terça-feira, 1 de junho de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 12

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 12



Ao contrário da habilidosa Cleópatra Rockefeller, o seu irmão Zé Ninguém era um inapto geral para as coisas pragmáticas. Atrapalhava-se tanto com as suas poucas e minguadas finanças, como com a simples aparência pessoal: era, conforme opiniões alheias, um desleixado. Desde que apontaram as pioneiras penugens no seu rosto, toda vez que ele ia fazer a barba, cortava a delicada pele do rosto, sempre.
Dr. Lino Grande efetivamente cumpriu aquele acordo de publicar o livro de poesias. Acontece que nem todos os poemas foram impressos e, o que é pior, alguns foram alterados ou mutilados em seus versos. Agia, por parte do editor, uma imprevista censura: excluía-se qualquer mensagem estranha ao senso comum. Na gíria popular, ficou um livro “água-com-açúcar”. Por exemplo, no prefácio redigido por uma eminente senhora acadêmica da ABL, elegia-se como ponto culminante da obra do Zé Ninguém as seguintes rimas:

Em poesia, falar de rosa
É tão fácil quanto andar.
Mas bom mesmo é a olorosa
Fragrância que ela tem por dar.

Já o amor em verso ou prosa
É um abismo abissal;
Uma verdade duvidosa,
Diversa para cada qual.

A rosa é dentre as flores
Elegida à realeza.
Mas tem espinhos, que maldade...

Quem ao mundo dá suas cores?
Flores dão cor à natureza;
O amor dá cor à humanidade.


Este foi o poema declamado pela famosa atriz Dalva Estrela na abertura da noite de lançamento do livrinho do Zé Ninguém, o qual estava devidamente barbeado, e sem cortes na pele. É que, durante o dia, ele tomou a prudente iniciativa de buscar auxílio profissional, foi ao barbeiro para rapar a barba.
O senhor Bibiano Kankrika, barbeiro cabeleireiro, casado, tendo um filho formado em medicina, era, no mínimo, um sujeito espirituoso, para não dizer excêntrico e anacrônico: além do seu tempo. Não conversava com os clientes, monologava: desde os cumprimentos até o pagamento do trabalho, falava sem interrupção com uma fluência e opulência de raciocínios de dar inveja a qualquer juiz togado do Supremo Tribunal! Tinha ojeriza especial por polícia, mas barbeava o delegado Dr. Tuninho Carabina; ignora-se o que falava nessas ocasiões. Magérrimo, de cabelos brancos, era o barbeiro mais antigo da cidade; barbeiro não, preferia ser considerado “esteticista capilar”, o termo capilar ele aprendera com o médico seu filho. Realmente Bibiano Kankrika era um artista: os piores cabelos só podiam ser consertados pelas suas habilidosas mãos, e tudo mui tranqüilamente enquanto desenvolvia entruncadas considerações antropológicas, biológicas, morais, e políticas; adorava política, ou melhor, adorava detestar a política. Falava apressado, nervoso, mas com empolgação pela vida; haveria de ser feliz, ânimo é fundamental. Bem, naquele dia, o Zé Ninguém tomou a ajustada decisão de aparar o cabelo e barbear-se. Mal ele pisava na barbearia, e Bibiano Kankrika desatou a falar, emendando aos cumprimentos, seus pareceres acerca dos últimos acontecimentos: “Meus sinceros parabéns, poeta. Quer dizer que hoje é o grande dia? É verdade que o livro vai ser lançado no Rio de Janeiro? É um tanto longe, mas graças ao nosso bravo Santos Dumont, o avião está aí para reduzir distâncias! Bom, então vamos navalhar sem mais delongas”. Negando chance de qualquer manifestação por parte do Zé Ninguém, foi logo espumando o seu rosto e passando a navalha. Entanto, prosseguia no discurso: “É uma verdadeira quadrilha! Esses ladrões de gado se alastram feito praga aqui pela região. O pior é que, mesmo que sejam apanhados, a lei é muito branda: dão uma surra nos desgraçados, e no dia seguinte estão na rua outra vez. Mas sou contra dar surra; violência só agrava; o tapa da mãe a gente esquece, mas quem apanha dos outros quer se vingar, aí dana tudo. Cadeia também é besteira, só serve pra onerar o Estado e, quando o detento sai, não construiu vida nova, e tem que voltar ao crime. O negócio é pôr o infrator pra trabalhar vestindo um colete com a identificação do crime que praticou, para tomar vergonha, mas recebendo um salário a fim de, cumprida a pena, reintegrar-se à sociedade dignamente. A verdade é que se a rapaziada recebesse a devida educação e instrução, o Brasil melhorava. Você vê, o meu filho cresceu pobre mas rachando a moringa de tanto estudar; olha como o esforço recompensa: hoje, é médico!, poderia ser criminoso...”. E seguiu emendando um assunto atrás do outro até receber o pagamento e despedir-se do Zé Ninguém, que, desde que entrou na barbearia, teve oportunidade de dizer apenas: “Obrigado, o cabelo e a barba ficaram uma obra de arte. Se o senhor se candidatar para vereador, eu voto no senhor”.
À noite, tudo correu a contento na “cidade maravilhosa” do Rio de Janeiro. O lançamento deu-se na livraria do Museu da República, sita no Palácio do Catete, saudosa sede do Governo Federal. Na elegância que imperava, destoante era apenas a figura patética de Sócrates Clarimundo, cujo sacrifício de comprar uma passagem de ônibus até a capital fluminense valeu pela amizade, mas só o Zé Ninguém reconhecia isto naquele homenzinho barrigudo e ridicularizado por uma gravata de criança, que apontava para frente e para baixo como um galho quebrado e ainda pendente.
Dalva Estrela foi o centro das atenções. Recitou à revelia poemas que ia sorteando ao folhear o livro. Encerrou a noite com um conselho à juventude:


SONETO DO ESPELHO

Se tu pensas que podes te enganar
dizendo-me que não sentes saudade
de tudo que tinhas na mocidade,
mas levaram os anos devagar,

aqui vou clarear tua memória
mostrando quão tenra foi tua face
antes daquele triste desenlace
que deste a da tua vida a história:

tinhas saúde, porém não gozaste;
tua mente pensou, mas pouco agiu
sobre teu corpo que a si consumiu;

e resultando tudo neste traste,
quando bem me olhas só vês um velho
cujo impulso é quebrar o próprio espelho.


Isto foi a tão cobiçada glória. Aí, de súbito, acabou o sonho. Pouco mais de trinta minutos após entrar no Hospital da Glória, acordou e abriu os olhos para a realidade o Zé Ninguém.
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