terça-feira, 29 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 7

CAPÍTULO VII
De como Francisco
reencontra Harumi através
da filha dela.

Vê-se pelos últimos capítulos que os dois amigos de infância, sem saber, voltam a se aproximar; Harumi residindo em Nhandeara; e Francisco indo para lá.
Nuvens cinzentas e espessas varriam o céu paulista neste verão de 1950 quando o trem parou na estação de São José do Rio Preto. A viagem desde a capital fôra cansativa e demorada num banco duro de madeira, mas Francisco, no auge da vitalidade, assim que desceu bastou esticar as pernas para recobrar o entusiasmo e continuar o caminho, agora de ônibus. O destino era Ilha Solteira, todavia era um ônibus chamado “Parador”, pois parava em Mirassol, Monte Aprazível, e outras cidades menores. Nisso que tanto pára, a chuva anunciada desabou torrencialmente sobre a estrada de terra. O ônibus atolou; os passageiros tiveram que descer para empurrá-lo e Francisco por conseguinte enfiou a calça na lama, de modo que chegou num estado lastimável em Nhandeara. Porém, a disciplina religiosa o havia habilitado a ignorar automaticamente esse tipo de contragostos.
Só existiam duas igrejas na cidade: a dos protestantes (dita dos crentes) em Vila Aparecida, e a dos católicos no centro. Todas as vias públicas eram de terra, salvo uma rua principal, de pedras, onde ficava a prefeitura. Nesta rua desceu Francisco dando de cara com a praça central e a igreja matriz, para onde rumou. Encontrou-a vazia; apenas um mendigo esmolava à porta: “Senhor, uma esmola pelo amor de Deus”. Amor de Deus eu já tenho, mas, diga-me: onde mora o frei Anselmo? Naquela casa ali da esquina. Agradecido, tome estes dinheiros. Obrigado.
Na varanda estreita da casa paroquial, Francisco encontrou o velho frei Anselmo estendido numa rede a fazer a sesta dormindo. Morbidamente dormindo; a boca semi-aberta, olhos fechados parecendo estarem abertos, estático. Realmente ele precisava de ajuda, passava da hora de se aposentar. Francisco sentou na mureta frontal, pôs a mala de lado, e permaneceu em silêncio, na chuva, esperando o despertar do velho.
Um relâmpago riscou a celeste abóbada. Com o estrondo que se seguiu, Francisco sobressaltou-se, e frei Anselmo caiu da rede: “Diabos, que merda!”. Vejam só!, é assim que fala um homem de fé?, admirou-se Francisco, eu sou o padre que o senhor requisitou. Sabe como é... o que os olhos não vêem e os ouvidos não escutam, os fiéis não sentem; a gente aprende isso, note que eu já estou nessa profissão há meio século. Meu nome é Francisco Reinisch. Sim, sim, tenho planos para você, meu jovem; nada de muito pesado, apenas celebrar as missas da manhã (pois custa-me acordar cedo) e organizar um grupo de catequese para crianças.
Francisco foi convidado a entrar na modesta casa paroquial, lavou sua roupa, e depois de tomar banho descansou. No jantar, frei Anselmo contou como ajudara a fundar a cidade, explicou a origem indígena do nome Nhandeara que quer dizer “nosso paraíso”, e justificou ainda não ter um grupo de catequese pelo fato de a maioria da população viver na roça. Esta justificativa não convenceu Francisco que sugeriu que ao final das missas os pais fossem convocados a mandar seus filhos à catequese. As aulas seriam nos finais de semana.
No domingo, terminada a missa vespertina, frei Anselmo deu a notícia. Harumi estava presente.
Sábado da semana seguinte, entre as crianças que se apresentaram para a primeira aula, chamava a atenção uma menina com sutis feições orientais: haveria de ser mestiça. Francisco perguntou seu nome e o de seus pais. Chamava-se Fernanda Gogliano, filha de Harumi e do falecido Oswaldo. E sua avó? Acho que o nome dela era Fumiko. Sem sombra de dúvida, pensou Francisco, encontrei minha tão querida amiga de infância! Deu a aula com olhos só para a pequena Fernanda; ao final, despediu os outros e convidou-a para merendar. Enquanto ela comia, ele escrevia num papel, o qual pediu para Fernanda entregar à mãe. Constou no papel apenas o seguinte soneto:


Calma dormes, menina do teu pai.
Eu de tudo cuido, velo e protejo;
E enquanto o dia clareando vai,
Antes que despertes te dou um beijo.

Dou-te, com amor, um beijo na testa
Sabendo-te pura e angelical.
E fitando-te vou-me; o que me resta
É aceitar da despedida o mal.

Nos unimos com laços de amizade.
Eu, procurando tudo que te agrade,
Do que me agradava já nem mais sei.

Mas um dia tu ainda chorarás
Por faltar-te o pai que nunca terás;
E eu por ti, filha que nunca terei.

Francisco Reinisch


Lendo o poema e o nome do autor, Harumi chorou. Domingo ela acompanhou a filha à cidade. Logo que entrou na sacristia não reconheceu o amigo, mas Francisco a abraçou comovido. Harumi, o que é o fadário da existência... veja, você já é mamãe, e que filhinha linda! Você virou padre? Muita coisa aconteceu desde nossa separação, nem imagina, até pra guerra eu fui.
Conversaram demoradamente. O antigo afeto renascia, mas com ele um novo sentimento despertava.

--- continua...
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