sexta-feira, 4 de junho de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 15

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 15
- fim


Dizem que a preferência sexual da fêmea é qualitativa, enquanto que a do macho é quantitativa. Com efeito, a mulher normalmente produz um único óvulo por mês, que aguarda ser fecundado por um dos milhões de espermatozóides produzidos diariamente pelo homem. É costume feminino, também, escolher meticulosamente seu macho, ao passo que este vangloria-se da quantidade de fêmeas que já cobriu. Ou seja, a mulher faz cerimônia à hora da refeição, ao contrário do homem sem polidez que se empanturra de qualquer coisa até a indigestão.
Isto posto, espera-se que o Zé Ninguém, sendo homem, tenha feito jus à confraria masculina dos glutões sexuais. Mas pelo acaso este “cidadão comum”, para usar as palavras dele mesmo, apesar de jamais ter sido um efeminado, tinha muito do sentir feminino no que se refere a constituir família. Aos vinte e cinco anos de idade, sem nunca ter namorado, nem sequer alguma vez ter procurado as mulheres públicas, ele conseguiu seu primeiro emprego, primeiro e último, qual convém ao cidadão exemplar e cumpridor do dever. Sua glória agora era o trabalho, e seu orgulho supremo era ter sido contratado por concurso público (o que sempre aproveitava o ensejo para declarar). O momento era propício, e a vontade afim: o Zé Ninguém, desiludido da paixão fulminante da Lindaura sonhada, e conformado com o amor platônico da igualmente onírica Claudinéia, aceitou o amor, mediocre como ele, da sua insípida primeira mulher, primeira e última, qual também convém ao cidadão exemplar e cumpridor do dever.
Já casado, apinhado de filhos, “fatigado de mais-valia”, tentava sempre olvidar em definitivo o antigo sonho, o sonho do Hospital da Glória, o sonho da própria glória. Que glória patológica, grudou-lhe feito câncer! Quando tudo ia bem, sua glória era o quotidiano trabalho e a prosperidade do país; todavia nem sempre tudo corre nos conformes, e então o Zé Ninguém sofria a melancolia do que um dia foi seu sonho belo, mas sonho apenas. Saudade é, de fato, melhor que alegria: “é a alegria que ficou”. Mas a melancolia é a angústia inefável, o grito no vácuo surdo da “vida que poderia ter sido, e não foi”. Triste poeta Manuel Bandeira, mais triste o Zé Ninguém, que é ninguém até no nome...
Farto de tolerar suas oscilações de ânimo, o Zé Ninguém vasculhou as gavetas até achar os manuscritos a toco de lápis dos seus versos restaurados naquele dia crucial dos quinze anos de idade. Arrumou-os em ordem cronológica, se é que pode haver ordem no caos, e admirou-se de si mesmo sem a falsa modéstia imposta pelo convívio social: “Caramba!, tão inspirados, fluentes. Que arte!, a verdadeira arte!, tão bem feita, e fui eu quem a fez! Foi? Não. Foi o delírio. Que deus é ele?, que diabo é?”.
Matutou, matutou...
Caiu a noite, acompanhou-a a madrugada... Queria o dia clarear quando acometeu-lhe um estalo de lucidez que arrojou-o a escrever. Assemelhou-se ao rapaz de quinze anos que restaurava os poemas; escrevia à moda de então, sôfrego de ansiedade.
O empreendimento foi simplório: contar a sua biografia da maneira que podia, ou seja, no estilo dos relatórios burocráticos do trabalho. Com propriedade acreditou no dístico de que qualquer vida, por comum que seja, sempre terá seu anônimo e belo enredo. E assim foi escrita a novela intitulada Espelhos Paralelos.
A novela narra a estória dum personagem que, em sonho, vive dez anos, mas acorda com a mesma idade de antes para reviver o passado futuro. Enfim, o personagem redige a estória dum personagem que redige a estória dum personagem que redige a estória dum personagem que redige...



















Zé Ninguém
(Marcos Satoru Kawanami)
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