra, nunca tirara mais que seis.
No tocante à nota de História, fracasso. Foi três, de zero a dez, é claro.
Depois, nunca chegaria perto daqueles impróprios sete e meio em redação nenhuma. Por isso, nunca que ela esqueceu jamais: "O prato não é de quem faz, é de quem come".
Assim foi.
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Um comentário :

Mary_Flor disse...

Oi Marcos!
ADOREI O POST!

Beijo e ótima semana