quarta-feira, 2 de junho de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 13

ESPELHOS PARALELOS
cap. 13



Cleópatra Rockefeller repetia como que para si mesma sussurrando: “E... eu prometo, eu prometo!”, Dr. Cacareco dialogava com um médico a um canto do ambulatório, e mamãe Amélia contemplava o filho quando, para o maior espanto ou felicidade da vida dela, o Zé Ninguém abriu os olhos examinando logo o ambiente e, aparentando mais espanto ainda, exclamou: “Mãe?!”. Amélia, recordando-se da primeira vez que o filho pronunciou tal palavra, abraçou-o a chorar: “Meu neném!”. Até aí os acontecimentos transcorreram quase no atropelo, mas Dona Amélia... Impaciente com o interminável abraço, o Zé Ninguém fez desvencilhando-se: “Onde está o Sócrates?”. “Que Sócrates?”, todos em uníssono perguntaram. “Ora, o meu amigo”. “Maldita biblioteca que eu fui montar em casa, meu filho pensa que está na Grécia Antiga, enlouqueceu com as leituras”, lamentou-se o Dr. Cacareco em voz baixa. Louca era aquela situação; todo o vertiginoso sonho de glória do Zé Ninguém despencava na patética decadência do leito hospitalar. Em meia hora ele lograra viver dez anos idealizados qual a plena realização que estava em vias de conquistar, mas agora o Zé Ninguém caía na real de estar novamente com quinze anos, nada ter de glorioso nesta ilusória viagem ao passado,e, por desgraça pouca ser bobagem, de quebra ainda por cima ser tomado como um louco apenas. “Cacete..., prometi, agora está prometido”, concluíu Cleópatra Rockefeller.
A família, a sereníssima e boa família brasileira, voltou toda junta ao lar, doce lar. Esclarecidos os fatos, reconheceu-se o louco oficial da casa.
Agora, o Zé Ninguém empreenderia a tarefa de reviver em verdade o passado mentido, como se pudesse mesmo ter viajado no tempo; iria reconstruir sua vida e, quiçá, sua obra.
Mãos à obra, Zé Ninguém!
Chegando a casa, ele apressou-se por restaurar de memória o que houvera poetizado em sonho. Os primeiros versos da sua reabilitação ocorreram-lhe muito a propósito, e os anotou a toco de lápis, aturdido, suando todo, sôfrego:

A memória que guardamos na mente,
Do tempo a passagem nos faz conscientes.

Mas o passado que a gente sente
É a memória que o traz ao presente.

E esta intuição contraditória
É a máquina do tempo da memória.


Como houvesse faltado às primeiras aulas do ano letivo, gastou o resto do dia a reescrever alguns de seus poemas que sabia decor, o resto perdeu-se para sempre naqueles poucos minutos de sonho. Vendo assim seu filho, Dr. Cacareco pensou: “É, ensandeceu mesmo”.
A grande mamãe Amélia ficou insistindo a tarde toda para que o Zé Ninguém comesse algo, mas ele seguiu escrevendo desesperadamente como se da poesia dependesse sua própria vida. Isto até que a mina se esgotou, e os versos cessaram de aflorar; então, nosso sóbrio poeta evocou a onírica inspiração; esperou, esperou...; nada lhe fluindo, atribuíu o fracasso à fadiga da jornada, enfim jantou, e dormiu.
A manhã subseqüente foi melindrosa. Mãe, pai, e irmã temiam que o Zé Ninguém se furtasse ao despertar. Raimunda (a empregada feia de cara, mas boa... bondosa) foi designada para acordar o Zé Ninguém, poderia ser que ela desse sorte. Superstição à parte, o dia correu normal: o rapaz levantou-se ao som melífluo proferido pela boca desdentada da Raimunda, e rumou para a escola indignado, ora pois, já estava farto daquele palavrório de colégio, já tinha curso superior! O sonho ainda era a sua verdadeira realidade, coitado.
Depois de assistidas as “aulinhas triviais”, o astrônomo de “nível superior”, chegado em casa, dirigiu-se reto para a escrivaninha de estudos a tentar algumas rimas. Nada, absolutamente nada achou; nem uma quintilha, nem uma trova. Apelou para o verso livre. Atitude ignóbil! Rechaçou ao lixo aqueles rabiscos sem o devido “engenho e arte”. Onde estava o antigo dom? Nunca o tivera, era sonho só, e no sonho pode-se tudo; não era sua a inspiração, porém angelical. Admitiu a crua sentença da mediocridade. Arriscou a prosa, e, num raciocínio burocrático, dissertou num seu caderninho escolar:

“Os tipos humanos e suas profissões são inumeráveis. Mas pode-se destacar três grandes grupos: Cidadão Comum; Cientista; Artista.
Todos têm suas funções, que, apesar de distintas, acabam tendo no conjunto igual importância, e são imprescindíveis para o progresso da Humanidade.
Ao Cidadão Comum cabe a necessária função de adquirir conhecimento suficiente para trabalhar, gerar filhos e educá-los. Trabalhar para a vitalidade econômica da sociedade, para seu sustento, para a criação dos filhos, e sustento dos outros dois grandes grupos: Cientistas e Artistas. Gerar filhos a fim, obviamente, da continuidade da espécie, criando novos Cidadãos Comuns, Cientistas , e Artistas. É bom que o Cidadão Comum viva muito, contribua até quando puder, e depois desfrute da velhice junto de seus descendentes, mantendo o elo entre as gerações, transmitindo a tradição e o aconchego benfazejo da família.
O Cientista também deve viver muito, porque só assim ele poderá acumular o máximo de conhecimento e ter ensejo para descobrir cada vez mais as leis com que Deus rege o Universo.
Já o Artista, não os que executam como atores e músicos apenas intérpretes: estes são do grupo Cidadão Comum. Porém, o Artista criador: escultores, poetas, pintores, compositores, arquitetos, etc. O Artista pode morrer cedo; exemplo nos dá a precocidade de Wolfgang Amadeus Mozart, e a brevíssima vida de Noel Rosa (o poeta de Vila Isabel). Este grupo de pessoas vêm ao mundo como que cumprindo um sacerdócio profético: basta deixar sua mensagem, e partir, mergulhar na eternidade. O grupo em questão difere dos Cidadãos Comuns e Cientistas, porque um Artista não se faz: já nasce pronto.
Enfim, todos têm seu lugar na sociedade; mesmo os marginais e vagabundos ajudam, à sua maneira, a compor o que há de pitoresco neste planeta. De modo que Voltaire se equivocou com seu Cândido, e o Mestre Pangloss tinha razão, pois vivemos em verdade no “melhor dos mundos possíveis”. E ainda, conforme disse Luís Fernando Veríssimo por meio do seu personagem Analista de Bagé, este planeta tem tudo que o vivente precisa: oxigênio de sobra, mulher ancuda, erva mate para o chimarrão, mogango com leite gordo...”

Triste, deveras melancólico. O jovem poeta outrora sendo ouvido na Academia Brasileira de Letras, assume a decadência neste vil atestado de carência intelectual. Num último sopro de vida antes do soçobro absoluto, imaginou uma rima, mas não; a tivera formulado no tempo do sonho. Foi o derradeiro poema de que se lembraria; ei-lo:


Rendição

Flameja uma bandeira
No campo de batalha.

Não quer mesmo que queira
Da pátria a mortalha.

Junto à bandeira arqueja
Um soldado que manca.

No horizonte flameja
Uma bandeira branca...


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