sábado, 26 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 4




CAPÍTULO IV
Do regresso de Francisco Reinisch
ao Brasil passando pela cidade de Nápoles;
e sua volta ao seminário.


Bem, é chegada a hora de nosso herói volver à pátria amada. Agora como herói de guerra, apesar de que ele não se sinta como tal, por ter sido “homem da retaguarda”. Mas, convenhamos, quem foi que em Camaiore atravessou sozinho a linha inimiga sem disparar sequer um tiro e capturou o coronel Wendt? Algum mérito deve ter o cabo Arruda do Regimento Sampaio na gloriosa campanha da Força Expedicionária Brasileira da Segunda Guerra Mundial. Sim, Francisco Reinisch padeceu demais tendo que suportar a solidão por estar alijado de suas afinidades espirituais; teve que enfrentar o inefável conflito de saber que fazia parte duma máquina homicida, e mais: combater os conterrâneos de seu próprio pai, homens em cujas veias pulsava um sangue que ele herdara. Herói de guerra sim!, e dessa maneira é que ele e seus companheiros serão saudados pela população napolitana. Enfim, acabou a guerra na Europa; agora resta esperar os derradeiros combates no Oceano Pacífico, e, com o lançamento de duas devastadoras bombas nucleares sobre seu território, a derrota do Japão.
Nápoles é inteira festa. As tropas aliadas desfilam sob aclamação geral pelas avenidas, passando inesquecivelmente pelo arco do triunfo de Castel Nuovo. Cidade antiga, estilos gótico e renascentista mesclados num cenário que parece ter sido idealizado cuidadosamente em harmonia. Francisco pôde vivenciar todo um clima de pura beleza que nem de longe ele imaginaria nas aulas de história universal no seminário. Era outra civilização, com sabedoria esculpida pelo tempo, maravilhosa... Nestas coisas divagou nosso brasileiro até o embarque de volta.
Talvez tenha comparado a América com um vinho fresco que ainda teria que envelhecer por muitos séculos até adquirir o sabor desejado. Ainda, porém, a civilização humana só colaborava para a deterioração do que havia de belo no Novo Mundo: a natureza.
Aquele sargento norte-americano que declarara a deserção de Francisco acabou ele próprio desertando ao fim da campanha, indo morar com sua amada naquela aldeia campesina da Apuânia. Nos registros oficiais seu nome consta entre as baixas, sendo que apenas seus parentes receberam jubilosos a notícia da sua sobrevivência através duma carta por ele escrita. Findo os combates, o sargento não respondeu à chamada e à noite caiu na estrada num carro roubado. Francisco, no acampamento olhando a Lua, presenciou este fato, compreendeu, e guardou segredo rindo-se na intimidade.
A propósito, no que diz respeito à namorada do sargento, na única vez que a viu, Francisco reparou num seu pequeno defeito físico, o qual consistia em subtrair-se-lhe os quatro dentes frontais da arcada dentária superior. Isso era patente, aguçando a sempre alerta curiosidade de Francisco, que arquitetou várias teorias para explicar a questão sem ter coragem de perguntar ao sargento a verdadeira causa; poderia desiludí-lo; e a ilusão, uma vez instalada, deve ser mantida; felizes os que cultivam até a morte suas ilusões. Após alguma reflexão, ele aprendeu que era preferível o silêncio às faláceas, e o esquecimento às dúvidas frívolas.
Vê-se que tanto na paz quanto na guerra Francisco assimilava lições de vida. Arrependeu-se de ter transgredido a disciplina do seminário; ele havia errado. Por outro lado, esse erro levou-o a conhecer a vida militar, que por sua vez levou-o a outro continente, no qual suas vivências vieram a ser proveitosas.
A viagem de volta transcorreu bem mais animada que a de ida; os soldados tinham a satisfatória intuição de que haviam feito história; cantavam agora com convicção as canções heróicas. Francisco cantou a Santa Lucia que havia lhe ensinado o ancião barbudo do bosque, foi vaiado, e desistiu de cantar até que chegasse ao Brasil.
Desembarcaram no Rio de Janeiro, recebendo os cumprimentos do presidente da república e desfilando pelo centro da cidade ovacionados pela população. Francisco voltou ao quartel em São Paulo, onde seu comandante insistiu para que ele seguisse carreira no Exército já que obtivera a promoção a cabo, mas ele tinha o firme propósito de ser padre, e desligou-se da corporação. Dirigiu-se ao seminário; encontrou Dom Clemente com a saúde muito debilitada, tossindo ao falar, e falando pouco. Foi readmitido como aluno; soube que as aulas começariam em um mês, e resolveu rever seu pai.
Ao chegar em Sorocaba, não deixou de visitar o Carlos, espanhol da sapataria, agradecendo a ele e sua esposa Maria por ter entregue a carta que enviara ao pai. Feito isto, foi para a fazenda onde encontrou o senhor Christian Reinisch a cortar lenha perto de casa, tinha ainda pleno vigor físico. Vendo o filho, precipitou-se em seus braços contraditoriamente o amaldiçoando a chamar-lhe de ingrato e desobediente. Então não atendeste ao meu rogo para desertar a qualquer custo?, querias deixar-me sozinho no mundo outra vez? Eu não soube disso, meu pai. Mas e a carta que te escrevi? Não chegou; ao menos não a tempo.
Fizeram as pazes. Conversaram tomando café; o pai parecia receoso em dar uma notícia ao filho; era o avô Ismael: morreu tocando cavaquinho de derrame cerebral; foi fulminante. A morte já não abalava Francisco, mais que natural era-lhe corriqueira. Sequer visitou o túmulo do avô. Esteve com padre Silas, e distraiu-se bastante nadando e pescando no córrego.
No mês seguinte, voltava à capital estadual.

--- vai comendo, Raimundinho; wird morgen fortgesetzt...
.

Um comentário :

tonhOliveira disse...



Vim "inticar" contigo! (provocar)

Tá!
Não vai falar da copa?

Comeste a "jabolani"?

Ahahahah!

Tô com saudade da tua
arre! erre! irre-verência!

Teus sonetos...

Abraço-tchê!