quinta-feira, 24 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 3 - primeira parte








CAPÍTULO III
De como Francisco sai do seminário,
ingressa na vida militar e se vê metido
na Segunda Guerra Mundial.




Dom Clemente, à semelhança do engenhoso cientista russo Pavlov, tinha por passa-tempo predileto o cultivo da jardinagem; daí o jardim interno do seminário, apesar de relativamente grande, possuir requintes de meticuloso esplendor, sendo unânime a opinião que o elevava à categoria de maravilha do mundo para quem o conheceu. Colunas de mármore, no estilo barroco ornadas, o limitavam formando um círculo dentro do qual outros círculos menores eram repletos de flores de várias espécies, grama, e hortaliças destinadas a um fim mais pragmático. Entre os círculos, pedrinhas miúdas e multicolores qual mosaico formavam o chão do passeio. Tudo isso laureado por uma cascata letárgica que descia do rés da capela sita no segundo andar.
Pois o reitor lá se encontrava limpando um pedaço de grama quando Francisco foi ter com ele. Confessado o delito, Dom Clemente pôde revelar sua extrema tolerância. Em vez de repreender seu jovem pupilo, sujeriu-lhe passar algum tempo afastado do seminário trabalhando na grande cidade afim de ampliar sua visão do mundo e decidir se realmente possuía vocação para a vida religiosa. Na manhã seguinte, Francisco arrumou a mala, e saiu procurando emprego e moradia.
Perambulando pelas cercanias do Largo da Sé, ele lê os cartazes fixados na ante-câmara da catedral, num dos quais toma conhecimento que está na idade de cumprir o serviço militar obrigatório; prontamente segue de bonde ao endereço indicado, e alista-se no 7° Batalhão de Infantaria, onde já consegue alojamento. No quartel Francisco aprende a jogar Futebol, o jogo inglês que chegara no início do século e que o Brasil adotou como esporte nacional. Disseram-lhe que isso é que era esporte de homem, e não as brincadeiras a que ele estava acostumado na fazenda. Tinha pouco reflexo para jogar no gol, e nenhuma habilidade para ser atacante; portanto, jogava invariavelmente como defensor, sendo difícil um adversário passar por ele com a bola devido a sua corpulência avantajada.
A rotina quotidiana é de descontração e exercício físico, mas apenas por pouco tempo: em duas semanas ordens superiores transferem os recrutas para o Regimento Sampaio, que segue ao Rio de Janeiro dando início a um treinamento intensivo com armas de fogo e noções de sobrevivência com recursos precários. É a convocação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Até então a arma mais poderosa com que Francisco tivera contato havia sido o estilingue, ou seja, uma forquilha em cujas pontas são amarradas as extremidades dum elástico para arremeçar pedras à guisa de projéteis letais apenas para passarinhos. Mesmo assim, quando lhe entregaram um fuzil, não estranhou; só estranhou tomar ciência de que haveria de matar gente com aquilo, era uma máquina muito artificiosa e bonita para ser destinada a um fim tão atroz. Exercitou tiro ao alvo, foi fácil; em breve também desmontava, limpava, e montava o fuzil com agilidade. Francisco tinha a invejável qualidade de aceitar naturalmente o que a vida lhe apresentava.
Certa tarde, acomete-lhe a lembrança do pai. Desde que chegou à capital não soube mais dele nem deu notícias suas, mas agora era necessário por dura que fosse a verdade. Escreveu uma carta na qual avisava que incorporara-se ao Exército partindo para guerra, e pedia que a carta fosse entregue a seu pai, pois, como não tivesse endereço exato, endereçou-a desta forma:

Carlos Espanhol
Sapataria
Sorocaba -SP-

O sapateiro recebeu a missiva e pediu a Maria, sua esposa, que a levasse ao pai do remetente. Chocado com as palavras do filho, o senhor Reinisch escreve em resposta dizendo o quanto a outra guerra o fizera padecer, e insta veemente que o filho deserte a qualquer custo. A carta chega tarde demais...
Numa manhã nublada, o navio Riachuelo recebe no porto da então capital federal um contingente militar. Entre os soldados está Francisco Reinisch, que segue a Europa ainda incrédulo que deverá combater conterrâneos de seu pai, os alemães partidários do nazismo de Adolf Hitler.
Para a maioria esmagadora da soldadesca os dias no mar sucedem-se monotonamente, monotonia remediada com canções heróicas para elevar a moral. Francisco, porém, desde o embarque reparava no comandante do navio. Tinha o rosto bruto, cicatriz na testa, mas de uma convicção charmosa. Francisco soube que o apelido dele era Lobo do Mar, mas só quando do desembarque viu-lhe de passagem no uniforme : Capitão Dario. E devaneou: está aí um belo nome para meu filho... mas que filho?, eu vou ser padre!
Falando em padre, estava no navio também um tenente capelão cuja finalidade era prestar conforto religioso à tropa. Ele pregava que morrer em combate era um ato de heroísmo, e matar nesta situação era justo e necessário. Francisco achava onírica essa idéia; ele ignorava que num futuro próximo teria que escolher entre matar ou morrer. Um suposto serviço de propaganda, para instigar os ânimos contra o inimigo e pregar o desapego à vida, fez circular um panfleto com a pretenção de conter um relato verídico que dizia o seguinte:

“Testamento Marcial”

“Faz poucos dias... estou confuso, não sei dar precisão de tempo. Os alemães tinham chegado a Paris. Eu tive a oportunidade ou o dissabor de ver pessoalmente, ao longe, o senhor Adolf Hitler contemplando o Arco do Triunfo.
Pelas avenidas desfilavam carros de guerra, e soldados marchando de maneira estranha, dura, incisiva. Então, a banda começou a tocar; pela primeira vez na vida senti o poder da música sobre as emoções; sublimava-se e consagrava-se a mais sentida humilhação. Cada nota musical soava como um punhal a dilacerar meu coração. Flamejavam bandeiras com a suástica, e este símbolo nazista antes temido, agora passava a ser eternamente odiado.
Mas o orgulho da vitória, embora alheia, era tão convincente, através do som estridente dos metais, que por um instante eu também compartilhei de uma euforia irracional que acredito ter tomado posse de cada invasor alemão. Contradição das guerras, as quais tiram qualquer razão do homem. Logo tornei à realidade, abaixei o olhar, e cabisbaixo cambaleei sem rumo até cair a noite pelas ruas da grande urbe, outrora chamada “cidade luz”.
Achei-me quando estava já perdido, a guerra estava perdida, o mundo desabava, a França não existia mais. Apesar de tudo, nenhum espanto senti ao deparar-me com cidadãos aglomerados num botequim que, ao menos naquela ocasião, deveria estar fechado. Aí é que tudo deu-se a perder mesmo, maior asneira! Eu, que jamais consumo bebidas alcoólicas, deliberei firme propósito de encher a cara até desmaiar embriagado. É correto o ditado de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Não fiquei sabendo depois, não! Eu!, eu vi minha mulher, a mãe dos meus filhos abraçada a um oficial alemão; era a própria imagem da pátria sendo usurpada. Pela família e por toda uma nação, vinguei-me. Sem vacilo, vinguei-me doido, com ódio, na hora! Quebrei com desnecessária violência uma garrafa, segurando-a pelo gargalo. Com a ponta cortante de vidro rasguei de orelha a orelha a garganta do usurpador que, ainda sorrindo, levou as mãos ao corte incrédulo que alí era seu fim.
Por isso estou aqui, numa cela, aguardando ser fuzilado. Definitivamente irão me fuzilar; não entendi uma só palavra daquela língua bárbara, mas a lei marcial é fatal. O que mais podem roubar de mim? Já levaram o país, a nação, a mulher e a família, enfim, tudo de real valor.
Irão tirar de mim a vida? Eles pensam que sim. Eu penso que algo muito mais valioso, nesta contingência, ser-me-á dado: a morte! E a sorte esperada dos que têm fé.
Adeus, desgraça da existência!”
* * *

---segunda parte a continuar...