sexta-feira, 25 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 3 - SEGUNDA PARTE



Francisco leu o relato; achou-o inverossímil, pois ainda não imaginava as atrocidades de que a guerra era capaz. Guardou o panfleto no bolso, e lá o esqueceu.
Nessa altura da guerra, forças britânicas e norte-americanas haviam se posicionado ao sul da Península Itálica aguardando a ajuda brasileira para o esforço conjunto na expulsão dos alemães de todo o país. O Brasil colaborara imprescindivelmente até então sediando bases militares em seu território, escoltando navios mercantes no Oceano Atlântico, e dando suporte logístico aos Aliados, em detrimento de sua população civil que sofria com racionamentos de comida.
Em Nápoles o 5° Exército norte-americano, sob comando do general Mark Clark, recebeu os brasileiros do general Mascarenhas fornecendo infraestrutura e equipamentos novos. Mascarenhas considerou oportuna uma adaptação de seus comandados ao novo equipamento, e a FEB deslocou-se para o acampamento de Vada, a 25 km da frente de batalha.
Chegando ao acampamento, Francisco escondeu por precaução seu sobrenome alemão, dando-se a alcunha de soldado Arruda do Regimento Sampaio. Isto não sem escrúpulo, pois é da crença popular que a arruda é planta que traz sorte. Os companheiros estavam cegos de patriotismo ufanista; só falavam em mostrar o valor brasileiro, escorraçar os alemães, destruir! destruir! Francisco sentiu dolorosa solidão mesmo entre tanta gente. A tristeza se devia ao fato de ele não ter com quem confidenciar suas impressões; onde padre Silas?, onde a remota e querida Harumi da aurora de sua vida, da sua infância querida “que os anos não trazem mais”?
Francisco definitivamente era inapto para a vida militar; sentia falta do seminário, queria ser padre sem nacionalidade, que barbaridade era a constante beligerância entre os povos... De qualquer maneira, ele esquecia estes pensamentos durante os treinamentos diários no esforço de ser um bom... não digo guerreiro, mas um bom homem. Aprendeu rudimentos do idioma inglês com um sargento norte-americano que o levou, um dia, a uma aldeia próxima onde o traquinas do sargento havia arrumado uma namorada italiana. Nosso brasileiro achou a situação estapafúrdia (namorar em plena guerra), mas o amor não tem explicação, não se explica sentimentos, explica-se só quando não existe, quando é um raciocínio vão e sem fundamento. Confuso, ele deixou o casal e foi conhecer a vila. Ao longe ele escutou melodias de acordeão as quais o levaram a se embrenhar num bosque afastado do povoado. Deparou-se com uma casinha de pedra com janelas de madeira carcomida e chaminé a fumegar; a música vinha dum galpão adjacente; lá dentro um ancião barbudo tocava o acordeão acompanhando uma jovem que cantava Guarda Che Belli Fiori.
Francisco imprudentemente postou-se à porta. A moça, vendo-o, soltou um grito levando a mão à boca; o velho, reparando no uniforme do forasteiro, estancou a música sentenciando: “È un tedesco!”. Francisco facilmente decifrou a frase proferida por semelhante que parecesse do português, e arriscou seu inscipiente italiano: “No, noi siamo brasiliani per fare Italia liberata”. Nenhum dos dois sabia onde ficava o Brasil, mas logo viram que aquele soldado, apesar de forte, era inofensivo; ademais, onde já se viu alemão mulato? Acharam o tipo interessante, ofertaram-lhe pão, vinho, e um queijo que ele desistiu de comer ao constatar que estava vivo: vermes afloravam dele.
A todas estas sobreveio a noite, o sargento despediu-se da namorada e quis saber do amigo brasileiro; revistou a aldeia inteira; não o encontrando, voltou a Vada e declarou ao major Alberto Silva a deserção do soldado. Por seu turno, Francisco afeiçoou-se dos novos conhecidos, permanecendo quase uma semana na casa completamente esquecido do dever militar e inebriado pelo aconchego do bosque. Aprendeu a cantar Santa Lucia, uma bela canção referente a Nápoles, e ensinou ao velho italiano a tocar o Hino Nacional Brasileiro que, malgrado o empenho, a moça sua filha não logrou decorar.
Foi então que o general Mascarenhas, junto com Mark Clark, determinou um derradeiro exercício-teste da FEB e do 5° Exército norte-americano para sentir firmeza na tropa antes de entrar em combate. Isso incluiu o uso de munição real e artilharia pesada. Ainda alvorecia quando um estrondo de canhão despertou Francisco no galpão onde passava as noites. Com o susto, lembrou imediatamente da condição de soldado e correu a se apresentar em Vada. Tão logo apareceu, foi preso e conduzido ao major Alberto Silva, um homem calmo mas que não poupou aspereza ao repreender Francisco pela molecagem: “Hoje você fica na cadeia, seu safado! Mas na hora que a luta for pra valer, eu lhe coloco na linha de frente, visto? Pode se retirar”.
Os comandantes observaram o exercício-teste, ao final do qual convieram que os brasileiros estavam bem treinados. Um dia depois atacaram os nazistas em Camaiore. O soldado “Arruda” do Regimento Sampaio, na vanguarda, borrado de medo.
Marcha feito uma donzela, zombava um. O covarde quer a mamãe, dizia outro. Esta lembrança da mãe o fez esquecer o medo e quedar-se alheio às provocações dos companheiros; como seria estar morto?, será que agora ele estaria prestes a juntar-se à mãe e encontrar a resposta cabal? Francisco tinha esses momentos especulativos em que se ausentava da realidade. Seguiu marchando involuntariamente. Sua indiferença plácida calou a boca dos provocadores.
Logo avistaram as fortificações inimigas. O major Silva convocou um voluntário para espiar o inimigo mais de perto; disse: “Quem se voluntariar dê um passo à frente”. Todos deram um passo à ré, menos Francisco que estava na primeira fila e acabou sendo, involuntariamente, o voluntário. É assim que eu gosto, disse Silva com sarcasmo, olha se não é o Arruda, soldado corajoso! Pode ir, rápido! Francisco fez carreira. Quando ele estava a mais ou menos cem metros das fortificações a artilharia começou a funcionar: os alemães haviam descoberto a Força Expedicionária.
Francisco caiu no chão e prosseguiu agachado; os norte-americanos puseram seus canhões em ação enquanto a infantaria brasileira iniciava a ofensiva. O ataque deu-se lentamente devido à poderosa resistência alemã; curioso é que os homens que mais se gabavam da própria valentia no acampamento eram os que menos avançavam; este primeiro combate foi patético, todos insentivavam a todos mas ninguém avançava, a não ser o pobre-diabo do Francisco que seguia metodicamente seu destino hipnotizado pelo barulho ensurdecedor do teatro de guerra. Não usou a metralhadora, nem olhava para frente, rastejou dentro dum capim alto até bater com o capacete no muro da fortificação; três metros acima de sua cabeça um ninho de metralhadora atirava incessantemente. E agora, o que esses loucos querem que eu faça? Jogo uma granada no ninho? Posso matar alguém... Morrerei pela pátria, não matarei por ela. A que ponto cheguei! Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, seja feita a vossa vontade... Bum!, o ninho de metralhadora ia pelos ares. Francisco, aparvalhado, pensou: “Sangue de Cristo tem poder!”. Acima dele, uma bala de canhão acertara o alvo, cujo muro, breve, desmoronou quase soterrando Francisco que se esquivou e invadiu a fortificação.
Uma fina névoa de pó pairava no ar; ordens eram dadas em alemão, as quais nosso brasileiro entendia com perfeição; concluindo que um guarda estava sendo designado para tomar conta da brecha aberta, escondeu-se na escuridão de um túnel lateral de onde pôde ver o pavor do guarda a gastar munição desnecessariamente no intuito de rechaçar os brasileiros.
Em tempo, a munição do guarda acabou. Tão logo Francisco percebeu isto, saiu do túnel apontando-lhe a arma e dizendo em alemão: “Entre aqui e tire a roupa”. Depois, mandou-o correr para fora. Vestiu o uniforme estrangeiro, disfarsou a cor da pele com a poeira do chão, e empreendeu a busca ao oficial supremo da instalação. A artilharia norte-americana que havia ajudado, agora estava prejudicando ao causar explosões por onde Francisco cambaleava. Passando incógnito por dezenas de soldados, ele chega ao rés duma torre; lá está o oficial que ele procura. Senhor, senhor, desça aqui, é uma emergência!
Apreensivo, o oficial desce até Francisco, que o conduz à abertura do muro onde ele ordena que o outro jogue fora a pistola e deite no chão. Ele se desfaz do uniforme alheio vestindo novamente o seu que deixara no lugar. Daí, retorna ao lado brasileiro conduzindo o oficial. Naquele dia não foi possível conquistar Camaiore, mas Francisco é promovido a cabo pela captura do coronel Wendt, e aprende a dirigir guiando o carro do general Mascarenhas na ligação entre a linha de frente e o acampamento de Vada; não terá mais que lidar com armas, e o homicídio está definitivamente alijado de sua vida.
Na tarde do dia seguinte, depois de intensa batalha, os alemães, na falta do comandante Wendt, renderam-se. Camaiore era ocupada pelo exército norte-americano. A Força Expedicionária Brasileira continuou rumo a Monte Prano, tomado com facilidade.
Foi então a tropa transferida para o vizinho vale do Serchio, onde ocupou Barga e outras localidades. Lançado contra o importante centro de comunicações de Castelnuovo di Garfagnana, o destacamento, insuficientemente municiado, sem reservas, e em condições de flagrante inferioridade numérica, sofreu seu primeiro revés, tendo de retrair-se ante forte contra-ataque alemão.
Um dia, conduzindo a Barga os generais Mascarenhas e Mark Clark, Francisco é indagado por eles acerca de quais artifícios se valera para capturar o coronel Wendt. É que, além do português, eu falo japonês e alemão, respondeu ele mordendo a língua imediatamente, arrependido da revelação comprometedora. Contudo, a situação foi amenizada com um gracejo de Mark Clark: “Falando estas línguas, meu filho, tu deverias estar do outro lado da guerra, rá rá rá!”. Coisas do Brasil, emendou Mascarenhas.
Chegados a Barga, é organizado um esquema defensivo, durante o qual a divisão brasileira atuou no vale do Arno; no período sobressaem os quatro ataques infrutíferos a Monte Castelo, realizados os dois primeiros por forças norte-americanas reforçadas por elementos brasileiros, e os dois últimos exclusivamente por tropas brasileiras. Nessa segunda fase das operações, o comando aproveitou a estabilização da frente para aperfeiçoar o preparo dos soldados. Tal medida deu excelentes frutos na campanha ofensiva do Regimento Sampaio, em fevereiro de 1945, quando a FEB conseguiu dominar as posições de Monte Castelo, brilhante vitória logo seguida do duro combate de La Serra. Dias depois, a divisão brasileira obtinha nova vitória com a tomada de Castelnuovo di Vergato.
Com o sucesso, os ânimos ficaram confiantes em demasia, os sobreviventes esqueciam dos companheiros mortos, e a estes últimos é que se devia a sobrevivência dos restantes, pois há muita covardia na guerra, os da retaguarda não se expõe ao perigo e são os que serão recebidos como heróis. Francisco sentia culpa por isso, mas sentiria mais culpa se tivesse que matar para não morrer. Então, numa noite, arranjou lápis e papel, e registrou sua situação na guerra através do seguinte soneto:


A servir no grande forte,
Fui bravo, valente, e vil!
Da morte não tive a sorte
De morrer pelo Brasil.

Lutei pela pátria amada
Da janela do arsenal;
Fui homem da retaguarda,
Soldado de manual.

À guerra foi meu destino
Fazer guerra qual menino;
Fui herói só para mim.

Minha honra foi a dos hinos;
Estão noutros meus feridos;
Mal-querido foi meu fim.


O original deste poema foi encontrado acidentalmente muitos anos depois por uma professora universitária, que pesquisava história medieval no interior da Itália.
Passado pouco mais de um mês, iniciava-se a “Ofensiva de Primavera” com outro triunfo brasileiro: o ataque e conquista da vila de Montese, cuja conservação custou dias de encarniçada luta por conta da formidável gana alemã. Aproximava-se o fim da campanha na Itália, como nas outras frentes de batalha na Europa. Após a tomada de Zocca e a ocupação de Vignola, a FEB empenhou-se na perseguição das forças alemãs derrotadas e em desordem, vencendo-as ainda em Collecchio e cercando parte delas em Fornovo di Taro, onde a 148ª Divisão de Infantaria alemã e os remanescentes da 90ª Divisão Blindada, bem como os da Divisão Bersaglieri italiana, se renderam incondicionalmente aos brasileiros. Estava terminada a campanha.

--- continua amanhã neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-blogue, pelo mesmo bat-punheta...
.