quarta-feira, 30 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 8

CAPÍTULO VIII
De como Francisco
renuncia ao sacerdócio para casar-se
com Harumi, e teoriza sobre a posse
da terra e tratamento dos animais.

Chamava-se Fazenda Mato Grosso a propriedade onde Harumi e Fernanda residiam. Tiravam seu sustento da plantação do café e da criação de vacas leiteiras. A terra não era muita; José Barbosa de Oliveira, o único empregado, bastava para dar conta do serviço. José tinha o apelido de “meia-garrafa” devido à sua baixa estatura; isto, somado com as peculiaridades anatômicas da cabeçorra e do bigode que ostentava, poderia dar margem aos genealogistas para especular seu provável parentesco com Rui Barbosa, famoso diplomata da república. Contudo, “meia-garrafa” mal sabia assinar o próprio nome, o que também não quer dizer nada, visto que ignorância nunca foi sinônimo de debilidade mental. Ele era prestativo e exímio carpinteiro, tendo sozinho construído sua casinha de madeira ao lado da de Harumi.
Sabe-se que a tranqüilidade é uma das perenes buscas do ente humano que, sendo contraditório por natureza, quando a encontra em abundância passa a ver a vida com olhos entediados. Claro, esta regra tem exceções; José, por exemplo: agraciava-lhe ser de índole inerte, convivendo bem com a bonança da fazenda. Já Harumi, inquieta desde tenra idade, mormente após o falecimento do marido quedara insatisfeita.
A insatisfação Harumi deixou aflorar propositalmente durante as freqüentes visitas que ela e Francisco empreenderam trocar entre si desde o reencontro. Fez bem, ao menos para o fim que formulara. Ocorreu-lhe que a batina clerical não ornava com suas lembranças do amigo, acreditando ser um dever encaminhá-lo a outro destino. Em verdade o que sentia era o afeto infantil agora desaguando no turbulento mar do amor. A condolência que a princípio Francisco sentiu pela amiga também foi lhe confundindo; e para clarear sua alma bastava uma palavra: amor. Harumi resolveu a questão através do simples senso prático que possuía pedindo explicitamente que Francisco a tomasse em matrimônio. Frei Anselmo teve que reqüestar outro ajudante.
Assim, chegou a Nhandeara um padre novato, de nome Antônio, ainda a tempo de celebrar seu primeiro casamento, o de Harumi e Francisco Reinisch. O leitor atento deve ter estranhado o fato de Harumi se casar pela segunda vez na igreja; ocorre que quando casou com Oswaldo Gogliano o fez apenas perante a justiça, ou, como é costume dizer, no civil. A celebração foi feita com a igreja quase vazia; digo quase, por que algumas pessoas compareceram, mesmo sem terem sido convidadas, por não terem nada melhor a fazer.
No começo Francisco sentiu-se incomodado por ir morar na fazenda que Harumi herdara do marido, mas o bem-estar de retornar à vida rural superou o incômodo.
Agora ele não era mais colono, era patrão. Um dia, acompanhando “meia-garrafa” na ruagem do cafezal, teve um estalo de lucidez. Reparou enternecido a figura humilde daquele homenzinho que trabalhava mansamente a terra alheia; lembrava seu pai que não possuía a terra, mas trabalhava agradecido por ser colono e poder morar nela. Quanto a si, o que legitimava seu direito de posse? A herança que Harumi recebeu. Uns herdam, outros compram, e assim a terra vai passando de dono para dono... Se foi Deus que criou todos os seres humanos, o que dá o direito a uns de ter a posse e alienar os restantes deste mesmo direito? A posse da terra é um roubo!
Francisco comunicou essa excêntrica idéia à esposa, propondo nada menos que eles doassem a fazenda ao senhor José Barbosa de Oliveira. Harumi trouxe de volta à realidade o idealismo do marido, explicando como era inócuo tentar mudar a ordem social do mundo, pois o mundo é muito grande, poderosos interesses o regem..., enfim, tentou conformar Francisco que depois de bastante pensar sentenciou: “É, se doarmos a fazenda ao José, ela só vai mudar de dono, e será pior para nós que viraremos empregados”. O que podemos fazer, disse Harumi, é dividir os lucros: metade da colheita é dele, e metade do leite também; mas na verdade a gente nunca dividiu nada, comemos sempre na mesma mesa.
Já que José e os Reinisch compartilhavam fraternalmente os proventos da terra, Francisco decidiu compartilhar o trabalho igualmente. Habituou-se a despertar de madrugada para ajudar na ordenha das vacas. Em Sorocaba não lidara com gado, custou a aprender o processo, e no início atrapalhava mais do que ajudava. Admirou que os bovinos, tão mais fortes, acatavam servis a sujeição ao homem; teve pena dos filhotes ficarem apartados das mães, e servirem para atraí-las ao curral pela manhã e ludibriá-las durante a ordenha. Logo idealizou outro disparate. Queria que os animais pastassem livremente pelo campo com suas crias, e fosse abolido o curral da ordenha. Loucura.
Loucura? Não. Você está é com preguiça de tirar leite toda manhã, argumentou Harumi.
Desta feita o “meia-garrafa” interveio, por que interessava-lhe continuar o retiro do leite: “Francisco, veja bem... olha lá que isso vai dar pra trás; o café só vem uma vez por ano e tem os seus riscos, além de ser pouco. Já o leite é todo dia e acho que sem ele nós não agüentamos”.
Até a menina Fernanda ajudou a dissuadir o padrasto da sandice elucidando que quando comemos carne somos coniventes com o assassinato dos animais, o que obviamente é pior que tirar-lhes o leite.
Francisco conformou-se em prosseguir na ordenha. Todavia, devido às palavras de Fernanda, nunca mais pôs carne na boca.
Quanto à vida de casado propriamente dita, Francisco descobriu que ter mulher era bom. Os meses passaram, e em breve nasceu o primeiro filho ao qual Francisco, lembrando o comandante do navio que o levara a Itália, deu o nome de Dario.
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