terça-feira, 22 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 2


ilustração: "o mulato"
Cândido Portinari






CAPÍTULO II
De como Francisco Reinisch passou sua
infância com a amizade de Harumi; acabou
órfão de mãe, sendo encaminhado pelo padre Silas
à vida religiosa; e o que aprontou então.


Não houve nada de muito interessante nos primeiros anos da infância de Francisco digno de aqui ser relatado, na medida em que este período de sua vida pouco divergiu da dos demais meninos no meio rural; senão que, quando olhava seu pai, falava em alemão e se imaginava com feições de branco; em contra partida, quando brincava com Harumi, falava japonês e iludia-se que também o era; e, quando com sua mãe, inconscientemente enxergava a si próprio qual autêntico negro. Isso até o dia em que conheceu um espelho, e viu que era mulato.
Vamos encontrá-lo agora aos seis anos de idade descobrindo e questionando a morte.
Foi numa manhã. O pai tentava colocar o cabo numa enxada; Francisco o observava atentamente trepado numa jabuticabeira. A mãe, grávida do segundo filho, então começou a gritar dentro de casa. Devo esclarecer que ainda moravam na mesma casa o casal japonês e sua filha Harumi, agora com sete anos. Hideki estava doente na cama aos cuidados da esposa. Fumiko, ouvindo os gritos de Luiza, saiu do quarto e a encontrou caída na cozinha: a criança estava nascendo. Não chegou a nascer. Houve complicação no parto, Fumiko foi chamar a parteira enquanto Francisco e o pai presenciaram a dolorosa agonia de Luiza.
À noite velaram o corpo, e na manhã seguinte saiu o enterro sob o comando do padre Silas rumo ao cemitério municipal. No caminho, andando ao lado de Harumi, a ela perguntou Francisco o que acontecia a sua mãe. A amiguinha falou com ademanes divertidos que dona Luiza iria para baixo da terra dormir para sempre. Por que para sempre?, redargüiu Francisco. Porque sua mãe morreu. Francisco correu ao pai a lhe perguntar se a mãe dormia para sempre, ao que o senhor Reinisch precipitou a derramar lágrima por lágrima recordando em silêncio contemplativo a morte da própria mãe na longínqua Celle. Oportunamente interveio o grave padre Silas sentenciando: “Dona Luiza está com Deus, e aguarda o dia em que Jesus Cristo virá ressuscitar os mortos para levar os que merecerem ao paraíso”.
A explicação do padre pareceu fantasiosa. Quem seria Deus? Padre Silas disse que Deus era o criador de tudo, era onipresente, onisciente e onipotente. Aí é que Francisco não acreditou mesmo. Será que Deus, sendo tudo aquilo, poderia criar uma porta por onde Ele mesmo não pudesse passar? Não havia Deus, a mãe ia para baixo da terra. E tornou-se ateu.
Ao que parece, a morte da mãe pouco afetou Francisco, ainda que o pai mudou o relacionamento com o filho: ora exagerando nos agrados, ora tratando-o com demasiada severidade. Passado o dia do enterro, Francisco intensificou sua amizade com a extrovertida e engraçada Harumi; ela inventava canções e brincadeiras; ele aprendia, e com o tempo ingressou no mundo da travessura passando a ser o líder das bagunças na escola para terror da professora Fumiko, que agora era mais ou menos responsável por ele em casa também.
Um dia, no pátio da escola, em frente a um arbusto de pimenta, Francisco junto com a Harumi imitava com gestos burlescos o esforço sobre-humano de dona Fumiko em ensinar-lhes durante a aula o Hino Nacional Brasileiro; as outras crianças gargalhavam. Nisso, ele reparou na figura meditabunda de um negrinho, neto do velho Ismael e que vinha a ser seu primo. Parou a brincadeira. O que tens?, perguntou ao primo. Eu queria ser branco igual ao senhor Reinisch, balbuciou o negrinho. Francisco levou a mão ao queixo, parou por um instante, enfim anunciou triunfal: “É pra já! Tu deverás tomar banho quatro vezes por dia durante uma semana esfregando o corpo inteiro com uma pedra”. O primo agradeceu efusivamente a receita. Mas no dia seguinte apareceu todo ralado para Francisco: “Estou ardendo todo, e creio que nunca ficarei branco assim...”. Então o jeito é beberes bastante leite, disse Francisco. Aos que ignoram os efeitos maléficos do consumo excessivo de leite, advirto que um deles não é mudar a cor das pessoas (apesar que dê a impressão momentânea disso), e um outro é motivar fulminante diarréia. Disto sofreu o negrinho durante os dias em que obedeceu a orientação do primo, ao cabo dos quais veio se queixar: “Está insuportável... vou parar de beber tanto leite, Francisco”. Por quê? Porque estamos em plena aula, e eu estou todo cagado... Bom, o último recurso é passar pimenta no cu. Mas, no cu? É! Vai doer? Que nada..., tem gente que faz coisa muito pior com o pobrezinho, e ainda gosta.
Chegada a hora do recreio, os dois foram ao arbusto de pimenta do pátio. Num instante o negrinho saía lá de trás exclamando desesperado por socorro a correr sem rumo até se atirar no córrego. Francisco acudiu escarnecendo: “É para deixares de ser tonto!”. Harumi abriu um sorriso cúmplice. Ela é que dera a idéia da pimenta para o caso do primo de Francisco insistir no propósito de tornar-se branco.
Francisco e Harumi formavam uma dupla inseparável. Cresciam juntos, desvelavam o estreito mundo infantil, tagarelavam, completavam-se, cada um era o irmão que o outro nunca teria de verdade. Francisco adotou dona Fumiko como mãe, e Harumi, por sua vez, adotou Ismael Marcelino como avô, pois os pais do senhor Hideki e de sua esposa haviam ficado no Japão. Vovô Ismael alegrava os netos cantando com sua voz forte e acompanhando-se ao cavaquinho. Dos vários ritmos, agradava sobre modo a Harumi o Samba; ela sempre pedia para Ismael cantar a música “Com Que Roupa?”, do compositor Noel Rosa, maior sucesso do carnaval de 1930. Francisco era indiferente à música, mas comparecia aos saraus em casa do avô por aprazer-lhe a figura soberana do velho, o timbre nítido da voz, as brincadeiras com os primos, mas principalmente os doces que a avó preparava para essas ocasiões (ele tornara-se um belo glutão). Ora, o senhor Christian Reinisch, sendo grande amigo do sogro, nunca deixava de comparecer, empenhado em propiciar ao filho uma vida feliz, na medida do possível, sem a presença da mãe. Porém, este esforçado pai equivocava-se; quando Francisco comia exageradamente os doces da avó, o senhor Reinisch estimulava o filho passando-lhe a mão sobre a cabeça; no minuto seguinte podia estar a gritar e esbofeteá-lo na frente dos primos, resultando em sentida humilhação. Isto confundia Francisco, mas ele formulava que quando viesse a ter filhos não oscilaria de humor drasticamente para com eles.
Corriam os anos, a amizade entre Francisco e Harumi amadurecia, suas tagarelices cada vez mais freqüentemente adquiriam a forma de especulações acerca do mundo que observavam. Por que o céu é azul? Por que existem plantas e animais e as espécies são diferentes entre si? Deus existe? Francisco não acreditava que havia Deus. Harumi, um dia, propôs que Deus estaria no que o ser humano não pudesse explicar. A partir daí Francisco começou a freqüentar as aulas de catecismo do padre Silas que demonstrava sua fé através de suas boas obras. Numa das aulas, o simpático padre perguntou a Francisco se ele amava Deus. Não sei. Como não?, espantou-se o padre. Ele nunca me foi apresentado, respondeu o rapaz, que proseguiu nestes termos: “Quando eu tinha seis anos o senhor disse-me que Deus é onipotente; se isto é verdade, seria Deus capaz de criar uma porta por onde Deus não pudesse passar?”. Rapazinho, isso se chama sofisma, é coisa do Diabo. Quanto à existência de Deus, o Velho e o Novo Testamento dão evidências suficientes de que Deus existe, aqui tu vais aprender, uma evidência é a própria existência da matéria: do nada ela não veio; quem a criou?
Francisco tomou gosto pelas aulas de catecismo; convidou Harumi, que o acompanhou. Assim, os dois converteram-se ao cristianismo. Por essa época, ao senhor Hideki foi oferecida oportunidade de emprego numa sorveteria que um compadre italiano pretendia montar no noroeste do estado. Curioso pela empreitada, Hideki aceitou a oferta levando a família embora da fazenda. Francisco ganhava um quarto para si na casa, perdia Harumi. A perda do convívio da amiga afetou desfavoravelmente o ânimo do rapaz que passou de jovial para inexpressivo. Por agravante, o pai, há tempo, desde o falecimento de Luiza, mostrava-se cada vez mais inconstante no educar o filho; suas oscilações de humor repeliam a segurança que Francisco poderia encontrar nele. Restou encontrar refúgio sob a proteção do padre Silas, homem de boa-vontade, zeloso pela comunidade, e que particularmente via em Francisco pertinentes qualidades de caráter. Isso Silas foi descobrindo durante as aulas de catecismo nas quais o jovem mulato de sobrenome alemão destacava-se primando na agudeza de raciocínio metafísico e crescente aptidão religiosa. Silas deu-lhe alento suficiente para recobrar o gosto pela vida através do saber e da fé.
Francisco tornou-se um adolescente vigoroso, já ajudando o senhor Reinisch na roça. Deixou a escola quando esta não teve mais o que lhe ensinar; saiu alfabetizado em japonês e português (detalhe: cantando decor o Hino Nacional Brasileiro). Trabalhava com vontade sempre renovada pelo incentivo das freqüentes palestras com padre Silas, que num certo domingo, ao fim da missa, pediu aos fiéis que ajudassem com mão-de-obra na mais que necessária ampliação da capela. Entre os que descansaram carregando pedras nas horas livres figurou Francisco Reinisch.
Dois anos depois, quando finda a ampliação da capela, Francisco provara definitivamente seu valor mostrando sua fé através de sua boa ação. Padre Silas encorajou-o, pois, a cursar o seminário na arquidiocese da capital estadual, cidade de São Paulo. Francisco viu nisso uma excelente chance de continuar estudando. O senhor Reinisch hesitou ao receber a notícia da intenção do padre e também do filho; era o natural medo do inusitado; ele ignorava no que resultaria tal deliberação; mas ao fim concluiu que nada de ruim poderia ser, e consentiu. Francisco partiu no primeiro trem, depois de deferida sua requisição de ingresso junto à arquidiocese paulistana.
A fazenda onde morava Francisco era distante de Sorocaba, a escola e a capela também ficavam no meio rural, de modo que os colonos raramente iam à cidade. Imaginem como seria para um deles ter que guiar-se na capital. Portanto, Francisco quedou perplexo ao descer em São Paulo. Mesmo assim, acreditando que o único seminário existente lá fosse o que Silas lhe recomendara, ainda que de posse do endereço, disse para si: “Quem tem boca vai a Roma”, e simplesmente indagou ao primeiro transeunte onde era o seminário sem indicar o endereço. Resulta que atravessou a grande urbe bandeirante, caiu a noite, e ele encontrou-se perdido. Vagando por uma rua estreita, sentiu desalento e parou; olhou para o céu, pelo menos o céu era igual ao da roça, lá estava a mesma Lua e as estrelas intangíveis para sua distração...
Olhava para cima quando um cidadão tocou seu ombro a perguntar-lhe se sentia frio. Um pouco, disse Francisco intrigado pela pitoresca figura daquele notívago: o paletó rasgado, calça folgada, chapéu de feltro ensebado, a barba por fazer, e mal-cheiroso. Vejo pela tua mala que és um viajante, continuou o velho desvalido, tens onde passar a noite? Tenho, vou para o seminário. Qual deles, meu jovem? Por quê? É, parece que nunca vieste a São Paulo, seminários eu conheço no mínimo dois ou três. Sacando um papel do bolso, Francisco leu em voz alta o endereço do seminário. Era longe do bairro onde estavam; o desvalido convidou Francisco a pernoitar em sua modesta casa. Chegando na maloca, Francisco conheceu a mazela da pobreza na cidade grande. A residência constituía-se de quarto e cozinha, sendo que o banheiro ficava fora, num pátio comum a outras casinhas que formavam o que conhecemos por cortiço; não havia móveis no quarto, apenas uma frágil cama. Vamos jantar!, sorriu o velho entrando na cozinha; só encontraram um ovo e farinha de mandioca; ele acendeu o fogão-à-lenha, jogou a farinha na panela, esperou esquentar, e acrescentou o ovo; dividiu serenamente a massaroca em dois pratos destinando maior quantia a Francisco que a todas estas se admirava. Admirou-se mais ainda ao lhe ser oferecida a cama pelo velho, o qual assegurou que convidado se trata bem e dormir no chão ele já dormira muitas vezes na sua longa vida. Dormiram. Mas com fome.
Ao amanhecer, o velho ensinou-lhe o caminho do seminário. Francisco perguntou quanto deveria pagar pela hospedagem, recebendo a seguinte resposta: “Deus vê tudo, Ele me pagará”.
Dom Clemente, reitor do seminário, chegara ao Brasil recém ordenado padre no ano da abolição da escravatura, ainda durante o império de Pedro II; era suíço de origem francesa; contudo, tendo reparado que o novo aluno tinha sobrenome alemão, saudou neste idioma a Francisco. Caminharam lado a lado no jardim interno do seminário a conversar mesclando português e alemão. A simpatia de Dom Clemente pareceu logo incompatível com a intransigência ao afirmar suas idéias, fato cuja causa Francisco atribuiu à fé. Enfim, entraram num dos dormitórios; o rapaz ficou encantado ao ver tantas camas juntas, o reitor designou-lhe uma, informou que seus colegas chegariam das férias segunda-feira para início das aulas, e despediu-se.
Pela extrema capacidade de adaptação do ser humano, Francisco logo se integrou à rotina do estabelecimento (tão diferente da vida rural), angariando amizade dos colegas e simpatia dos professores; tudo isso ele conseguia devido a uma personalidade simples, generosa e desprovida de orgulho; note-se que nem a morte da mãe o afetara, viver era trivial. A simplicidade, porém, não denota de modo algum que ele deixasse de investigar a realidade. Num passeio ao Bosque da Saúde, ele falava a respeito da comunidade onde nascera, quando perguntou a um colega quantos filhos este pretendia ter. Ora, se eu me formar padre, não poderei ter filhos. Por quê? Porque padre não casa. Sem casamento se pode ter filhos, os animais não casam e os têm. Mas gente deve pedir permissão a Deus, gente constitui família para o bem geral, é uma das razões por que Deus a nós concedeu inteligência. Padre não pode pedir essa permissão? Não: padres dedicam a vida a Igreja, que torna-se um tipo de esposa. Aí Francisco entendeu por que Silas não era pai.
Desde que se despediu daquele desvalido que o acolhera durante sua primeira noite em São Paulo, Francisco pensava na frase que aquele proferira: “Deus vê tudo, Ele me pagará”. Certa feita, no seminário, à hora da meditação diária, Francisco contemplava a bondade daquele homem quando a referida frase veio fulminante; examinou-a, e concluiu que é atributo humano ser egoísta; até na prática do altruísmo há egoísmo, pois com ela se espera recompensa divina ou mesmo mundana. Esta idéia Francisco comunicou a um professor, o qual esclareceu que a graça consta em agir benevolamente, mas sem dar-se conta de que é bom, há que abituar-se de tal modo à virtude que esta passe imperceptível. Todavia Francisco tinha razão ao supor que a natureza humana era egoísta, pois mesmo à graça chegamos devido ao egoísmo.
O primeiro semestre passou ligeiro. Tudo era insólito e alumbrante; a cidade, a biblioteca, o espetáculo das aulas de geometria e história universal... Até que vieram as férias. Francisco não possuía numerário nem sentia saudade para voltar ao município natal; um amigo quis ajudá-lo, mas ele preferiu ficar para conhecer melhor a cidade.
No segundo semestre, além da meditação e das orações, um novo procedimento foi solicitado aos seminaristas. Era o jejum semanal. Já é sabido como Francisco apreciava os doces da avó, desde menino sendo glutão. Pois não resistiu ao jejum. Afinal, jejum por quê? Porque nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra vinda de Deus. Nem só de pão, porém sem pão não vive. Um dia foi ao recinto onde eram guardadas as hóstias, e as comeu, quebrando o jejum; nisso foi surpreendido por um dos padres, que o encaminhou ao reitor.

--- continua, baseado em factos reais, como a vida que se baseia num eterno baseado...
.