domingo, 27 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 5


CAPÍTULO V
De como Francisco é ordenado
padre, sendo designado a uma paróquia no noroeste
do estado, na cidade de Nhandeara.



Logo que chegou ao seminário, Francisco sentiu que algo estranho pairava no ambiente. Foi recebido pelo professor de teologia, frei Lorenzo, que pareceu atencioso em demasia, com um sorriso artificial. Sendo italiano, o frei invocou notícias da terra natal; Francisco lhas deu, falou da campanha militar, podendo finalmente desabafar suas opiniões sobre essa loucura de louvar a valentia. Seus passos os levaram ao jardim interno, onde Francisco certificou-se da impressão inicial, algo ia mau: os canteiros abandonados, as hortaliças murchas, flores secas sufocadas em meio a pragas... Abra o jogo, frei Lorenzo, que há? É Dom Clemente, disse constipado o frei, ele morreu; eu serei o novo reitor. E as regras permanecem as mesmas? Não há porquê mudar. Então, uma vez por semana terei que jejuar.
Aí, frei Lorenzo elucidou a razão do jejum. A disciplina, quando nos priva de algo que desejamos e podemos fazer, serve para contermos nossos desejos quando não é lícito ou possível de serem satisfeitos. A partir deste esclarecimento, Francisco suportou melhor sua gula. Nada ele impunha a alguém, mas nenhuma imposição ele aceitava sem a devida plausibilidade.
As aulas começaram, e tudo voltou à rotina tranqüila da vida religiosa; tranqüilidade que Francisco nunca deixou que se transformasse em monotonia, aprontando discretamente brincadeiras à moda de sua infância. Como da vez em que passou o sal no lugar do açúcar a um colega, que carecia do paladar devido a uma queda, para que o colega o misturasse ao próprio café. Ora, deve ser horrível beber café com sal, mas o outro bebeu com toda a naturalidade, dando ensejo a muita gozação.
Controvertidamente Francisco cativava a amizade dos colegas pelas diabruras que aprontava, e despertava nos professores simpatia pelo esmero com que mostrava interesse pelos estudos. Depois de dois anos, era a figura mais popular do seminário. Por essa época, os colégios católicos da cidade pediram a frei Lorenzo que seus alunos e professores passassem a editar um jornal destinado a entreter e orientar os alunos daqueles colégios. O reitor ficou sendo o diretor do jornal, e Francisco assumiu o cargo de cronista humorístico. A finalidade maior do jornal era, na verdade, doutrinar os jovens contra as outras religiões ridicularizando-as, ou mesmo mostrando sua perversidade. Francisco limitava-se a inventar anedotas mormente sem fundo religioso, mas às vezes brincando com judeus e protestantes. Uma vez, escreveu sobre um rabino que sempre pregava na sinagoga para os judeus não comerem porco; mas, cedendo à tentação, o rabino foi a um restaurante e pediu carne de porco; serviram-lhe um belo leitão assado com uma maçã na boca; nisso, uma judiazinha o reconhece e diz: “Rabino, o senhor comendo porco?”, ao que ele responde: “É que esse restaurante deve ser muito sofisticado, pois eu pedi uma maçã e olha como ela veio!”.
O jornal atingiu certa popularidade, tanto que serviu para propaganda do serviço militar. Um estudante, filho dum oficial do Exército, levou o periódico para casa; seu pai, que era responsável pelo recrutamento de soldados, viu naquilo um ótimo meio de fazer sua propaganda, e foi falar com o reitor do seminário. Frei Lorenzo lembrou que Francisco havia participado da FEB, solicitando-lhe uma crônica enaltecendo a campanha militar. Não foi difícil. Mas, quando a crônica veio a ser publicada, Francisco atinou que pela primeira vez na vida cometera hipocrisia. Como falar bem do que achava mal? Consolou-se pensando que ele também fôra atraído por uma propaganda do serviço militar, e que cada um que passasse por ele que tirasse sua própria opinião; as lições de vida são melhor aprendidas na prática.
Nos estudos de latim, um seminarista tinha especial dificuldade. Era um filho de japonês chamado Hideo que contava com a paciência de Francisco para ajudá-lo. Ao contrário de Francisco, Hideo ingressou no seminário menos por vocação do que por necessidade. No tempo da guerra, o exército entrou a cavalo (a cavalo!) em sua casa, destruíndo a mobília e levando preso seu pai; a família foi obrigada a fechar um pequeno comércio que possuía e a Hideo, sendo-lhe negado emprego em toda parte, restou como último recurso conseguir uma vaga no seminário. Terminada a guerra, ele decidiu sair, mas foi ficando por gratidão. Tomando conhecimento disto, Francisco sugeriu o mesmo que Dom Clemente havia-lhe sugerido quando da quebra do jejum, ou seja, conhecer mais o mundo antes de firmar propósito de ser padre.
Numa tarde de folga, os dois saíram juntos a pretexto de visitar a igreja de São Bento, famosa por sua beleza. Nem passaram perto dela, seguindo de bonde rumo a Avenida Paulista que, naquela época, ainda ostentava muitos palacetes dos barões do café. Desceram à altura duma escola de onde saía um grupo de moças. Francisco ia falar algo quando deu-se conta que Hideo só enxergava as moças; seguiram-nas até certo ponto em que uma delas apartou-se do grupo, este entrou numa rua secundária, mas aquela moça rumou para o parque do Trianon, Hideo atrás dela esquecendo Francisco que o acompanhava. Era ainda uma menina de seus quatorze anos, olhar sério, cabelo castanho e liso caído nos ombros, esbelta, e da pele bronzeada. Ao que ela entrou no Trianon, Francisco perguntou se o amigo continuaria a perseguição. Tenho que conhecer essa menina, respondeu Hideo com olhar perdido. Acercaram-se do banco onde ela se sentara, e por uns instantes ficaram inertes; o silêncio só foi quebrado, com toda delicadeza, por iniciativa dela, perguntando se os rapazes estavam perdidos. Hideo teve ímpeto de dizer que sim, estava perdido de amor por ela. Francisco observou: “Você fala com um sotaque diferente. É de São Paulo?”. Não, sou de Bucaramanga, na Colômbia. O que faz, então, no Brasil, emendou Hideo. Minha mãe separou-se do meu pai e casou com um brasileiro. Bom, disse Francisco, temos que ir por que já escurece; prazer em conhecer... qual o seu nome? María Carolina. E voltaram ao seminário; Hideo contrariado, puxado pelo braço.
A partir daí, sempre que podia, Hideo escapava do seminário para encontrar María Carolina à saída da escola. Tentou aprender espanhol lendo El Ingenioso Hidalgo Don Quijote De La Mancha; quanto ao latim, nem pediu mais a ajuda do amigo, esquecendo por completo de estudá-lo. Um dia, sumiu do seminário. Francisco nunca mais soube dele. Deve ter cedido aos encantos da colombiana, mistura de espanhola com índia dos Andes: artigo que no mundo há sem igual.
O periódico em que Francisco contribuía obviamente tinha um nome, chamava-se FRATERNIDADE. Depois de algumas edições, lendo o que era publicado pelos professores e colegas, Francisco viu que havia uma nítida incongruência entre fraternidade e o que era publicado; as matérias, em vez de incentivar a prática da virtude cristã, atacavam direta e gratuitamente qualquer outra religião que não fosse a católica. Assim, na próxima edição do jornal, no lugar de sua crônica humorística, ele publicou o seguinte soneto, intitulado Hipocrisia:


O que penso e não falo é o que mais me empobrece.
Tantas coisas perdi tão somente por isso...
E o que falo e não penso é o que mais me entristece.
Então a vida perde de todo seu viço.

O ser humano age inconscientemente
Contra o que deve, mas qual deve parecer.
Pois ele sem vergonha alguma muito mente
A si mesmo e aos outros , e assim vive a crer.

E é difícil de escapar desse costume
Quase unânime, mas o qual ninguém assume
Pelo medo ancestral da discriminação.

De meu canto contemplo essa vil procissão,
Denunciando nos versos da poesia
A mais comum ação que é a hipocrisia.


Depois dessa derradeira contribuição, ele pediu licença para deixar o jornal. Frei Lorenzo não compreendeu, como não havia compreendido a razão do poema grave no lugar do humor, mas aceitou a resolução.
Assim como Hideo abandonou o seminário por causa da colombiana, muitos outros foram abandonando-o por motivos vários que se resumiam na simples falta de vocação, exceção feita aos poucos que saíam devido a carência de recursos intelectuais. Da turma de Francisco, por exemplo, nem a metade chegaria à ordenação. A propósito, os anos passavam e se aproximava a hora da formatura; Francisco nesse tempo todo não visitara o pai nem escrevera carta. Pode parecer estranho, mas ocorre que se ele permanecia em São Paulo é porque os afazeres o induziam a olvidar a saudade. Sentia-se muito bem no ambiente religioso, sorvia dos livros e aulas a doce ambrosia do saber, e não poderia supor que outrem sofresse com esta situação. Até que recebeu a visita do padre Silas.
Padre, o senhor por aqui?!, exclamou Francisco notando com dissimulado desgosto a presença da senilidade na face de Silas. Minha criança, você já é um homem!, admirou-se o padre. E continuou: “Por que você deixou de nos visitar nesse tempo todo? O senhor Reinisch...”. Que tem meu pai? A solidão, o abandono, desânimo da vida, creio que foi isso: não está mais entre nós.
Silas, antes de voltar a Sorocaba, ainda insistiu que Francisco fosse ver o túmulo do pai, mas o seminarista não achou a idéia lógica, afinal: o que se pode fazer por um morto? Seu sofrimento de estar órfão pela segunda vez só se fez aparente no fim da semana quando teve que rezar uma missa à guisa de legitimar sua formatura; no sermão lembrou como os homens são todos servos inúteis de Deus, e foi comovente ao mostrar a insignificância das criaturas perante o Criador que mesmo assim as ama, dando o exemplo duma planta que é regada por um homem, mas não tem olhos para ver o homem, e da mesma forma o homem é cuidado por Deus sem que o veja, porque Deus sabe do que o ser humano necessita mesmo antes que este peça.
Enfim, Francisco foi ordenado padre.
Quase na fronteira com o estado de Mato Grosso do Sul, uma paróquia dirigida por um tal de frei Anselmo requisitou outro religioso para auxiliá-lo. E lá foi Francisco para a cidade de Nhandeara, noroeste de São Paulo.
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2 comentários :

tonhOliveira disse...



HIPOCRISIA

O que penso e não falo é o que mais me empobrece.
Tantas coisas perdi tão somente por isso...
E o que falo e não penso é o que mais me entristece.
Então a vida perde de todo seu viço.

O ser humano age inconscientemente
Contra o que deve, mas qual deve parecer.
Pois ele sem vergonha alguma muito mente
A si mesmo e aos outros , e assim vive a crer.

E é difícil de escapar desse costume
Quase unânime, mas o qual ninguém assume
Pelo medo ancestral da discriminação.

De meu canto contemplo essa vil procissão,
Denunciando nos versos da poesia
A mais comum ação que é a hipocrisia.

CRISIS! Muito BOM Marcos!

♫ hipocrisia!
Eu quero uma pra VIVER... op♪!

CaZuZei! Ah! ah! ah! ah!

Abraço-tchê!

bella ferraro disse...

Ah, sim, o ideal surrealista...
Gostei muito do "Soneto Feroz" e das peripécias narradas no Eines Brasilianischen, em certos aspectos me fez relembrar o Ateneu do Pompeia, que, aliás, perdeu o acento agudo com o novo acordo :)