segunda-feira, 21 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 1









"História Real, baseada em factos baseados em baseados..."
(Dra. Wyborowa Absolut, PhDei)


CAPÍTULO I
Onde se faz um breve relato dos preliminares
que antecederam e determinaram o nascimento
de Francisco Reinisch, um brasileiro.


Nos primeiros anos do século vinte, fugindo das seqüelas deixadas pela Grande Guerra que abalou a Europa até 1918, contingentes migratórios esvaiam-se de lá para arribar em plagas de América. Nestas condições é que da Alemanha o senhor Christian Reinisch chega ao Brasil. Qual não terá sido seu constrangimento ao desembarcar no porto de Santos, se nem sabia pedir água em português!
Agravando a situação, padecia o fato de não haver ninguém por ele, estando a só em terra estranha. Christian tinha apenas um irmão, o qual morreu em combate juntamente com o pai. Sua mãe não suportou por muito a desgraça familiar; definhou em poucos meses até vir a falecer, deixando completamente desamparado o jovem Christian. Pobre e debilmente instruído, sem esperança em terra natal, seguiu rumo ao Novo Mundo, rumo a uma nova vida.
Como já foi dito, o senhor Reinisch nem tinha idéia do idioma usado no Brasil e, por absurdo que pareça hoje, sequer cogitava que existisse outro diferente do alemão. Daí seu constrangimento; mais que isso: medo. Ainda quase um menino, nada menos que medo é o que poderia sentir ao deparar-se com um mal-encarado agente de imigração a disparar aos berros ordens em português. No caos generalizado em que se encontrava o porto, uma coincidência passava despercebida; ocorreu que na mesma hora que Christian Reinisch descia dum navio vindo da Europa, logo ao lado um navio do Japão desembarcava japoneses. Estes últimos ficariam no estado de São Paulo, e os europeus seguiriam para o sul. Atordoado na multidão, Christian subitamente viu-se cercado de gente estranhíssima continuando a não entender palavra... ei-lo entre os japoneses seguindo equivocadamente para a cidade de Sorocaba, interior de São Paulo.
Chegando à referida cidade, Christian já ensaiava seus pioneiros vocábulos em japonês. Anos mais tarde ele se surpreenderia ao verificar que falava melhor japonês que português; era curioso o fato de até os descendentes dos ex-escravos criados junto à colônia falarem mais à vontade em japonês. E foi justamente um preto velho que logo veio a ser o melhor amigo de Christian. Simpatizou com o alemão assim que primeiro o viu, adivinhando nos olhos claros do outro sinceridade intrínseca e bondade. Seu nome era Ismael Marcelino, gentil de modos, delicado com as palavras, elegante de porte, não aparentava ter idade para ser pai do amigo, porém sua filha caçula já era uma senhorita mui admirada pelos rapazes.
Christian, orientado por Ismael, veio a estabelecer-se como colono na fazenda onde este trabalhava, tornando-se os dois, além de amigos, também vizinhos. Na verdade o velho Ismael já nem trabalhava tanto, deixando o mais do serviço para os homens seus filhos, e Luiza (a caçula) ajudava a mãe. Christian instalou-se numa casa de dois quartos; um dos quais servia para o seu pouso, e o outro para um casal de japoneses chamados Hideki e Fumiko, o marido e a esposa respectivamente. Era uma casa de tijolo aparente, telhas de barro, sem forro, piso de terra batida, paupérrima, mas as noites alumiavam-se com o gemido bucólico duma gaita solitária que Hideki tocava. Fumiko dava aulas na escola rural da colônia, enquanto seu marido trabalhava na lavoura com os filhos de Ismael e nosso conhecido alemão.
Ora, o tempo não espera. Nasce em breve Harumi, a única filha de Fumiko e Hideki. É grande a alegria na casa! Esta alegria contagia Christian, faz lembrar o tempo antes da guerra na paz da cidade de Celle... a mãe amável, o pai, o irmão... desperta nele a vontade de constituir uma nova família. Se triste foi o passado, feliz há de ser o futuro. E não tardará a generosa ocasião.
Estando ele a capinar ervas-daninhas nas proximidades dum córrego que atravessava a fazenda, sobressaltou-lhe a intuição de que estava sendo observado; tomou coragem, súbito virou-se e divisou Luiza lavando roupa a fitá-lo. A princípio não acometeu-lhe pensamento algum. Depois pensou que estava no dia mais longo do verão pelo calor que subia ao seu rosto. Ainda chegou a supor que pela primeira vez na vida estava vivo. Tudo isso num átimo de tempo. Finalmente notou como aquela moça preta era tão diferente da sua mãe, finada em Alemanha; tão diversa do seu ideal de mãe: a sua loira da pele rosada, esta escura do cabelo enrolado, mas toda fascinante, muito feminina. Essas coisas passaram por sua mente em menos de um segundo, e já imaginava como seria um filho seu com Luiza, a filha do seu melhor amigo. À noite do mesmo dia apresentou-se a casa de Ismael Marcelino, com todo rubor que sua pele alva ensejava, a pedir Luiza em matrimônio. Ismael consentiu. E, para felicidade geral da colônia, Luiza aplaudiu!
A cerimônia do casamento foi simples qual tudo mais era simples no município de Sorocaba. Entraram quantos colonos seria possível na minúscula capela; no altar figuravam o padre Silas, o respeitável pai da noiva, e dois casais de padrinhos: Hideki e Fumiko de um lado, e, do outro, Maria e Carlos, o espanhol da sapataria. Após um sóbrio sermão, os noivos trocaram as juras de permanecerem juntos na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença até que a morte os separasse, e saíram com a certeza da felicidade eterna.
Um ano depois nasce Francisco Reinisch, um brasileiro.

--- continua amanhã, neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-blogue, pelo mesmo bat-punheta...
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