quinta-feira, 3 de junho de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 14

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 14



A vontade da Divina Providência nunca foi e não deve ser um mercado turco. É muito comum, porém, o costume de querer-se mandar em Deus, como se manda em um serviçal sempre às ordens. E o pior é que por ingenuidade ou astúcia mundana, as pessoas, ao inconscientemente praticarem este despautério, mantêm a máscara da submissa beatitude por meio da reza, da promessa, e até da penitência!
Talvez Cleópatra Rockefeller tenha aprendido a desvantagem de tentar mandar no Criador.
Reportemo-nos aos aflitos momentos da estada do Zé Ninguém no Hospital da Glória. A pecuniária irmã, sempre raciocinando em termos de trocas e custo por benefício, ainda que com a melhor das intenções, ambicionava manipular o rumo dos acontecimentos em troca da promessa que fazia em pensamento: “Grande, Magnânimo, Onipotente, Vitaminado, Senhor Deus! Se este pobre diabo do meu irmão voltar a si, eu prometo que me caso com o Abidenago, o gago. E... eu prometo, eu prometo!”. Sabe-se que neste instante, por graça e castigo, o Zé Ninguém acordou. “Cacete..., prometi, agora está prometido”. Afinal, ela queria ou não a melhora do irmão? Bem que se recomenda nunca tentar Deus...
Abidenago Eustáquio de Falópio era um raquítico rapazola que, além de irremediavelmente gago, era também estrábico e manco. Para dupla infelicidade, Abidenago enamorara-se desde tenra idade por Cleópatra Rockefeller, que obviamente o desprezava qual o faria toda moça que não fosse cega e surda. Infelicidade da parte dele carente de correspondência, e infelicidade dela pelo incômodo de ser admirada por tamanho aborto da natureza. Ela, elegante e orgulhosa, ridicularizava-o perante a rapaziada: “Abidenago não é gente. Jogaram fora o feto, e criaram a placenta”.
O mundo inteiro não compreenderia. Mas a verdade é que, furtando-se a dar qualquer satisfação a quem quer que fosse, Cleópatra Rockefeller casou-se com Abidenago Eustáquio de Falópio antes de completados dois anos da reabilitação do Zé Ninguém. Algum fundamento teria se Abidenago fosse rico, todos conheciam o amor de Cleópatra Rockefeller pelo dinheiro; mas, além de feio, ele era paupérrimo. Foram morar numa casinha geminada de subúrbio. O espanto foi geral. Além do Zé, só a mamãe Amélia tomou ciência da promessa, e passou a crer que a filha era uma santa! Casar com o Abidenago? Só mesmo por santidade.
No sonho do Zé Ninguém, sua irmã cursara a faculdade de Economia. Agora casada, ela abdicou do nível superior para seguir o exemplo da mãe Amélia, a mulher de verdade. Em breve, nasceu-lhe uma filha, abrindo caminho a uma farta prole que desfez a elegância da silueta de Cleópatra Rockefeller. Vê-se que Abidenago gostava mesmo de mulher, ou melhor, da sua mulher. A propósito, esta, tornou-se uma esposa exemplar; aprendeu a ver as pertinentes qualidades de caráter do marido, aprendeu a amá-lo; fez-se uma eficiente dona de casa, e uma mãe amável. Uma outra Amélia!, quem diria?... Provavelmente tenha sido ela assim extremamente mais feliz que a economista sonhada, com ou sem a sanção das delicadíssimas e sensíveis feministas.
E o Zé Ninguém começou a observar que a realidade divergia quase em tudo do sonho.
No campo de futebol da várzea, por exemplo, apareceu sim um vendedor ambulante, mas vendia drogas em vez de comida. Não era sujo e molambento como Sócrates Clarimundo. Era um malandro cheio de ginga, mas nulo de filosofia.
Quanto a si próprio, onde foi parar o dom da rima? Nunca mais fez versos além dos sonhados. O tempo passava. Nada se criava: “Nada se cria, nada se aniquila, tudo se transforma”. A transformação foi ingrata. A glória da obra, ou a obra da glória jamais chegaria.
O curso de Astronomia, no Brasil, só daria certo no sonho. Foi outro desvio de percurso. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, o Zé Ninguém engajou-se à causa da “ordem e progresso”, e foi estudar Engenharia Metalúrgica.
.

Um comentário :

Marguerita disse...

No verão nem pelado tu fica bem!

Falando da vida social, cotidiano..trabalho...

rs!

Bjo, boa noite.