quarta-feira, 30 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 8

CAPÍTULO VIII
De como Francisco
renuncia ao sacerdócio para casar-se
com Harumi, e teoriza sobre a posse
da terra e tratamento dos animais.

Chamava-se Fazenda Mato Grosso a propriedade onde Harumi e Fernanda residiam. Tiravam seu sustento da plantação do café e da criação de vacas leiteiras. A terra não era muita; José Barbosa de Oliveira, o único empregado, bastava para dar conta do serviço. José tinha o apelido de “meia-garrafa” devido à sua baixa estatura; isto, somado com as peculiaridades anatômicas da cabeçorra e do bigode que ostentava, poderia dar margem aos genealogistas para especular seu provável parentesco com Rui Barbosa, famoso diplomata da república. Contudo, “meia-garrafa” mal sabia assinar o próprio nome, o que também não quer dizer nada, visto que ignorância nunca foi sinônimo de debilidade mental. Ele era prestativo e exímio carpinteiro, tendo sozinho construído sua casinha de madeira ao lado da de Harumi.
Sabe-se que a tranqüilidade é uma das perenes buscas do ente humano que, sendo contraditório por natureza, quando a encontra em abundância passa a ver a vida com olhos entediados. Claro, esta regra tem exceções; José, por exemplo: agraciava-lhe ser de índole inerte, convivendo bem com a bonança da fazenda. Já Harumi, inquieta desde tenra idade, mormente após o falecimento do marido quedara insatisfeita.
A insatisfação Harumi deixou aflorar propositalmente durante as freqüentes visitas que ela e Francisco empreenderam trocar entre si desde o reencontro. Fez bem, ao menos para o fim que formulara. Ocorreu-lhe que a batina clerical não ornava com suas lembranças do amigo, acreditando ser um dever encaminhá-lo a outro destino. Em verdade o que sentia era o afeto infantil agora desaguando no turbulento mar do amor. A condolência que a princípio Francisco sentiu pela amiga também foi lhe confundindo; e para clarear sua alma bastava uma palavra: amor. Harumi resolveu a questão através do simples senso prático que possuía pedindo explicitamente que Francisco a tomasse em matrimônio. Frei Anselmo teve que reqüestar outro ajudante.
Assim, chegou a Nhandeara um padre novato, de nome Antônio, ainda a tempo de celebrar seu primeiro casamento, o de Harumi e Francisco Reinisch. O leitor atento deve ter estranhado o fato de Harumi se casar pela segunda vez na igreja; ocorre que quando casou com Oswaldo Gogliano o fez apenas perante a justiça, ou, como é costume dizer, no civil. A celebração foi feita com a igreja quase vazia; digo quase, por que algumas pessoas compareceram, mesmo sem terem sido convidadas, por não terem nada melhor a fazer.
No começo Francisco sentiu-se incomodado por ir morar na fazenda que Harumi herdara do marido, mas o bem-estar de retornar à vida rural superou o incômodo.
Agora ele não era mais colono, era patrão. Um dia, acompanhando “meia-garrafa” na ruagem do cafezal, teve um estalo de lucidez. Reparou enternecido a figura humilde daquele homenzinho que trabalhava mansamente a terra alheia; lembrava seu pai que não possuía a terra, mas trabalhava agradecido por ser colono e poder morar nela. Quanto a si, o que legitimava seu direito de posse? A herança que Harumi recebeu. Uns herdam, outros compram, e assim a terra vai passando de dono para dono... Se foi Deus que criou todos os seres humanos, o que dá o direito a uns de ter a posse e alienar os restantes deste mesmo direito? A posse da terra é um roubo!
Francisco comunicou essa excêntrica idéia à esposa, propondo nada menos que eles doassem a fazenda ao senhor José Barbosa de Oliveira. Harumi trouxe de volta à realidade o idealismo do marido, explicando como era inócuo tentar mudar a ordem social do mundo, pois o mundo é muito grande, poderosos interesses o regem..., enfim, tentou conformar Francisco que depois de bastante pensar sentenciou: “É, se doarmos a fazenda ao José, ela só vai mudar de dono, e será pior para nós que viraremos empregados”. O que podemos fazer, disse Harumi, é dividir os lucros: metade da colheita é dele, e metade do leite também; mas na verdade a gente nunca dividiu nada, comemos sempre na mesma mesa.
Já que José e os Reinisch compartilhavam fraternalmente os proventos da terra, Francisco decidiu compartilhar o trabalho igualmente. Habituou-se a despertar de madrugada para ajudar na ordenha das vacas. Em Sorocaba não lidara com gado, custou a aprender o processo, e no início atrapalhava mais do que ajudava. Admirou que os bovinos, tão mais fortes, acatavam servis a sujeição ao homem; teve pena dos filhotes ficarem apartados das mães, e servirem para atraí-las ao curral pela manhã e ludibriá-las durante a ordenha. Logo idealizou outro disparate. Queria que os animais pastassem livremente pelo campo com suas crias, e fosse abolido o curral da ordenha. Loucura.
Loucura? Não. Você está é com preguiça de tirar leite toda manhã, argumentou Harumi.
Desta feita o “meia-garrafa” interveio, por que interessava-lhe continuar o retiro do leite: “Francisco, veja bem... olha lá que isso vai dar pra trás; o café só vem uma vez por ano e tem os seus riscos, além de ser pouco. Já o leite é todo dia e acho que sem ele nós não agüentamos”.
Até a menina Fernanda ajudou a dissuadir o padrasto da sandice elucidando que quando comemos carne somos coniventes com o assassinato dos animais, o que obviamente é pior que tirar-lhes o leite.
Francisco conformou-se em prosseguir na ordenha. Todavia, devido às palavras de Fernanda, nunca mais pôs carne na boca.
Quanto à vida de casado propriamente dita, Francisco descobriu que ter mulher era bom. Os meses passaram, e em breve nasceu o primeiro filho ao qual Francisco, lembrando o comandante do navio que o levara a Itália, deu o nome de Dario.
.

terça-feira, 29 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 7

CAPÍTULO VII
De como Francisco
reencontra Harumi através
da filha dela.

Vê-se pelos últimos capítulos que os dois amigos de infância, sem saber, voltam a se aproximar; Harumi residindo em Nhandeara; e Francisco indo para lá.
Nuvens cinzentas e espessas varriam o céu paulista neste verão de 1950 quando o trem parou na estação de São José do Rio Preto. A viagem desde a capital fôra cansativa e demorada num banco duro de madeira, mas Francisco, no auge da vitalidade, assim que desceu bastou esticar as pernas para recobrar o entusiasmo e continuar o caminho, agora de ônibus. O destino era Ilha Solteira, todavia era um ônibus chamado “Parador”, pois parava em Mirassol, Monte Aprazível, e outras cidades menores. Nisso que tanto pára, a chuva anunciada desabou torrencialmente sobre a estrada de terra. O ônibus atolou; os passageiros tiveram que descer para empurrá-lo e Francisco por conseguinte enfiou a calça na lama, de modo que chegou num estado lastimável em Nhandeara. Porém, a disciplina religiosa o havia habilitado a ignorar automaticamente esse tipo de contragostos.
Só existiam duas igrejas na cidade: a dos protestantes (dita dos crentes) em Vila Aparecida, e a dos católicos no centro. Todas as vias públicas eram de terra, salvo uma rua principal, de pedras, onde ficava a prefeitura. Nesta rua desceu Francisco dando de cara com a praça central e a igreja matriz, para onde rumou. Encontrou-a vazia; apenas um mendigo esmolava à porta: “Senhor, uma esmola pelo amor de Deus”. Amor de Deus eu já tenho, mas, diga-me: onde mora o frei Anselmo? Naquela casa ali da esquina. Agradecido, tome estes dinheiros. Obrigado.
Na varanda estreita da casa paroquial, Francisco encontrou o velho frei Anselmo estendido numa rede a fazer a sesta dormindo. Morbidamente dormindo; a boca semi-aberta, olhos fechados parecendo estarem abertos, estático. Realmente ele precisava de ajuda, passava da hora de se aposentar. Francisco sentou na mureta frontal, pôs a mala de lado, e permaneceu em silêncio, na chuva, esperando o despertar do velho.
Um relâmpago riscou a celeste abóbada. Com o estrondo que se seguiu, Francisco sobressaltou-se, e frei Anselmo caiu da rede: “Diabos, que merda!”. Vejam só!, é assim que fala um homem de fé?, admirou-se Francisco, eu sou o padre que o senhor requisitou. Sabe como é... o que os olhos não vêem e os ouvidos não escutam, os fiéis não sentem; a gente aprende isso, note que eu já estou nessa profissão há meio século. Meu nome é Francisco Reinisch. Sim, sim, tenho planos para você, meu jovem; nada de muito pesado, apenas celebrar as missas da manhã (pois custa-me acordar cedo) e organizar um grupo de catequese para crianças.
Francisco foi convidado a entrar na modesta casa paroquial, lavou sua roupa, e depois de tomar banho descansou. No jantar, frei Anselmo contou como ajudara a fundar a cidade, explicou a origem indígena do nome Nhandeara que quer dizer “nosso paraíso”, e justificou ainda não ter um grupo de catequese pelo fato de a maioria da população viver na roça. Esta justificativa não convenceu Francisco que sugeriu que ao final das missas os pais fossem convocados a mandar seus filhos à catequese. As aulas seriam nos finais de semana.
No domingo, terminada a missa vespertina, frei Anselmo deu a notícia. Harumi estava presente.
Sábado da semana seguinte, entre as crianças que se apresentaram para a primeira aula, chamava a atenção uma menina com sutis feições orientais: haveria de ser mestiça. Francisco perguntou seu nome e o de seus pais. Chamava-se Fernanda Gogliano, filha de Harumi e do falecido Oswaldo. E sua avó? Acho que o nome dela era Fumiko. Sem sombra de dúvida, pensou Francisco, encontrei minha tão querida amiga de infância! Deu a aula com olhos só para a pequena Fernanda; ao final, despediu os outros e convidou-a para merendar. Enquanto ela comia, ele escrevia num papel, o qual pediu para Fernanda entregar à mãe. Constou no papel apenas o seguinte soneto:


Calma dormes, menina do teu pai.
Eu de tudo cuido, velo e protejo;
E enquanto o dia clareando vai,
Antes que despertes te dou um beijo.

Dou-te, com amor, um beijo na testa
Sabendo-te pura e angelical.
E fitando-te vou-me; o que me resta
É aceitar da despedida o mal.

Nos unimos com laços de amizade.
Eu, procurando tudo que te agrade,
Do que me agradava já nem mais sei.

Mas um dia tu ainda chorarás
Por faltar-te o pai que nunca terás;
E eu por ti, filha que nunca terei.

Francisco Reinisch


Lendo o poema e o nome do autor, Harumi chorou. Domingo ela acompanhou a filha à cidade. Logo que entrou na sacristia não reconheceu o amigo, mas Francisco a abraçou comovido. Harumi, o que é o fadário da existência... veja, você já é mamãe, e que filhinha linda! Você virou padre? Muita coisa aconteceu desde nossa separação, nem imagina, até pra guerra eu fui.
Conversaram demoradamente. O antigo afeto renascia, mas com ele um novo sentimento despertava.

--- continua...
.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 6

CAPÍTULO VI
Do que se sucedeu com
Harumi desde que foi levada pela família
para longe de Francisco.

Por onde andará e como estará Harumi, a amiga de infância de Francisco? O leitor deve estar curioso em saber o que foi feito de tão importante personagem na vida do nosso herói.
Advirto que ela não prosseguiu nos estudos. Em breve já era uma moça crescida. Aprendeu a lidar com os afazeres domésticos, e só aguardava um bom partido para se casar.
O senhor Hideki e seu amigo italiano tiveram sucesso com o negócio da sorveteria que abriram na cidade de São José do Rio Preto, região noroeste de São Paulo. Não havia concorrência, e a novidade virou moda, agradando crianças, velhos, cavalheiros e damas. Os lucros aumentavam a cada dia. Mas, quem pensa que com a abastança financeira a família de Harumi tinha tudo para ser feliz, engana-se.
O italiano, cujo nome, por questão de discrição, é melhor permanecer oculto, desandou a esbanjar dinheiro em festas, roupas finas e supérfluos. A princípio presenteava freqüentemente com jóias sua esposa, mas só a princípio. Logo tornou-se omisso para com a mulher, inclusive pernoitando fora de casa. Certa noite, desconfiada, ela decidiu seguir o marido: se fosse apenas um passeio à casa das mulheres públicas ela poderia até perdoar, contudo o marido tinha uma amante! Não fez escândalo; calculou friamente sua vingança; pagaria com a mesma moeda. Empreendeu seduzir o empregado do marido, o que acreditou ser o máximo de perfídia. Ora, ela era uma mulher madura, mas não tivera filhos, e permanecia deveras atraente. Hideki, que não era muito ajuizado, foi presa fácil para a mulher do italiano, quedando-se por ela loucamente apaixonado. E os dois fugiram, sumindo nos confins do estado e, quiçá, do país.
Agiu mal o senhor Hideki, e pior ainda a esposa do italiano guiada pelo ignóbil impulso da vingança. Quando Fumiko soube da fuga, nem pôde reagir, pasmada que estava; passou o dia em total silêncio; de madrugada fez-se pendurar pelo pescoço na extremidade duma corda. Harumi foi quem primeiro a encontrou morta de manhã, oscilando no quintal entre uma árvore e a casa.
O italiano pouco se importou com o ocorrido. Aceitou que Harumi fosse ocupar o lugar de Hideki na sorveteria e, para o lugar da esposa, trouxe para casa sua amante, uma viúva jovem e pródiga.
Este último predicativo da viúva levou o italiano a ausentar-se mais e mais dos negócios, volta e meia viajava a passeio à capital, até contrair dívidas, deixando todo trabalho sob a responsabilidade da jovem Harumi. Vislumbrando a falência iminente, sem vacilar ela astutamente agarra o primeiro bom pretendente e casa-se com ele, indo morar numa fazenda do município de Nhandeara.
Quase nada se sabe do marido, Oswaldo Gogliano; morreu precocemente deixando Harumi grávida. Nasceu uma menina, e os anos foram passando...

--- continua amanhã???
.

domingo, 27 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 5


CAPÍTULO V
De como Francisco é ordenado
padre, sendo designado a uma paróquia no noroeste
do estado, na cidade de Nhandeara.



Logo que chegou ao seminário, Francisco sentiu que algo estranho pairava no ambiente. Foi recebido pelo professor de teologia, frei Lorenzo, que pareceu atencioso em demasia, com um sorriso artificial. Sendo italiano, o frei invocou notícias da terra natal; Francisco lhas deu, falou da campanha militar, podendo finalmente desabafar suas opiniões sobre essa loucura de louvar a valentia. Seus passos os levaram ao jardim interno, onde Francisco certificou-se da impressão inicial, algo ia mau: os canteiros abandonados, as hortaliças murchas, flores secas sufocadas em meio a pragas... Abra o jogo, frei Lorenzo, que há? É Dom Clemente, disse constipado o frei, ele morreu; eu serei o novo reitor. E as regras permanecem as mesmas? Não há porquê mudar. Então, uma vez por semana terei que jejuar.
Aí, frei Lorenzo elucidou a razão do jejum. A disciplina, quando nos priva de algo que desejamos e podemos fazer, serve para contermos nossos desejos quando não é lícito ou possível de serem satisfeitos. A partir deste esclarecimento, Francisco suportou melhor sua gula. Nada ele impunha a alguém, mas nenhuma imposição ele aceitava sem a devida plausibilidade.
As aulas começaram, e tudo voltou à rotina tranqüila da vida religiosa; tranqüilidade que Francisco nunca deixou que se transformasse em monotonia, aprontando discretamente brincadeiras à moda de sua infância. Como da vez em que passou o sal no lugar do açúcar a um colega, que carecia do paladar devido a uma queda, para que o colega o misturasse ao próprio café. Ora, deve ser horrível beber café com sal, mas o outro bebeu com toda a naturalidade, dando ensejo a muita gozação.
Controvertidamente Francisco cativava a amizade dos colegas pelas diabruras que aprontava, e despertava nos professores simpatia pelo esmero com que mostrava interesse pelos estudos. Depois de dois anos, era a figura mais popular do seminário. Por essa época, os colégios católicos da cidade pediram a frei Lorenzo que seus alunos e professores passassem a editar um jornal destinado a entreter e orientar os alunos daqueles colégios. O reitor ficou sendo o diretor do jornal, e Francisco assumiu o cargo de cronista humorístico. A finalidade maior do jornal era, na verdade, doutrinar os jovens contra as outras religiões ridicularizando-as, ou mesmo mostrando sua perversidade. Francisco limitava-se a inventar anedotas mormente sem fundo religioso, mas às vezes brincando com judeus e protestantes. Uma vez, escreveu sobre um rabino que sempre pregava na sinagoga para os judeus não comerem porco; mas, cedendo à tentação, o rabino foi a um restaurante e pediu carne de porco; serviram-lhe um belo leitão assado com uma maçã na boca; nisso, uma judiazinha o reconhece e diz: “Rabino, o senhor comendo porco?”, ao que ele responde: “É que esse restaurante deve ser muito sofisticado, pois eu pedi uma maçã e olha como ela veio!”.
O jornal atingiu certa popularidade, tanto que serviu para propaganda do serviço militar. Um estudante, filho dum oficial do Exército, levou o periódico para casa; seu pai, que era responsável pelo recrutamento de soldados, viu naquilo um ótimo meio de fazer sua propaganda, e foi falar com o reitor do seminário. Frei Lorenzo lembrou que Francisco havia participado da FEB, solicitando-lhe uma crônica enaltecendo a campanha militar. Não foi difícil. Mas, quando a crônica veio a ser publicada, Francisco atinou que pela primeira vez na vida cometera hipocrisia. Como falar bem do que achava mal? Consolou-se pensando que ele também fôra atraído por uma propaganda do serviço militar, e que cada um que passasse por ele que tirasse sua própria opinião; as lições de vida são melhor aprendidas na prática.
Nos estudos de latim, um seminarista tinha especial dificuldade. Era um filho de japonês chamado Hideo que contava com a paciência de Francisco para ajudá-lo. Ao contrário de Francisco, Hideo ingressou no seminário menos por vocação do que por necessidade. No tempo da guerra, o exército entrou a cavalo (a cavalo!) em sua casa, destruíndo a mobília e levando preso seu pai; a família foi obrigada a fechar um pequeno comércio que possuía e a Hideo, sendo-lhe negado emprego em toda parte, restou como último recurso conseguir uma vaga no seminário. Terminada a guerra, ele decidiu sair, mas foi ficando por gratidão. Tomando conhecimento disto, Francisco sugeriu o mesmo que Dom Clemente havia-lhe sugerido quando da quebra do jejum, ou seja, conhecer mais o mundo antes de firmar propósito de ser padre.
Numa tarde de folga, os dois saíram juntos a pretexto de visitar a igreja de São Bento, famosa por sua beleza. Nem passaram perto dela, seguindo de bonde rumo a Avenida Paulista que, naquela época, ainda ostentava muitos palacetes dos barões do café. Desceram à altura duma escola de onde saía um grupo de moças. Francisco ia falar algo quando deu-se conta que Hideo só enxergava as moças; seguiram-nas até certo ponto em que uma delas apartou-se do grupo, este entrou numa rua secundária, mas aquela moça rumou para o parque do Trianon, Hideo atrás dela esquecendo Francisco que o acompanhava. Era ainda uma menina de seus quatorze anos, olhar sério, cabelo castanho e liso caído nos ombros, esbelta, e da pele bronzeada. Ao que ela entrou no Trianon, Francisco perguntou se o amigo continuaria a perseguição. Tenho que conhecer essa menina, respondeu Hideo com olhar perdido. Acercaram-se do banco onde ela se sentara, e por uns instantes ficaram inertes; o silêncio só foi quebrado, com toda delicadeza, por iniciativa dela, perguntando se os rapazes estavam perdidos. Hideo teve ímpeto de dizer que sim, estava perdido de amor por ela. Francisco observou: “Você fala com um sotaque diferente. É de São Paulo?”. Não, sou de Bucaramanga, na Colômbia. O que faz, então, no Brasil, emendou Hideo. Minha mãe separou-se do meu pai e casou com um brasileiro. Bom, disse Francisco, temos que ir por que já escurece; prazer em conhecer... qual o seu nome? María Carolina. E voltaram ao seminário; Hideo contrariado, puxado pelo braço.
A partir daí, sempre que podia, Hideo escapava do seminário para encontrar María Carolina à saída da escola. Tentou aprender espanhol lendo El Ingenioso Hidalgo Don Quijote De La Mancha; quanto ao latim, nem pediu mais a ajuda do amigo, esquecendo por completo de estudá-lo. Um dia, sumiu do seminário. Francisco nunca mais soube dele. Deve ter cedido aos encantos da colombiana, mistura de espanhola com índia dos Andes: artigo que no mundo há sem igual.
O periódico em que Francisco contribuía obviamente tinha um nome, chamava-se FRATERNIDADE. Depois de algumas edições, lendo o que era publicado pelos professores e colegas, Francisco viu que havia uma nítida incongruência entre fraternidade e o que era publicado; as matérias, em vez de incentivar a prática da virtude cristã, atacavam direta e gratuitamente qualquer outra religião que não fosse a católica. Assim, na próxima edição do jornal, no lugar de sua crônica humorística, ele publicou o seguinte soneto, intitulado Hipocrisia:


O que penso e não falo é o que mais me empobrece.
Tantas coisas perdi tão somente por isso...
E o que falo e não penso é o que mais me entristece.
Então a vida perde de todo seu viço.

O ser humano age inconscientemente
Contra o que deve, mas qual deve parecer.
Pois ele sem vergonha alguma muito mente
A si mesmo e aos outros , e assim vive a crer.

E é difícil de escapar desse costume
Quase unânime, mas o qual ninguém assume
Pelo medo ancestral da discriminação.

De meu canto contemplo essa vil procissão,
Denunciando nos versos da poesia
A mais comum ação que é a hipocrisia.


Depois dessa derradeira contribuição, ele pediu licença para deixar o jornal. Frei Lorenzo não compreendeu, como não havia compreendido a razão do poema grave no lugar do humor, mas aceitou a resolução.
Assim como Hideo abandonou o seminário por causa da colombiana, muitos outros foram abandonando-o por motivos vários que se resumiam na simples falta de vocação, exceção feita aos poucos que saíam devido a carência de recursos intelectuais. Da turma de Francisco, por exemplo, nem a metade chegaria à ordenação. A propósito, os anos passavam e se aproximava a hora da formatura; Francisco nesse tempo todo não visitara o pai nem escrevera carta. Pode parecer estranho, mas ocorre que se ele permanecia em São Paulo é porque os afazeres o induziam a olvidar a saudade. Sentia-se muito bem no ambiente religioso, sorvia dos livros e aulas a doce ambrosia do saber, e não poderia supor que outrem sofresse com esta situação. Até que recebeu a visita do padre Silas.
Padre, o senhor por aqui?!, exclamou Francisco notando com dissimulado desgosto a presença da senilidade na face de Silas. Minha criança, você já é um homem!, admirou-se o padre. E continuou: “Por que você deixou de nos visitar nesse tempo todo? O senhor Reinisch...”. Que tem meu pai? A solidão, o abandono, desânimo da vida, creio que foi isso: não está mais entre nós.
Silas, antes de voltar a Sorocaba, ainda insistiu que Francisco fosse ver o túmulo do pai, mas o seminarista não achou a idéia lógica, afinal: o que se pode fazer por um morto? Seu sofrimento de estar órfão pela segunda vez só se fez aparente no fim da semana quando teve que rezar uma missa à guisa de legitimar sua formatura; no sermão lembrou como os homens são todos servos inúteis de Deus, e foi comovente ao mostrar a insignificância das criaturas perante o Criador que mesmo assim as ama, dando o exemplo duma planta que é regada por um homem, mas não tem olhos para ver o homem, e da mesma forma o homem é cuidado por Deus sem que o veja, porque Deus sabe do que o ser humano necessita mesmo antes que este peça.
Enfim, Francisco foi ordenado padre.
Quase na fronteira com o estado de Mato Grosso do Sul, uma paróquia dirigida por um tal de frei Anselmo requisitou outro religioso para auxiliá-lo. E lá foi Francisco para a cidade de Nhandeara, noroeste de São Paulo.
.

sábado, 26 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 4




CAPÍTULO IV
Do regresso de Francisco Reinisch
ao Brasil passando pela cidade de Nápoles;
e sua volta ao seminário.


Bem, é chegada a hora de nosso herói volver à pátria amada. Agora como herói de guerra, apesar de que ele não se sinta como tal, por ter sido “homem da retaguarda”. Mas, convenhamos, quem foi que em Camaiore atravessou sozinho a linha inimiga sem disparar sequer um tiro e capturou o coronel Wendt? Algum mérito deve ter o cabo Arruda do Regimento Sampaio na gloriosa campanha da Força Expedicionária Brasileira da Segunda Guerra Mundial. Sim, Francisco Reinisch padeceu demais tendo que suportar a solidão por estar alijado de suas afinidades espirituais; teve que enfrentar o inefável conflito de saber que fazia parte duma máquina homicida, e mais: combater os conterrâneos de seu próprio pai, homens em cujas veias pulsava um sangue que ele herdara. Herói de guerra sim!, e dessa maneira é que ele e seus companheiros serão saudados pela população napolitana. Enfim, acabou a guerra na Europa; agora resta esperar os derradeiros combates no Oceano Pacífico, e, com o lançamento de duas devastadoras bombas nucleares sobre seu território, a derrota do Japão.
Nápoles é inteira festa. As tropas aliadas desfilam sob aclamação geral pelas avenidas, passando inesquecivelmente pelo arco do triunfo de Castel Nuovo. Cidade antiga, estilos gótico e renascentista mesclados num cenário que parece ter sido idealizado cuidadosamente em harmonia. Francisco pôde vivenciar todo um clima de pura beleza que nem de longe ele imaginaria nas aulas de história universal no seminário. Era outra civilização, com sabedoria esculpida pelo tempo, maravilhosa... Nestas coisas divagou nosso brasileiro até o embarque de volta.
Talvez tenha comparado a América com um vinho fresco que ainda teria que envelhecer por muitos séculos até adquirir o sabor desejado. Ainda, porém, a civilização humana só colaborava para a deterioração do que havia de belo no Novo Mundo: a natureza.
Aquele sargento norte-americano que declarara a deserção de Francisco acabou ele próprio desertando ao fim da campanha, indo morar com sua amada naquela aldeia campesina da Apuânia. Nos registros oficiais seu nome consta entre as baixas, sendo que apenas seus parentes receberam jubilosos a notícia da sua sobrevivência através duma carta por ele escrita. Findo os combates, o sargento não respondeu à chamada e à noite caiu na estrada num carro roubado. Francisco, no acampamento olhando a Lua, presenciou este fato, compreendeu, e guardou segredo rindo-se na intimidade.
A propósito, no que diz respeito à namorada do sargento, na única vez que a viu, Francisco reparou num seu pequeno defeito físico, o qual consistia em subtrair-se-lhe os quatro dentes frontais da arcada dentária superior. Isso era patente, aguçando a sempre alerta curiosidade de Francisco, que arquitetou várias teorias para explicar a questão sem ter coragem de perguntar ao sargento a verdadeira causa; poderia desiludí-lo; e a ilusão, uma vez instalada, deve ser mantida; felizes os que cultivam até a morte suas ilusões. Após alguma reflexão, ele aprendeu que era preferível o silêncio às faláceas, e o esquecimento às dúvidas frívolas.
Vê-se que tanto na paz quanto na guerra Francisco assimilava lições de vida. Arrependeu-se de ter transgredido a disciplina do seminário; ele havia errado. Por outro lado, esse erro levou-o a conhecer a vida militar, que por sua vez levou-o a outro continente, no qual suas vivências vieram a ser proveitosas.
A viagem de volta transcorreu bem mais animada que a de ida; os soldados tinham a satisfatória intuição de que haviam feito história; cantavam agora com convicção as canções heróicas. Francisco cantou a Santa Lucia que havia lhe ensinado o ancião barbudo do bosque, foi vaiado, e desistiu de cantar até que chegasse ao Brasil.
Desembarcaram no Rio de Janeiro, recebendo os cumprimentos do presidente da república e desfilando pelo centro da cidade ovacionados pela população. Francisco voltou ao quartel em São Paulo, onde seu comandante insistiu para que ele seguisse carreira no Exército já que obtivera a promoção a cabo, mas ele tinha o firme propósito de ser padre, e desligou-se da corporação. Dirigiu-se ao seminário; encontrou Dom Clemente com a saúde muito debilitada, tossindo ao falar, e falando pouco. Foi readmitido como aluno; soube que as aulas começariam em um mês, e resolveu rever seu pai.
Ao chegar em Sorocaba, não deixou de visitar o Carlos, espanhol da sapataria, agradecendo a ele e sua esposa Maria por ter entregue a carta que enviara ao pai. Feito isto, foi para a fazenda onde encontrou o senhor Christian Reinisch a cortar lenha perto de casa, tinha ainda pleno vigor físico. Vendo o filho, precipitou-se em seus braços contraditoriamente o amaldiçoando a chamar-lhe de ingrato e desobediente. Então não atendeste ao meu rogo para desertar a qualquer custo?, querias deixar-me sozinho no mundo outra vez? Eu não soube disso, meu pai. Mas e a carta que te escrevi? Não chegou; ao menos não a tempo.
Fizeram as pazes. Conversaram tomando café; o pai parecia receoso em dar uma notícia ao filho; era o avô Ismael: morreu tocando cavaquinho de derrame cerebral; foi fulminante. A morte já não abalava Francisco, mais que natural era-lhe corriqueira. Sequer visitou o túmulo do avô. Esteve com padre Silas, e distraiu-se bastante nadando e pescando no córrego.
No mês seguinte, voltava à capital estadual.

--- vai comendo, Raimundinho; wird morgen fortgesetzt...
.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 3 - SEGUNDA PARTE



Francisco leu o relato; achou-o inverossímil, pois ainda não imaginava as atrocidades de que a guerra era capaz. Guardou o panfleto no bolso, e lá o esqueceu.
Nessa altura da guerra, forças britânicas e norte-americanas haviam se posicionado ao sul da Península Itálica aguardando a ajuda brasileira para o esforço conjunto na expulsão dos alemães de todo o país. O Brasil colaborara imprescindivelmente até então sediando bases militares em seu território, escoltando navios mercantes no Oceano Atlântico, e dando suporte logístico aos Aliados, em detrimento de sua população civil que sofria com racionamentos de comida.
Em Nápoles o 5° Exército norte-americano, sob comando do general Mark Clark, recebeu os brasileiros do general Mascarenhas fornecendo infraestrutura e equipamentos novos. Mascarenhas considerou oportuna uma adaptação de seus comandados ao novo equipamento, e a FEB deslocou-se para o acampamento de Vada, a 25 km da frente de batalha.
Chegando ao acampamento, Francisco escondeu por precaução seu sobrenome alemão, dando-se a alcunha de soldado Arruda do Regimento Sampaio. Isto não sem escrúpulo, pois é da crença popular que a arruda é planta que traz sorte. Os companheiros estavam cegos de patriotismo ufanista; só falavam em mostrar o valor brasileiro, escorraçar os alemães, destruir! destruir! Francisco sentiu dolorosa solidão mesmo entre tanta gente. A tristeza se devia ao fato de ele não ter com quem confidenciar suas impressões; onde padre Silas?, onde a remota e querida Harumi da aurora de sua vida, da sua infância querida “que os anos não trazem mais”?
Francisco definitivamente era inapto para a vida militar; sentia falta do seminário, queria ser padre sem nacionalidade, que barbaridade era a constante beligerância entre os povos... De qualquer maneira, ele esquecia estes pensamentos durante os treinamentos diários no esforço de ser um bom... não digo guerreiro, mas um bom homem. Aprendeu rudimentos do idioma inglês com um sargento norte-americano que o levou, um dia, a uma aldeia próxima onde o traquinas do sargento havia arrumado uma namorada italiana. Nosso brasileiro achou a situação estapafúrdia (namorar em plena guerra), mas o amor não tem explicação, não se explica sentimentos, explica-se só quando não existe, quando é um raciocínio vão e sem fundamento. Confuso, ele deixou o casal e foi conhecer a vila. Ao longe ele escutou melodias de acordeão as quais o levaram a se embrenhar num bosque afastado do povoado. Deparou-se com uma casinha de pedra com janelas de madeira carcomida e chaminé a fumegar; a música vinha dum galpão adjacente; lá dentro um ancião barbudo tocava o acordeão acompanhando uma jovem que cantava Guarda Che Belli Fiori.
Francisco imprudentemente postou-se à porta. A moça, vendo-o, soltou um grito levando a mão à boca; o velho, reparando no uniforme do forasteiro, estancou a música sentenciando: “È un tedesco!”. Francisco facilmente decifrou a frase proferida por semelhante que parecesse do português, e arriscou seu inscipiente italiano: “No, noi siamo brasiliani per fare Italia liberata”. Nenhum dos dois sabia onde ficava o Brasil, mas logo viram que aquele soldado, apesar de forte, era inofensivo; ademais, onde já se viu alemão mulato? Acharam o tipo interessante, ofertaram-lhe pão, vinho, e um queijo que ele desistiu de comer ao constatar que estava vivo: vermes afloravam dele.
A todas estas sobreveio a noite, o sargento despediu-se da namorada e quis saber do amigo brasileiro; revistou a aldeia inteira; não o encontrando, voltou a Vada e declarou ao major Alberto Silva a deserção do soldado. Por seu turno, Francisco afeiçoou-se dos novos conhecidos, permanecendo quase uma semana na casa completamente esquecido do dever militar e inebriado pelo aconchego do bosque. Aprendeu a cantar Santa Lucia, uma bela canção referente a Nápoles, e ensinou ao velho italiano a tocar o Hino Nacional Brasileiro que, malgrado o empenho, a moça sua filha não logrou decorar.
Foi então que o general Mascarenhas, junto com Mark Clark, determinou um derradeiro exercício-teste da FEB e do 5° Exército norte-americano para sentir firmeza na tropa antes de entrar em combate. Isso incluiu o uso de munição real e artilharia pesada. Ainda alvorecia quando um estrondo de canhão despertou Francisco no galpão onde passava as noites. Com o susto, lembrou imediatamente da condição de soldado e correu a se apresentar em Vada. Tão logo apareceu, foi preso e conduzido ao major Alberto Silva, um homem calmo mas que não poupou aspereza ao repreender Francisco pela molecagem: “Hoje você fica na cadeia, seu safado! Mas na hora que a luta for pra valer, eu lhe coloco na linha de frente, visto? Pode se retirar”.
Os comandantes observaram o exercício-teste, ao final do qual convieram que os brasileiros estavam bem treinados. Um dia depois atacaram os nazistas em Camaiore. O soldado “Arruda” do Regimento Sampaio, na vanguarda, borrado de medo.
Marcha feito uma donzela, zombava um. O covarde quer a mamãe, dizia outro. Esta lembrança da mãe o fez esquecer o medo e quedar-se alheio às provocações dos companheiros; como seria estar morto?, será que agora ele estaria prestes a juntar-se à mãe e encontrar a resposta cabal? Francisco tinha esses momentos especulativos em que se ausentava da realidade. Seguiu marchando involuntariamente. Sua indiferença plácida calou a boca dos provocadores.
Logo avistaram as fortificações inimigas. O major Silva convocou um voluntário para espiar o inimigo mais de perto; disse: “Quem se voluntariar dê um passo à frente”. Todos deram um passo à ré, menos Francisco que estava na primeira fila e acabou sendo, involuntariamente, o voluntário. É assim que eu gosto, disse Silva com sarcasmo, olha se não é o Arruda, soldado corajoso! Pode ir, rápido! Francisco fez carreira. Quando ele estava a mais ou menos cem metros das fortificações a artilharia começou a funcionar: os alemães haviam descoberto a Força Expedicionária.
Francisco caiu no chão e prosseguiu agachado; os norte-americanos puseram seus canhões em ação enquanto a infantaria brasileira iniciava a ofensiva. O ataque deu-se lentamente devido à poderosa resistência alemã; curioso é que os homens que mais se gabavam da própria valentia no acampamento eram os que menos avançavam; este primeiro combate foi patético, todos insentivavam a todos mas ninguém avançava, a não ser o pobre-diabo do Francisco que seguia metodicamente seu destino hipnotizado pelo barulho ensurdecedor do teatro de guerra. Não usou a metralhadora, nem olhava para frente, rastejou dentro dum capim alto até bater com o capacete no muro da fortificação; três metros acima de sua cabeça um ninho de metralhadora atirava incessantemente. E agora, o que esses loucos querem que eu faça? Jogo uma granada no ninho? Posso matar alguém... Morrerei pela pátria, não matarei por ela. A que ponto cheguei! Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, seja feita a vossa vontade... Bum!, o ninho de metralhadora ia pelos ares. Francisco, aparvalhado, pensou: “Sangue de Cristo tem poder!”. Acima dele, uma bala de canhão acertara o alvo, cujo muro, breve, desmoronou quase soterrando Francisco que se esquivou e invadiu a fortificação.
Uma fina névoa de pó pairava no ar; ordens eram dadas em alemão, as quais nosso brasileiro entendia com perfeição; concluindo que um guarda estava sendo designado para tomar conta da brecha aberta, escondeu-se na escuridão de um túnel lateral de onde pôde ver o pavor do guarda a gastar munição desnecessariamente no intuito de rechaçar os brasileiros.
Em tempo, a munição do guarda acabou. Tão logo Francisco percebeu isto, saiu do túnel apontando-lhe a arma e dizendo em alemão: “Entre aqui e tire a roupa”. Depois, mandou-o correr para fora. Vestiu o uniforme estrangeiro, disfarsou a cor da pele com a poeira do chão, e empreendeu a busca ao oficial supremo da instalação. A artilharia norte-americana que havia ajudado, agora estava prejudicando ao causar explosões por onde Francisco cambaleava. Passando incógnito por dezenas de soldados, ele chega ao rés duma torre; lá está o oficial que ele procura. Senhor, senhor, desça aqui, é uma emergência!
Apreensivo, o oficial desce até Francisco, que o conduz à abertura do muro onde ele ordena que o outro jogue fora a pistola e deite no chão. Ele se desfaz do uniforme alheio vestindo novamente o seu que deixara no lugar. Daí, retorna ao lado brasileiro conduzindo o oficial. Naquele dia não foi possível conquistar Camaiore, mas Francisco é promovido a cabo pela captura do coronel Wendt, e aprende a dirigir guiando o carro do general Mascarenhas na ligação entre a linha de frente e o acampamento de Vada; não terá mais que lidar com armas, e o homicídio está definitivamente alijado de sua vida.
Na tarde do dia seguinte, depois de intensa batalha, os alemães, na falta do comandante Wendt, renderam-se. Camaiore era ocupada pelo exército norte-americano. A Força Expedicionária Brasileira continuou rumo a Monte Prano, tomado com facilidade.
Foi então a tropa transferida para o vizinho vale do Serchio, onde ocupou Barga e outras localidades. Lançado contra o importante centro de comunicações de Castelnuovo di Garfagnana, o destacamento, insuficientemente municiado, sem reservas, e em condições de flagrante inferioridade numérica, sofreu seu primeiro revés, tendo de retrair-se ante forte contra-ataque alemão.
Um dia, conduzindo a Barga os generais Mascarenhas e Mark Clark, Francisco é indagado por eles acerca de quais artifícios se valera para capturar o coronel Wendt. É que, além do português, eu falo japonês e alemão, respondeu ele mordendo a língua imediatamente, arrependido da revelação comprometedora. Contudo, a situação foi amenizada com um gracejo de Mark Clark: “Falando estas línguas, meu filho, tu deverias estar do outro lado da guerra, rá rá rá!”. Coisas do Brasil, emendou Mascarenhas.
Chegados a Barga, é organizado um esquema defensivo, durante o qual a divisão brasileira atuou no vale do Arno; no período sobressaem os quatro ataques infrutíferos a Monte Castelo, realizados os dois primeiros por forças norte-americanas reforçadas por elementos brasileiros, e os dois últimos exclusivamente por tropas brasileiras. Nessa segunda fase das operações, o comando aproveitou a estabilização da frente para aperfeiçoar o preparo dos soldados. Tal medida deu excelentes frutos na campanha ofensiva do Regimento Sampaio, em fevereiro de 1945, quando a FEB conseguiu dominar as posições de Monte Castelo, brilhante vitória logo seguida do duro combate de La Serra. Dias depois, a divisão brasileira obtinha nova vitória com a tomada de Castelnuovo di Vergato.
Com o sucesso, os ânimos ficaram confiantes em demasia, os sobreviventes esqueciam dos companheiros mortos, e a estes últimos é que se devia a sobrevivência dos restantes, pois há muita covardia na guerra, os da retaguarda não se expõe ao perigo e são os que serão recebidos como heróis. Francisco sentia culpa por isso, mas sentiria mais culpa se tivesse que matar para não morrer. Então, numa noite, arranjou lápis e papel, e registrou sua situação na guerra através do seguinte soneto:


A servir no grande forte,
Fui bravo, valente, e vil!
Da morte não tive a sorte
De morrer pelo Brasil.

Lutei pela pátria amada
Da janela do arsenal;
Fui homem da retaguarda,
Soldado de manual.

À guerra foi meu destino
Fazer guerra qual menino;
Fui herói só para mim.

Minha honra foi a dos hinos;
Estão noutros meus feridos;
Mal-querido foi meu fim.


O original deste poema foi encontrado acidentalmente muitos anos depois por uma professora universitária, que pesquisava história medieval no interior da Itália.
Passado pouco mais de um mês, iniciava-se a “Ofensiva de Primavera” com outro triunfo brasileiro: o ataque e conquista da vila de Montese, cuja conservação custou dias de encarniçada luta por conta da formidável gana alemã. Aproximava-se o fim da campanha na Itália, como nas outras frentes de batalha na Europa. Após a tomada de Zocca e a ocupação de Vignola, a FEB empenhou-se na perseguição das forças alemãs derrotadas e em desordem, vencendo-as ainda em Collecchio e cercando parte delas em Fornovo di Taro, onde a 148ª Divisão de Infantaria alemã e os remanescentes da 90ª Divisão Blindada, bem como os da Divisão Bersaglieri italiana, se renderam incondicionalmente aos brasileiros. Estava terminada a campanha.

--- continua amanhã neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-blogue, pelo mesmo bat-punheta...
.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 3 - primeira parte








CAPÍTULO III
De como Francisco sai do seminário,
ingressa na vida militar e se vê metido
na Segunda Guerra Mundial.




Dom Clemente, à semelhança do engenhoso cientista russo Pavlov, tinha por passa-tempo predileto o cultivo da jardinagem; daí o jardim interno do seminário, apesar de relativamente grande, possuir requintes de meticuloso esplendor, sendo unânime a opinião que o elevava à categoria de maravilha do mundo para quem o conheceu. Colunas de mármore, no estilo barroco ornadas, o limitavam formando um círculo dentro do qual outros círculos menores eram repletos de flores de várias espécies, grama, e hortaliças destinadas a um fim mais pragmático. Entre os círculos, pedrinhas miúdas e multicolores qual mosaico formavam o chão do passeio. Tudo isso laureado por uma cascata letárgica que descia do rés da capela sita no segundo andar.
Pois o reitor lá se encontrava limpando um pedaço de grama quando Francisco foi ter com ele. Confessado o delito, Dom Clemente pôde revelar sua extrema tolerância. Em vez de repreender seu jovem pupilo, sujeriu-lhe passar algum tempo afastado do seminário trabalhando na grande cidade afim de ampliar sua visão do mundo e decidir se realmente possuía vocação para a vida religiosa. Na manhã seguinte, Francisco arrumou a mala, e saiu procurando emprego e moradia.
Perambulando pelas cercanias do Largo da Sé, ele lê os cartazes fixados na ante-câmara da catedral, num dos quais toma conhecimento que está na idade de cumprir o serviço militar obrigatório; prontamente segue de bonde ao endereço indicado, e alista-se no 7° Batalhão de Infantaria, onde já consegue alojamento. No quartel Francisco aprende a jogar Futebol, o jogo inglês que chegara no início do século e que o Brasil adotou como esporte nacional. Disseram-lhe que isso é que era esporte de homem, e não as brincadeiras a que ele estava acostumado na fazenda. Tinha pouco reflexo para jogar no gol, e nenhuma habilidade para ser atacante; portanto, jogava invariavelmente como defensor, sendo difícil um adversário passar por ele com a bola devido a sua corpulência avantajada.
A rotina quotidiana é de descontração e exercício físico, mas apenas por pouco tempo: em duas semanas ordens superiores transferem os recrutas para o Regimento Sampaio, que segue ao Rio de Janeiro dando início a um treinamento intensivo com armas de fogo e noções de sobrevivência com recursos precários. É a convocação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Até então a arma mais poderosa com que Francisco tivera contato havia sido o estilingue, ou seja, uma forquilha em cujas pontas são amarradas as extremidades dum elástico para arremeçar pedras à guisa de projéteis letais apenas para passarinhos. Mesmo assim, quando lhe entregaram um fuzil, não estranhou; só estranhou tomar ciência de que haveria de matar gente com aquilo, era uma máquina muito artificiosa e bonita para ser destinada a um fim tão atroz. Exercitou tiro ao alvo, foi fácil; em breve também desmontava, limpava, e montava o fuzil com agilidade. Francisco tinha a invejável qualidade de aceitar naturalmente o que a vida lhe apresentava.
Certa tarde, acomete-lhe a lembrança do pai. Desde que chegou à capital não soube mais dele nem deu notícias suas, mas agora era necessário por dura que fosse a verdade. Escreveu uma carta na qual avisava que incorporara-se ao Exército partindo para guerra, e pedia que a carta fosse entregue a seu pai, pois, como não tivesse endereço exato, endereçou-a desta forma:

Carlos Espanhol
Sapataria
Sorocaba -SP-

O sapateiro recebeu a missiva e pediu a Maria, sua esposa, que a levasse ao pai do remetente. Chocado com as palavras do filho, o senhor Reinisch escreve em resposta dizendo o quanto a outra guerra o fizera padecer, e insta veemente que o filho deserte a qualquer custo. A carta chega tarde demais...
Numa manhã nublada, o navio Riachuelo recebe no porto da então capital federal um contingente militar. Entre os soldados está Francisco Reinisch, que segue a Europa ainda incrédulo que deverá combater conterrâneos de seu pai, os alemães partidários do nazismo de Adolf Hitler.
Para a maioria esmagadora da soldadesca os dias no mar sucedem-se monotonamente, monotonia remediada com canções heróicas para elevar a moral. Francisco, porém, desde o embarque reparava no comandante do navio. Tinha o rosto bruto, cicatriz na testa, mas de uma convicção charmosa. Francisco soube que o apelido dele era Lobo do Mar, mas só quando do desembarque viu-lhe de passagem no uniforme : Capitão Dario. E devaneou: está aí um belo nome para meu filho... mas que filho?, eu vou ser padre!
Falando em padre, estava no navio também um tenente capelão cuja finalidade era prestar conforto religioso à tropa. Ele pregava que morrer em combate era um ato de heroísmo, e matar nesta situação era justo e necessário. Francisco achava onírica essa idéia; ele ignorava que num futuro próximo teria que escolher entre matar ou morrer. Um suposto serviço de propaganda, para instigar os ânimos contra o inimigo e pregar o desapego à vida, fez circular um panfleto com a pretenção de conter um relato verídico que dizia o seguinte:

“Testamento Marcial”

“Faz poucos dias... estou confuso, não sei dar precisão de tempo. Os alemães tinham chegado a Paris. Eu tive a oportunidade ou o dissabor de ver pessoalmente, ao longe, o senhor Adolf Hitler contemplando o Arco do Triunfo.
Pelas avenidas desfilavam carros de guerra, e soldados marchando de maneira estranha, dura, incisiva. Então, a banda começou a tocar; pela primeira vez na vida senti o poder da música sobre as emoções; sublimava-se e consagrava-se a mais sentida humilhação. Cada nota musical soava como um punhal a dilacerar meu coração. Flamejavam bandeiras com a suástica, e este símbolo nazista antes temido, agora passava a ser eternamente odiado.
Mas o orgulho da vitória, embora alheia, era tão convincente, através do som estridente dos metais, que por um instante eu também compartilhei de uma euforia irracional que acredito ter tomado posse de cada invasor alemão. Contradição das guerras, as quais tiram qualquer razão do homem. Logo tornei à realidade, abaixei o olhar, e cabisbaixo cambaleei sem rumo até cair a noite pelas ruas da grande urbe, outrora chamada “cidade luz”.
Achei-me quando estava já perdido, a guerra estava perdida, o mundo desabava, a França não existia mais. Apesar de tudo, nenhum espanto senti ao deparar-me com cidadãos aglomerados num botequim que, ao menos naquela ocasião, deveria estar fechado. Aí é que tudo deu-se a perder mesmo, maior asneira! Eu, que jamais consumo bebidas alcoólicas, deliberei firme propósito de encher a cara até desmaiar embriagado. É correto o ditado de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Não fiquei sabendo depois, não! Eu!, eu vi minha mulher, a mãe dos meus filhos abraçada a um oficial alemão; era a própria imagem da pátria sendo usurpada. Pela família e por toda uma nação, vinguei-me. Sem vacilo, vinguei-me doido, com ódio, na hora! Quebrei com desnecessária violência uma garrafa, segurando-a pelo gargalo. Com a ponta cortante de vidro rasguei de orelha a orelha a garganta do usurpador que, ainda sorrindo, levou as mãos ao corte incrédulo que alí era seu fim.
Por isso estou aqui, numa cela, aguardando ser fuzilado. Definitivamente irão me fuzilar; não entendi uma só palavra daquela língua bárbara, mas a lei marcial é fatal. O que mais podem roubar de mim? Já levaram o país, a nação, a mulher e a família, enfim, tudo de real valor.
Irão tirar de mim a vida? Eles pensam que sim. Eu penso que algo muito mais valioso, nesta contingência, ser-me-á dado: a morte! E a sorte esperada dos que têm fé.
Adeus, desgraça da existência!”
* * *

---segunda parte a continuar...

terça-feira, 22 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 2


ilustração: "o mulato"
Cândido Portinari






CAPÍTULO II
De como Francisco Reinisch passou sua
infância com a amizade de Harumi; acabou
órfão de mãe, sendo encaminhado pelo padre Silas
à vida religiosa; e o que aprontou então.


Não houve nada de muito interessante nos primeiros anos da infância de Francisco digno de aqui ser relatado, na medida em que este período de sua vida pouco divergiu da dos demais meninos no meio rural; senão que, quando olhava seu pai, falava em alemão e se imaginava com feições de branco; em contra partida, quando brincava com Harumi, falava japonês e iludia-se que também o era; e, quando com sua mãe, inconscientemente enxergava a si próprio qual autêntico negro. Isso até o dia em que conheceu um espelho, e viu que era mulato.
Vamos encontrá-lo agora aos seis anos de idade descobrindo e questionando a morte.
Foi numa manhã. O pai tentava colocar o cabo numa enxada; Francisco o observava atentamente trepado numa jabuticabeira. A mãe, grávida do segundo filho, então começou a gritar dentro de casa. Devo esclarecer que ainda moravam na mesma casa o casal japonês e sua filha Harumi, agora com sete anos. Hideki estava doente na cama aos cuidados da esposa. Fumiko, ouvindo os gritos de Luiza, saiu do quarto e a encontrou caída na cozinha: a criança estava nascendo. Não chegou a nascer. Houve complicação no parto, Fumiko foi chamar a parteira enquanto Francisco e o pai presenciaram a dolorosa agonia de Luiza.
À noite velaram o corpo, e na manhã seguinte saiu o enterro sob o comando do padre Silas rumo ao cemitério municipal. No caminho, andando ao lado de Harumi, a ela perguntou Francisco o que acontecia a sua mãe. A amiguinha falou com ademanes divertidos que dona Luiza iria para baixo da terra dormir para sempre. Por que para sempre?, redargüiu Francisco. Porque sua mãe morreu. Francisco correu ao pai a lhe perguntar se a mãe dormia para sempre, ao que o senhor Reinisch precipitou a derramar lágrima por lágrima recordando em silêncio contemplativo a morte da própria mãe na longínqua Celle. Oportunamente interveio o grave padre Silas sentenciando: “Dona Luiza está com Deus, e aguarda o dia em que Jesus Cristo virá ressuscitar os mortos para levar os que merecerem ao paraíso”.
A explicação do padre pareceu fantasiosa. Quem seria Deus? Padre Silas disse que Deus era o criador de tudo, era onipresente, onisciente e onipotente. Aí é que Francisco não acreditou mesmo. Será que Deus, sendo tudo aquilo, poderia criar uma porta por onde Ele mesmo não pudesse passar? Não havia Deus, a mãe ia para baixo da terra. E tornou-se ateu.
Ao que parece, a morte da mãe pouco afetou Francisco, ainda que o pai mudou o relacionamento com o filho: ora exagerando nos agrados, ora tratando-o com demasiada severidade. Passado o dia do enterro, Francisco intensificou sua amizade com a extrovertida e engraçada Harumi; ela inventava canções e brincadeiras; ele aprendia, e com o tempo ingressou no mundo da travessura passando a ser o líder das bagunças na escola para terror da professora Fumiko, que agora era mais ou menos responsável por ele em casa também.
Um dia, no pátio da escola, em frente a um arbusto de pimenta, Francisco junto com a Harumi imitava com gestos burlescos o esforço sobre-humano de dona Fumiko em ensinar-lhes durante a aula o Hino Nacional Brasileiro; as outras crianças gargalhavam. Nisso, ele reparou na figura meditabunda de um negrinho, neto do velho Ismael e que vinha a ser seu primo. Parou a brincadeira. O que tens?, perguntou ao primo. Eu queria ser branco igual ao senhor Reinisch, balbuciou o negrinho. Francisco levou a mão ao queixo, parou por um instante, enfim anunciou triunfal: “É pra já! Tu deverás tomar banho quatro vezes por dia durante uma semana esfregando o corpo inteiro com uma pedra”. O primo agradeceu efusivamente a receita. Mas no dia seguinte apareceu todo ralado para Francisco: “Estou ardendo todo, e creio que nunca ficarei branco assim...”. Então o jeito é beberes bastante leite, disse Francisco. Aos que ignoram os efeitos maléficos do consumo excessivo de leite, advirto que um deles não é mudar a cor das pessoas (apesar que dê a impressão momentânea disso), e um outro é motivar fulminante diarréia. Disto sofreu o negrinho durante os dias em que obedeceu a orientação do primo, ao cabo dos quais veio se queixar: “Está insuportável... vou parar de beber tanto leite, Francisco”. Por quê? Porque estamos em plena aula, e eu estou todo cagado... Bom, o último recurso é passar pimenta no cu. Mas, no cu? É! Vai doer? Que nada..., tem gente que faz coisa muito pior com o pobrezinho, e ainda gosta.
Chegada a hora do recreio, os dois foram ao arbusto de pimenta do pátio. Num instante o negrinho saía lá de trás exclamando desesperado por socorro a correr sem rumo até se atirar no córrego. Francisco acudiu escarnecendo: “É para deixares de ser tonto!”. Harumi abriu um sorriso cúmplice. Ela é que dera a idéia da pimenta para o caso do primo de Francisco insistir no propósito de tornar-se branco.
Francisco e Harumi formavam uma dupla inseparável. Cresciam juntos, desvelavam o estreito mundo infantil, tagarelavam, completavam-se, cada um era o irmão que o outro nunca teria de verdade. Francisco adotou dona Fumiko como mãe, e Harumi, por sua vez, adotou Ismael Marcelino como avô, pois os pais do senhor Hideki e de sua esposa haviam ficado no Japão. Vovô Ismael alegrava os netos cantando com sua voz forte e acompanhando-se ao cavaquinho. Dos vários ritmos, agradava sobre modo a Harumi o Samba; ela sempre pedia para Ismael cantar a música “Com Que Roupa?”, do compositor Noel Rosa, maior sucesso do carnaval de 1930. Francisco era indiferente à música, mas comparecia aos saraus em casa do avô por aprazer-lhe a figura soberana do velho, o timbre nítido da voz, as brincadeiras com os primos, mas principalmente os doces que a avó preparava para essas ocasiões (ele tornara-se um belo glutão). Ora, o senhor Christian Reinisch, sendo grande amigo do sogro, nunca deixava de comparecer, empenhado em propiciar ao filho uma vida feliz, na medida do possível, sem a presença da mãe. Porém, este esforçado pai equivocava-se; quando Francisco comia exageradamente os doces da avó, o senhor Reinisch estimulava o filho passando-lhe a mão sobre a cabeça; no minuto seguinte podia estar a gritar e esbofeteá-lo na frente dos primos, resultando em sentida humilhação. Isto confundia Francisco, mas ele formulava que quando viesse a ter filhos não oscilaria de humor drasticamente para com eles.
Corriam os anos, a amizade entre Francisco e Harumi amadurecia, suas tagarelices cada vez mais freqüentemente adquiriam a forma de especulações acerca do mundo que observavam. Por que o céu é azul? Por que existem plantas e animais e as espécies são diferentes entre si? Deus existe? Francisco não acreditava que havia Deus. Harumi, um dia, propôs que Deus estaria no que o ser humano não pudesse explicar. A partir daí Francisco começou a freqüentar as aulas de catecismo do padre Silas que demonstrava sua fé através de suas boas obras. Numa das aulas, o simpático padre perguntou a Francisco se ele amava Deus. Não sei. Como não?, espantou-se o padre. Ele nunca me foi apresentado, respondeu o rapaz, que proseguiu nestes termos: “Quando eu tinha seis anos o senhor disse-me que Deus é onipotente; se isto é verdade, seria Deus capaz de criar uma porta por onde Deus não pudesse passar?”. Rapazinho, isso se chama sofisma, é coisa do Diabo. Quanto à existência de Deus, o Velho e o Novo Testamento dão evidências suficientes de que Deus existe, aqui tu vais aprender, uma evidência é a própria existência da matéria: do nada ela não veio; quem a criou?
Francisco tomou gosto pelas aulas de catecismo; convidou Harumi, que o acompanhou. Assim, os dois converteram-se ao cristianismo. Por essa época, ao senhor Hideki foi oferecida oportunidade de emprego numa sorveteria que um compadre italiano pretendia montar no noroeste do estado. Curioso pela empreitada, Hideki aceitou a oferta levando a família embora da fazenda. Francisco ganhava um quarto para si na casa, perdia Harumi. A perda do convívio da amiga afetou desfavoravelmente o ânimo do rapaz que passou de jovial para inexpressivo. Por agravante, o pai, há tempo, desde o falecimento de Luiza, mostrava-se cada vez mais inconstante no educar o filho; suas oscilações de humor repeliam a segurança que Francisco poderia encontrar nele. Restou encontrar refúgio sob a proteção do padre Silas, homem de boa-vontade, zeloso pela comunidade, e que particularmente via em Francisco pertinentes qualidades de caráter. Isso Silas foi descobrindo durante as aulas de catecismo nas quais o jovem mulato de sobrenome alemão destacava-se primando na agudeza de raciocínio metafísico e crescente aptidão religiosa. Silas deu-lhe alento suficiente para recobrar o gosto pela vida através do saber e da fé.
Francisco tornou-se um adolescente vigoroso, já ajudando o senhor Reinisch na roça. Deixou a escola quando esta não teve mais o que lhe ensinar; saiu alfabetizado em japonês e português (detalhe: cantando decor o Hino Nacional Brasileiro). Trabalhava com vontade sempre renovada pelo incentivo das freqüentes palestras com padre Silas, que num certo domingo, ao fim da missa, pediu aos fiéis que ajudassem com mão-de-obra na mais que necessária ampliação da capela. Entre os que descansaram carregando pedras nas horas livres figurou Francisco Reinisch.
Dois anos depois, quando finda a ampliação da capela, Francisco provara definitivamente seu valor mostrando sua fé através de sua boa ação. Padre Silas encorajou-o, pois, a cursar o seminário na arquidiocese da capital estadual, cidade de São Paulo. Francisco viu nisso uma excelente chance de continuar estudando. O senhor Reinisch hesitou ao receber a notícia da intenção do padre e também do filho; era o natural medo do inusitado; ele ignorava no que resultaria tal deliberação; mas ao fim concluiu que nada de ruim poderia ser, e consentiu. Francisco partiu no primeiro trem, depois de deferida sua requisição de ingresso junto à arquidiocese paulistana.
A fazenda onde morava Francisco era distante de Sorocaba, a escola e a capela também ficavam no meio rural, de modo que os colonos raramente iam à cidade. Imaginem como seria para um deles ter que guiar-se na capital. Portanto, Francisco quedou perplexo ao descer em São Paulo. Mesmo assim, acreditando que o único seminário existente lá fosse o que Silas lhe recomendara, ainda que de posse do endereço, disse para si: “Quem tem boca vai a Roma”, e simplesmente indagou ao primeiro transeunte onde era o seminário sem indicar o endereço. Resulta que atravessou a grande urbe bandeirante, caiu a noite, e ele encontrou-se perdido. Vagando por uma rua estreita, sentiu desalento e parou; olhou para o céu, pelo menos o céu era igual ao da roça, lá estava a mesma Lua e as estrelas intangíveis para sua distração...
Olhava para cima quando um cidadão tocou seu ombro a perguntar-lhe se sentia frio. Um pouco, disse Francisco intrigado pela pitoresca figura daquele notívago: o paletó rasgado, calça folgada, chapéu de feltro ensebado, a barba por fazer, e mal-cheiroso. Vejo pela tua mala que és um viajante, continuou o velho desvalido, tens onde passar a noite? Tenho, vou para o seminário. Qual deles, meu jovem? Por quê? É, parece que nunca vieste a São Paulo, seminários eu conheço no mínimo dois ou três. Sacando um papel do bolso, Francisco leu em voz alta o endereço do seminário. Era longe do bairro onde estavam; o desvalido convidou Francisco a pernoitar em sua modesta casa. Chegando na maloca, Francisco conheceu a mazela da pobreza na cidade grande. A residência constituía-se de quarto e cozinha, sendo que o banheiro ficava fora, num pátio comum a outras casinhas que formavam o que conhecemos por cortiço; não havia móveis no quarto, apenas uma frágil cama. Vamos jantar!, sorriu o velho entrando na cozinha; só encontraram um ovo e farinha de mandioca; ele acendeu o fogão-à-lenha, jogou a farinha na panela, esperou esquentar, e acrescentou o ovo; dividiu serenamente a massaroca em dois pratos destinando maior quantia a Francisco que a todas estas se admirava. Admirou-se mais ainda ao lhe ser oferecida a cama pelo velho, o qual assegurou que convidado se trata bem e dormir no chão ele já dormira muitas vezes na sua longa vida. Dormiram. Mas com fome.
Ao amanhecer, o velho ensinou-lhe o caminho do seminário. Francisco perguntou quanto deveria pagar pela hospedagem, recebendo a seguinte resposta: “Deus vê tudo, Ele me pagará”.
Dom Clemente, reitor do seminário, chegara ao Brasil recém ordenado padre no ano da abolição da escravatura, ainda durante o império de Pedro II; era suíço de origem francesa; contudo, tendo reparado que o novo aluno tinha sobrenome alemão, saudou neste idioma a Francisco. Caminharam lado a lado no jardim interno do seminário a conversar mesclando português e alemão. A simpatia de Dom Clemente pareceu logo incompatível com a intransigência ao afirmar suas idéias, fato cuja causa Francisco atribuiu à fé. Enfim, entraram num dos dormitórios; o rapaz ficou encantado ao ver tantas camas juntas, o reitor designou-lhe uma, informou que seus colegas chegariam das férias segunda-feira para início das aulas, e despediu-se.
Pela extrema capacidade de adaptação do ser humano, Francisco logo se integrou à rotina do estabelecimento (tão diferente da vida rural), angariando amizade dos colegas e simpatia dos professores; tudo isso ele conseguia devido a uma personalidade simples, generosa e desprovida de orgulho; note-se que nem a morte da mãe o afetara, viver era trivial. A simplicidade, porém, não denota de modo algum que ele deixasse de investigar a realidade. Num passeio ao Bosque da Saúde, ele falava a respeito da comunidade onde nascera, quando perguntou a um colega quantos filhos este pretendia ter. Ora, se eu me formar padre, não poderei ter filhos. Por quê? Porque padre não casa. Sem casamento se pode ter filhos, os animais não casam e os têm. Mas gente deve pedir permissão a Deus, gente constitui família para o bem geral, é uma das razões por que Deus a nós concedeu inteligência. Padre não pode pedir essa permissão? Não: padres dedicam a vida a Igreja, que torna-se um tipo de esposa. Aí Francisco entendeu por que Silas não era pai.
Desde que se despediu daquele desvalido que o acolhera durante sua primeira noite em São Paulo, Francisco pensava na frase que aquele proferira: “Deus vê tudo, Ele me pagará”. Certa feita, no seminário, à hora da meditação diária, Francisco contemplava a bondade daquele homem quando a referida frase veio fulminante; examinou-a, e concluiu que é atributo humano ser egoísta; até na prática do altruísmo há egoísmo, pois com ela se espera recompensa divina ou mesmo mundana. Esta idéia Francisco comunicou a um professor, o qual esclareceu que a graça consta em agir benevolamente, mas sem dar-se conta de que é bom, há que abituar-se de tal modo à virtude que esta passe imperceptível. Todavia Francisco tinha razão ao supor que a natureza humana era egoísta, pois mesmo à graça chegamos devido ao egoísmo.
O primeiro semestre passou ligeiro. Tudo era insólito e alumbrante; a cidade, a biblioteca, o espetáculo das aulas de geometria e história universal... Até que vieram as férias. Francisco não possuía numerário nem sentia saudade para voltar ao município natal; um amigo quis ajudá-lo, mas ele preferiu ficar para conhecer melhor a cidade.
No segundo semestre, além da meditação e das orações, um novo procedimento foi solicitado aos seminaristas. Era o jejum semanal. Já é sabido como Francisco apreciava os doces da avó, desde menino sendo glutão. Pois não resistiu ao jejum. Afinal, jejum por quê? Porque nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra vinda de Deus. Nem só de pão, porém sem pão não vive. Um dia foi ao recinto onde eram guardadas as hóstias, e as comeu, quebrando o jejum; nisso foi surpreendido por um dos padres, que o encaminhou ao reitor.

--- continua, baseado em factos reais, como a vida que se baseia num eterno baseado...
.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

EINES BRASILIANISCHEN cap. 1









"História Real, baseada em factos baseados em baseados..."
(Dra. Wyborowa Absolut, PhDei)


CAPÍTULO I
Onde se faz um breve relato dos preliminares
que antecederam e determinaram o nascimento
de Francisco Reinisch, um brasileiro.


Nos primeiros anos do século vinte, fugindo das seqüelas deixadas pela Grande Guerra que abalou a Europa até 1918, contingentes migratórios esvaiam-se de lá para arribar em plagas de América. Nestas condições é que da Alemanha o senhor Christian Reinisch chega ao Brasil. Qual não terá sido seu constrangimento ao desembarcar no porto de Santos, se nem sabia pedir água em português!
Agravando a situação, padecia o fato de não haver ninguém por ele, estando a só em terra estranha. Christian tinha apenas um irmão, o qual morreu em combate juntamente com o pai. Sua mãe não suportou por muito a desgraça familiar; definhou em poucos meses até vir a falecer, deixando completamente desamparado o jovem Christian. Pobre e debilmente instruído, sem esperança em terra natal, seguiu rumo ao Novo Mundo, rumo a uma nova vida.
Como já foi dito, o senhor Reinisch nem tinha idéia do idioma usado no Brasil e, por absurdo que pareça hoje, sequer cogitava que existisse outro diferente do alemão. Daí seu constrangimento; mais que isso: medo. Ainda quase um menino, nada menos que medo é o que poderia sentir ao deparar-se com um mal-encarado agente de imigração a disparar aos berros ordens em português. No caos generalizado em que se encontrava o porto, uma coincidência passava despercebida; ocorreu que na mesma hora que Christian Reinisch descia dum navio vindo da Europa, logo ao lado um navio do Japão desembarcava japoneses. Estes últimos ficariam no estado de São Paulo, e os europeus seguiriam para o sul. Atordoado na multidão, Christian subitamente viu-se cercado de gente estranhíssima continuando a não entender palavra... ei-lo entre os japoneses seguindo equivocadamente para a cidade de Sorocaba, interior de São Paulo.
Chegando à referida cidade, Christian já ensaiava seus pioneiros vocábulos em japonês. Anos mais tarde ele se surpreenderia ao verificar que falava melhor japonês que português; era curioso o fato de até os descendentes dos ex-escravos criados junto à colônia falarem mais à vontade em japonês. E foi justamente um preto velho que logo veio a ser o melhor amigo de Christian. Simpatizou com o alemão assim que primeiro o viu, adivinhando nos olhos claros do outro sinceridade intrínseca e bondade. Seu nome era Ismael Marcelino, gentil de modos, delicado com as palavras, elegante de porte, não aparentava ter idade para ser pai do amigo, porém sua filha caçula já era uma senhorita mui admirada pelos rapazes.
Christian, orientado por Ismael, veio a estabelecer-se como colono na fazenda onde este trabalhava, tornando-se os dois, além de amigos, também vizinhos. Na verdade o velho Ismael já nem trabalhava tanto, deixando o mais do serviço para os homens seus filhos, e Luiza (a caçula) ajudava a mãe. Christian instalou-se numa casa de dois quartos; um dos quais servia para o seu pouso, e o outro para um casal de japoneses chamados Hideki e Fumiko, o marido e a esposa respectivamente. Era uma casa de tijolo aparente, telhas de barro, sem forro, piso de terra batida, paupérrima, mas as noites alumiavam-se com o gemido bucólico duma gaita solitária que Hideki tocava. Fumiko dava aulas na escola rural da colônia, enquanto seu marido trabalhava na lavoura com os filhos de Ismael e nosso conhecido alemão.
Ora, o tempo não espera. Nasce em breve Harumi, a única filha de Fumiko e Hideki. É grande a alegria na casa! Esta alegria contagia Christian, faz lembrar o tempo antes da guerra na paz da cidade de Celle... a mãe amável, o pai, o irmão... desperta nele a vontade de constituir uma nova família. Se triste foi o passado, feliz há de ser o futuro. E não tardará a generosa ocasião.
Estando ele a capinar ervas-daninhas nas proximidades dum córrego que atravessava a fazenda, sobressaltou-lhe a intuição de que estava sendo observado; tomou coragem, súbito virou-se e divisou Luiza lavando roupa a fitá-lo. A princípio não acometeu-lhe pensamento algum. Depois pensou que estava no dia mais longo do verão pelo calor que subia ao seu rosto. Ainda chegou a supor que pela primeira vez na vida estava vivo. Tudo isso num átimo de tempo. Finalmente notou como aquela moça preta era tão diferente da sua mãe, finada em Alemanha; tão diversa do seu ideal de mãe: a sua loira da pele rosada, esta escura do cabelo enrolado, mas toda fascinante, muito feminina. Essas coisas passaram por sua mente em menos de um segundo, e já imaginava como seria um filho seu com Luiza, a filha do seu melhor amigo. À noite do mesmo dia apresentou-se a casa de Ismael Marcelino, com todo rubor que sua pele alva ensejava, a pedir Luiza em matrimônio. Ismael consentiu. E, para felicidade geral da colônia, Luiza aplaudiu!
A cerimônia do casamento foi simples qual tudo mais era simples no município de Sorocaba. Entraram quantos colonos seria possível na minúscula capela; no altar figuravam o padre Silas, o respeitável pai da noiva, e dois casais de padrinhos: Hideki e Fumiko de um lado, e, do outro, Maria e Carlos, o espanhol da sapataria. Após um sóbrio sermão, os noivos trocaram as juras de permanecerem juntos na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença até que a morte os separasse, e saíram com a certeza da felicidade eterna.
Um ano depois nasce Francisco Reinisch, um brasileiro.

--- continua amanhã, neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-blogue, pelo mesmo bat-punheta...
.

sábado, 19 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - apelo para epílogo






OMNIBUS IN MUNDUS


(APELO PARA EPÍLOGO)
Armendaris Fuentes Mudimbe de Orleans y Trompovsky y Romanov y Kurosawa é o nome dele. Ele é da antiga Ciudad Trujillo, atual São Domingos da República Dominicana. O nome impressiona? Pois que então passe o meu em omisso. Sou da ilha, trabalhamos juntos na capital... Como todo bom homem lá da terra, ele tem um bom nome também, e uma boa genealogia que abraça todas as nações do mundo, a qual vale uma explicação ainda melhor; mas hora não se faz pertinente. Ocupo-me pelo que lhe sucedeu hoje à tarde.
O décimo quinto Escritório de Recolhimento amanheceu impenetrável de processos tributários. Com a volta à atividade do pessoal jurídico, em greve por atraso salarial já entrado no sexto mês, que o governo soe atribuir ao decréscimo do preço da banana, o serviço liberado de súbito como que despencou em queda livre do oitavo ao segundo andar de nossa seção com uma aceleração inédita de expediente. Resultou que eu ainda ficaria preso à datilografia almoço a dentro, quando ele veio convidar-me para um café. Tal a lástima, é como se eu o visse aqui, e já neste instante, saindo só e banzeiro pela porta do corredor. Depois, o que soube dele, interei-me faz pouco mais de quatro horas.
Certamente não almoçou. Não pôde, outra vez o bar conspirava, estando a cozinha no terceiro golpe de estado do ano. Estaria faminto; desceu ao térreo direto ao refeitório quando, no entanto, o detiveram: "A comida falta, a banana apodrece!", escutava-se. Dão a ele uma banana e o despacham. Perambula pelas ruas do centro; uma briga de meninos; vendedores ambulantes; revoada e alvoroço pelo discurso frustrado dos protestantes na praça central; prosas de esquina; vai deixando rasto até achar o caminho da praia. Esse deve ter sido seu itinerário mais provável, pela descrição que obtive: homem moreno, sem bigode, sem barba, sem chapéu nem dinheiro, vestido e calçado. Não fossem outros tantos milhares de concidadãos, ora, só poderia ser ele! Pois chega à praia e, como todos que estivessem lá àquela hora, faz reparo ao longe no mar em três pequenas embarcações. De uma delas baixa um bote vindo se acercar da areia; o capitão salta desengonçado, tropeça e cai de joelhos ao lado de Armendaris, que, em auxílio, estende-lhe a mão e o recompõe. Parece ter saído dum cortiço, contaram-me, mas a roupa é antiquária, o pior é que está sujo e fede.
—Santa Maria! O que é você —faz Armendaris perplexo.
—Pinta e Niña! Por Deus, o soberano reino e a cristandade, sou Cristóvão Colombo. E você?
—Armendaris.
—Ganhei?
—...Fuentes Mudimbe de Orleans y...
Pausa.
—Que nome tem aqui?
—São Domingos.
—Do... Ceilão? —Cristóvão se aflige.
—Não, daqui mesmo.
—Em algures do Índico?
—Desde que seja na América Central... tanto faz, cara pálida. É onde te encontras.
Janeiro costuma ventar e chover todo dia. Hoje, o vento, a brisa costumeira da praia que refresca o expediente, já pelo muito a fazer, já por não ter ventado mesmo, de minha parte não se fez sentir. Seja como for, para eu que permanecia aferrado no escritório, era confuso precisar os humores do tempo. A mesma senhora que estava na praia e posteriormente me forneceu essa informação, urgiu em contar detalhadamente o que viu se passar entre Colombo e Armendaris. Parece que aquele, desiludido pela palestra, considerou largo período seu interlocutor, dirigindo depois a vista aos banhistas e curiosos que se assomavam; aparvalhado, quase a chorar de desespero, ainda pôs-se de ponta-de-pé para divisar suas três naus letárgicas sobre o mar; e assim demorou outro tanto. Por fim, arderam-lhe os olhos as cintilações da água, ao que retesou o rosto inteiro reparando no calor e na incrível limpidez do céu despojado de nuvem, quando, voltando-se bruscamente para Armendaris, disse adeus, retornando ao bote.
—Ei! Chega mais. É cedo, vamos tomar um café na Confeitaria Colombo.
Daí, os dois deram um pulo até o Rio de Janeiro, e o navegador voltou devidamente descontraído para encontrar em São Domingos seu paraíso na Terra. Gostou tanto da ilha que, retrocedidos cinco séculos, ao dar novamente em costa americana, batizou-a São Domingos, o que levou a consagração daquela data, desde então no pontifício calendário, ao Santo Domingo do Senhor. Armendaris, entretanto ficou no Rio, e não pude esclarecer por completo o ocorrido de sua delonga no lugar. Um boletim de ocorrência foi o documento que encontrei. Assinala seu entretenimento com a milícia local e a coroa, que acabou incorporando-o a uma expedição mercenária ou para-militar —não se sabe— rumo ao extremo sul, onde "insurretos ameaçam a unidade nacional". Sucede que, na província de Santa Catarina, proclamada República Piratiny, agourando o porvir cinzento à iminência dos combates, decide-se pela deserção, é claro.
Muita terra. Terra demais, e nada. Amplidão a vista perder: azul, verde, o infinito, e nada. Colinas, que passe colinas. Mas, pergunto, que são colinas? Mais um nada à nulidade do todo, ou do nada, selvagem e inóspito daquele rincão do Brasil meridional. Difícil é imaginar aquele imenso mar de morros propriedade de alguém. Não seria mesmo provável que ali vivalma habitasse, ou viajor qualquer de hoje até eras das mais remotas houvesse traçado passo por lá. Uma casa, uma cabeça de gado, um berrante embrumado: nada. Tal era a riqueza do senhor Bento José, dono da quebrada onde encontrou meu colega ferido de bala nas costas.
Crê-se, sua recuperação na casa do fazendeiro foi milagrosamente bem sucedida e rápida, aos cuidados voluntários de Anita, filha de Bento. Estranho foi não ter sido achado o projétil, que teria ficado entranhado em Armendaris, ou talvez não.
No princípio, quando aos da casa foi revelada as circunstâncias do ferimento, quiseram acreditar que se tratava de uma cilada, e abrigavam um bandido; sem vacilo, um espião! Todavia, Anita que mais contato despendeu em sua assistência, conquanto guardasse segredo para não escandalizar os homens da casa, enxergava o caso por um ângulo bem distinto. Desenvolvera a teoria de um verdadeiro milagre. Não sei porque, nem ninguém mais sabe como, associações das mais extravagantes, malgrado muito afeitas à idade, induziram-na a concluir sem menor chance para dúvida que, definitivamente, ele havia expelido a preciosidade com as fezes. Porque, de primeiro, sangrava ao defecar.
Por essa época a Farroupilha seguia em plena marcha pelas províncias do sul. A propriedade de Bento José era posto de abastecimento dos farrapos; o trânsito deles por lá intensificava-se sobrevindas as vitórias iniciais; o próprio fazendeiro era farrapo, todos se alinhavam e venciam, e um rápido final era certo e esperado. Os homens das tropas fiéis ao Império não eram tão fiéis quanto. Afinal, "gente, para que Brigar, não é?".
Mas governo é governo. Gigante plácido, desconjuntado, moroso, mas gigante sempre. As coisas se prolongavam... Ele sem mais como, acabou tendo que "provar seu valor" e cumprir o destino que tanto faria por retardar; agora, como traidor da pátria alheia. Desde sua primeira campanha encontrou-se batendo ao lado de um libertário louco que desmoralizou-lhe todas as ressalvas de amor à vida. Justo ele! Foi da companhia de Giuseppe Garibaldi até o fim, com quem seguiu para o Reino Das Duas Sicilias, onde os esperavam os camisas vermelhas a destituir Bourbon e proclamar a República:
—Veste a camisa, ragazzo!
Não? Qual seria o problema?
—Comunismo está em baixa.
Ele não teve pena. Súbito estampido. Ao primeiro disparo bolchevista, Garibaldi tomba fulminado por um estilhaço de muro alemão.
Anita, que fôra roubada do pai, chorou seu marido, chorou cem toneladas de história. E a prantina inundou a região. E a Sicilia separou-se definitivamente da península. Comovidíssimo, ele houve por bem deixar que a viuvinha se afogasse só, já que quisesse tanto assim! Toma o primeiro ônibus a qualquer parte, mas como toda estrada levasse a Roma, seu destino outro não pôde ser.
Esclarecimento: desculpe-se o ritmo apressado do relato. Ele, saiba-se logo, está em todos os sentidos apertado, recorrendo eu à compreensão dos que me lêem para transmitir-lhes o sucesso de sua desventura. As informações são confusas, e haverei de passá-las sem muito morar, pela emergência em que se encontra o meu amigo, o qual espero em breve chegar a socorrer. Advirto, porém, que até agora foi dito pouco.
Para certas vidas é possível que haja fado, ainda que ingrato, por vezes. Se ele é uma dessas vidas, cada um que o conhece que o diga: Mal descido em Roma, viu-se de novo conduzido pela marcha das armas. Foi recrutado por uma Cruzada dessas ao Santo Sepulcro que ele chegou ao Mar Vermelho, considerou premente a passagem para o Mediterrâneo, e convenceu Ferdinand de Lesseps a iniciar a obra. Então, auxiliado por um jovem velhaco, já havia conseguido desertar também da expedição bélico-religiosa, fato que veio a ser preliminar para a existência, hoje, do Canal de Suez.
Pergaminhos medievos encontrados na biblioteca do Vaticano sob a forma de compact-disc registram a lenda de um estrangeiro indescritível que teria ajudado o tempo em sua árdua tarefa de fazer ruínas o Coliseu. Ainda assim não hesito a crer que a passagem de nosso dominicano por Roma tenha resultado nula, salvo pelas ações indiretas do jovem cruzado seu companheiro desertor a quem, depois das conversas (suponho) que teriam travado nos acampamentos, inculcou a idéia de regressar à Itália e requestar ao Papa o reconhecimento de sua própria ordem religiosa. Chamava-se o pobre diabo Francisco...
Mas, orientando os trabalhos de Ferdinand em Suez, ele nada queria saber além da construção do canal, que realmente chegou a ver concluído no exato instante em que Moisés cruzava o Mar Vermelho. Maravilhado com o prodígio e satisfeito com o trabalho, despede-se de Ferdinand; combinam um reencontro; seria no Panamá, para a abertura do segundo canal. Cada qual num sentido, ele segue com Moisés a Canaã. Talvez por soar aos seus tímpanos latino-americanos um quê de familiar, cativou-o a idéia da terra prometida. Dessa vez não desertou. Mesmo nos tempos do maná e dos filisteus, persistiu; até que sucederam-se os profetas e consolidou-se, de Sidon a Bersabéia, a civilização de Israel. E quando a poeira dos primeiros anos parecia estar enfim se assentando, vê varrer novo tufão as plagas tempestuosas do povo judaico; quisto revolucionário incorporado por um único homem que insufla e adestra as massas à contestação. Profeta? Demais afeita a alma de Armendaris aos arrojos impetuosos de mudança (bem é visto o estrago que tem feito no horário de almoço), resolve conhecer o tal agitador. Pretendo terem ele e o outro se conhecido bem, ou ao menos gastados largos períodos juntos: ele torna-se alpinista amador, que era a propósito recurso de que mais dispunha, para reunir a ralé, o afamado demagogo. Duma feita, tendo a multidão chegado ao rés do monte conhecido por Monte das Oliveiras, aguardava o comício. Nesse meio tempo Armendaris inicia a discussão, dirigindo-se solenemente ao profeta nos seguintes termos:
—Quem mais afortunado seria —pergunta enfunado de ares épicos: seria o pastor feliz, que é feliz na ignorância, ou o sábio que é sábio e por isso irresoluto, e pelo saber se inquieta? Vós pregais a singela e estreita senda da felicidade, e muito já tendes censurado a conduta dos sábios e doutores que seriam o exemplo lógico a seguir todo indivíduo, face à irrefutável consideração de que gozam aqueles em meio aos demais. O saber é um valor. No entanto haveis com instância arrazoado, e a tanto lograstes bem a convencer-nos, de que dito valor, em imediato entendimento, faz-se alheio às fronteiras da felicidade. Mas se a primeira finalidade do saber é satisfação, que outro fim seria felicidade? Creio deparar-me ante uma evidente incongruência, e procuro relutante, não menos que redundante, Vosso esclarecimento. Pois, em qual condição melhor um vive? (Esta passagem a obtive numa sinagoga suburbana de Nova Iorque, em escritos não, como se diz, seguramente fidedignos. Ora, que baste um dominicano discutindo em hebraico arcaico, escrito em aramaico, traduzido para o inglês, interpretado em espanhol, e recontado para brasileiro ouvir!)
Assombrado silêncio se apodera da multidão; porque a multidão está sempre assombrada; e aguarda a palavra do mestre, que nada hesite em responder, ainda que o fizesse de modo tão enigmático, e ninguém compreendesse. Bradou:
—Bem aventurados os que são o que são, porque deles será o que lhes é cabido!
Esta bem-aventurança jamais seria explicada. Também surpreso pelo inusitado da resposta, ele tenta por alguns instantes esquadrinhar seu conteúdo. Reflete. A coisa alguma teria chegado, não lhe houvesse ocorrido um velho ditado judeu que ele então inventou para a situação: Entre dois caminhos, escolha-se um terceiro. Fazer-se de tonto, fora de vista. Entender a maldita aventurança! nem pensar...Certo. Franze a testa, sorrisinho amarelo, assim; entre inocência e perfídia apunhala:
—São o que são. Mas, e os que... da América-Latina são?
Escândalo! A multidão, para variar, está assombrada. Aí, porém, a mesma insídia que fulminara de morte Garibaldi linhas atrás sequer apara a pronúncia do profeta, ao que esta conclui de imediato e triunfal:
—Estes, os latino-americanos? Eles que dêem um jeitinho. Não é?
Revelação. Armendaris se dá conta que nada mais tem a aprender no mundo. Confere o relógio, dá um jeito na roupa, dá um jeito na barba, e despede-se da Judéia ainda com todo o jeito. Guarda o jeito no bolso, e arruma um jeitinho de chegar ao Panamá a tempo de encontrar o Ferdinand.
O encontro é antológico nos livros didáticos de Portugal:
—Atrasado?
—Por quê..?
—Pois, comecemos?
—Por quê?
—Desistimos?
—Por quê?
—Por que o porquê?
—Porque não sei de que...
Donde se poderia tirar a melhor explicação histórica para os atropelos e atrasos que permearam a monumental abertura do Canal do Panamá, se tudo não fosse atribuído, e com muita verdade, ao surto endêmico de febre amarela, do qual, à época da chegada de Armendaris, poucos velhos se lembravam. Assim, só restou mesmo a Ferdinand o "sinto profundamente informar..." que o canal concluíra-se a mais de três quartos de século, e, se ia ficando, era para ver se conseguiria levar um desses chapéus de que tanto falam...
Que comprasse um panamá! que levasse mil sombreiros ,uma mitra se conviesse. Perder mais tempo não, para quem estava em expediente. Fazer a América, ver Nova Iorque: sonho da nação e de todos era o projeto de Armendaris para os minutos finais do almoço. E é aqui que vai terminando este breve relato e tendo início o meu apelo.
Eram os primeiros meses da instalação da estátua da liberdade. Havia apenas o buraco ainda.
Pois tendo ele, com um jeitinho todo especial, burlado a impenetrável imigração norte-americana, chega a Nova Iorque após inaugurar em Miami, entes mesmo do primeiro cubano, a simpática e folclórica entidade do imigrante ilegal na América. E foi encorajado por um brasileiro operário sobrevivente da lenda dos soterramentos da Ponte Rio-Niteroi, que ele arrojou-se a buscar, nos alicerces da estátua, a água bastante para molhar o nordeste do Brasil. Porque aquilo haveria de ser o poço do mundo, testemunhou-me o próprio operário, o qual —saberia lá seus motivos— porfiou-se renitente em dizer que era natural do estado do Piauí, aonde eu teria de ir logo se quisesse conhecer, e deveria querer conhecer, e inclusive "antes que acabe...". Conversamos. Colhendo esse derradeiro depoimento pude fechar o itinerário malfadado: resultou o incidente final assim trágico como esperado, ou tão mais cruel quanto previsível: o poço por baixo, as pedras pregadas em cima, o homem no poço, o poço não é poço, e o nordestino brasileiro (como sempre) de balde gritando. Armendaris pôde então sofrer todo o peso que um latino-americano pode sofrer com a liberdade ianque no lombo, e, "God bless America!", a banana que desde o refeitório guardava no bolso com o jeito, a esta hora já estaria passada, pois não resistiu. Patético: latino, em Manhattan, preso pela liberdade, lambuzado de banana podre.
Nisso, acabava o horário de almoço. Como ele não voltasse, nosso chefe me mandou à cata dele, sendo imprescindível a sua atividade na seção (já é notado quão abjuradamente faz jus ao nome que tem), pela sobrecarga do pós-greve. Assim foi que me inteirei de todos estes acontecimentos e, estando de passagem pelo Rio de Janeiro, na Confeitaria Colombo, li a respeito de uma considerável soma em dólares como prêmio dum concurso literário. A verdade é que não vai ser muito fácil livrar meu colega, ele, lá de baixo da Estátua da Liberdade, por isso tenho fé no concurso... Todavia, um apelo é válido:
Rogo em favor do cidadão dominicano Armendaris Fuentes Mudimbe de Orleans y Trompovsky y Romanov y Kurosawa (filho bastardo de todas as nações) que ajudem, estando ao alcance, por meios quaisquer. Dêem vida nova àquele, e um epílogo feliz a esta estória.
E aquele, que nunca existiu, seguirá a sua sina de ir a cada dia construindo seu anônimo e belo enredo. E todos os demais anônimos na multidão dos séculos integrarão querendo ou não, o elenco do Enredo do Mundo, o qual somente agora, humildemente reconhecendo minha pretensão, atino que nunca não caberá em prosa ou verso.
.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

OMNIBUS IN MUNDUS - das convenções



OMNIBUS IN MUNDUS



(DAS CONVENÇÕES)
Manhã de segunda-feira; adejava a asmática São Paulo cinzento véu de estopa suja. Por ocasião do sete de setembro, ele menino encontrava-se desocupado em casa quando o telefone soou. Era seu primo Francisco, que lhe convidava a acompanhá-lo ao desfile da independência. Combinaram se encontrar a caminho, no Viaduto Dona Paulina, em frente ao Sebo do Messias. Assim fizeram, e seguiram de metrô o restante do percurso.
Apesar de ser dia do sol aparecer: segunda-feira, início da semana e dia útil, era feriado e, portanto, agraciava o paulistano chuva e frio, infalível... Nestas condições subiam os dois primos pelas escadas rolantes da estação Tiradentes, e já desciam a avenida onde dobrados e marchas insinuavam anunciar a passagem dum grande circo. A certa distância, uns cinqüenta metros de onde estavam, o povo se aglomerava. Ele quis saber das arquibancadas, pois só via o palanque de autoridades, em destaque, e os espectadores ao longo da pista. A ele e seus dez inocentes anos de idade, respondeu Francisco com ares de presunçosa superioridade de dezesseis, dizendo que o outro estava a confundir a metralhadora do soldado com o reco-reco do passista, e os doirados do almirante de fragata com os da porta-bandeira e mestre-sala; misturando pelotão de artilharia com escola de samba, e desfile da pátria com carnaval. Pois arquibancada na rua, só no carnaval, e cara. Sim, vamos assistir em pé.
Ele pareceu não gostar muito desse negócio de não haver onde acomodar as pequenas nádegas, mas agüentou-se calado por alguns minutos ao cabo dos quais mais nada queria com a pátria malvada que não deixava ele se sentar, e já conspirava uma maneira de enredar o primo a seguir as mesmas intenções suas: ir embora!
—Chato essa chuva, não é? Olha, pela cor do céu e pelo que a moça da televisão disse, vai continuar. E a gente nem pra lembrar do guarda-chuva...ai ai ai.
Francisco mantinha postura ereta, "garbosa e varonil", impecavelmente patriota, impecavelmente encharcado. Pense na nobreza deste dia —começou a dizer— imagine o sacrifício dos heróis que fizeram do Brasil um país livre, e verás quão insignificante é este o nosso.
—Ora pois sim,— ele buscava argumentos que favorecesse seu lado (ir embora) e depreciassem a importância do desfile —que sacrifícios? que heróis? Você delira. "Independência ou morte!" e acabou-se. A colônia do pai virou império do filho; tudo em família, tudo na santa paz.
—Disse pouco, mas disse bem, tudo na santa paz. Assim foi nossa independência, o que não é vergonha alguma. Antes, é fato que vem a distingui-la mais ainda, posto que maior proeza que valer-se da espada por um agravo qualquer é guardá-la precavidamente na bainha, e tê-la segura à mão quando de uma emboscada.
—Espada? bainha? emboscada? quiii...
Pondo de lado sua vontade de ir embora, ele começava a se preocupar com o raro comportamento do primo. Com efeito, Francisco nunca havia se revelado ser assim um filho tão ardoroso da pátria. Pelo contrário, sempre se mostrava indiferente e quase cético ante as paixões da coletividade ou as aspirações pessoais próprias da mocidade, nele inexistentes. Sobre essa disfunção de comportamento, ele ponderava em sua mente infantil que Francisco só poderia estar ensandecendo. Levando a mão ao rosto do primo ainda lhe perguntou se não estaria com febre; o outro respondeu cantando: "Amor febril...pelo Brasil".
Não passaria isso de uma troça das que os mais velhos costumam tascar nos menores? Acometido por esta idéia, ele franziu a testa e fez brincando:
—Ô, senhor, não venha você agora com chacota pro meu lado!
Vendo ele que o primo não atentara às suas palavras, proferidas em meio ao zumbido da multidão e ao repicar das caixas-de-guerra, aproveitou para examiná-lo melhor, porém um tanto ainda desconfiado. Francisco não lhe pareceu estar agindo muito conforme o ordinário de sua personalidade; também, por outro lado, sinal nenhum de representação ou disfarce deixava-se transparecer sob seu semblante.
Francisco era outro. Símbolos nacionais, armas e generais, motivos seus de indiferença, ojeriza e mofa de outrora, mais pareciam nesse instante inspirar-lhe contemplação, orgulho e respeito.
—Ei, acorda Fran-cis-co!
—Io.
—Que aconteceu contigo? Donde veio essa idéia de heróis com espada embainhada, nobre dia, amor febril... que raio de patriotismo é esse que menos deve ter caído do céu que fugido do inferno?! Assusta-me com a brincadeira. Olha, não tem graça nenhuma: você está todo molhado, eu também, e a pátria nem aí conosco. Sua mãe eu não sei, mas a minha vai ficar danada da vida quando me ver nesse estado de roupa no varal. Está me escutando, sim?
Francisco escutava muito bem. Na verdade não era sua intenção aparentar-se tão absorto em seu patriotismo. Buscava tão somente ilustrar um assunto sobre o qual discorreria ao término do desfile.
—Sabe o que é, tenho coisas a contar para você.
—Correto —replicou ele ironicamente —e por isso, concordo, havemos de ficar na chuva.
—Não, ali.
Afastando-se da multidão, encontraram abrigo sob um ponto de ônibus que se achava deserto devido à interdição da avenida aos veículos. Da mesma forma como esteve até agora, com a fronte voltada para o lado do desfile, Francisco iniciou o que tinha a dizer.
—A questão é simples: convencionar.
—Eu —prosseguiu Francisco em tom mais grave e voltando-se para o outro —falo do viver. Raramente pode ser que eu tenha dado mostras de que penso nisso, mas acredite, é o que mais vem me afligindo de tempos para cá. Por isso, conto a você. Vejo a vida ser traçada por convenções, e dessas dependem nosso estado geral de ânimo, idéias, reações; são como bússolas internas a nortear nossas ações. Não importa que rumo tome a nossa existência desde que esteja previamente convencionado, e que seja respeitada integralmente a convenção.
Ele, atordoado, mais querendo saber o porquê destas palavras do que compreender sentido algum que viessem a ter. Francisco, falando.
—O desequilíbrio não é necessariamente a loucura; são coisas distintas. Fique claro: o louco, pela própria loucura, já chegou ao equilíbrio. Porque o louco é coerente. Prova é que, depois de conhecido, suas ações são previsíveis, ou previsivelmente imprevisíveis. O louco convencionou-se. Portanto, o desequilíbrio pode até anteceder a loucura, mas esta sobreviria como benefício. De modo que nada do que digo faz menção à loucura, abordo a questão do desequilíbrio.
Algo vinha, de forma crescente, a preocupar-lhe já há algum tempo; inicialmente uma intuição desagradável. Cada vez mais a vida ia como que esvaindo-se das pessoas. Os ponteiros dos relógios, os carros nas ruas, a agitação usual da cidade, e tudo que provinha desta Humanidade, parecia mover-se por inércia, existir pelo hábito de existir, tudo assim parecia ficção, depois sonho, ao fim, farsa! Estava no mês de maio, neste ponto sua aflição era máxima: a civilização prestes a parar. Sim, parar porque não encontrava motivo concreto a explicar o sentido das coisas humanas estarem dispostas como estão ou, ao menos, de assim permanecerem.
—Chegava primeiro de setembro. Mas nada parava. Ainda, era eu que sentia estar parando perante a indiferença agonizante com que tudo se acelerava ao meu redor. Foi neste dia que correu em meu auxílio Fernando Pessoa: sofreria dos olhos quem pensasse? Estava eu vendo a realidade pelos enganosos prismas do —foi então que me ocorreu— desequilíbrio. Ou desequilibrada era essa gente que vivia a sustentar a farsa? Para facilitar o problema, preferi considerar a primeira hipótese. Porém, as divagações recusavam-se pertinentemente a seguir o traçado prescrito, conduzindo-me o mais das vezes a procurar o desequilíbrio em outrém. Não raro, o encontrei.
Francisco com ademanes fez uma pausa. O outro, que permanecia calado, aproveitou para se pronunciar:
—Então você não era desequilibrado? Mas todo mundo também não poderia ser. Quem ficaria sendo finalmente?
—Priminho, vamos mais devagar. O desequilíbrio é muito comum e suas causas diversas. A princípio, um exemplo, o que nos dá meu tio, seu pai.
—Não! —o menino se assustou —É bem verdade que de uns anos para cá ele tenha ficado estranho, meio triste, fala menos... mas para lá de ser louco!
—Louco? nem pensar. Digo desequilibrado, e com justa causa. Não era seu pai que, quando moço, imaginava o homem a dobrar por completo a natureza à sua vontade? que acreditava que seu trabalho engrandeceria o país, e traria a si reconhecimento e prestígio?
—Sim.
—Pois não é ele mesmo que vinte anos mais tarde, hoje, vê aquele homem retroceder perante a revolta da natureza, e vê seu país vinte anos mais moderno e individado? Não é ele mesmo que projetava ser através de seu esforço reconhecido, e que trabalhou com afinco pra que dois anos atrás fosse suprimido por um amontoado de fios e plástico e ferro?
—Estou entendendo...
—Os antigos valores —concluía Francisco —sobre os quais seu pai edificou a vida extinguiram-se, e ele quedou desequilibrado. Veja, esses valores extintos nada mais são que convenções quebradas. A pesar de se apresentarem de formas distintas, a causa régia do desequilíbrio de seu pai é a aflição que se instalou na mente dele por ocasião da dissolução de suas convenções. E isto é igualmente válido para os demais casos.
—Agora atropelei as idéias, confundi...
—Você entenderá. Conhece Hurtado?
—É, por acaso, aquele bandoleiro —ele já ensaiava um sorriso maldoso no canto da boca —que foi preso quando se confessava na igreja!?
—Ele mesmo, o lendário Hurtado de Santa Cruz De La Sierra, o demônio branco; que foi preso no confessionário. Era desequilibrado.
—Os malfeitores —retrucou ele absoluto —são desequilibrados. O desequilíbrio leva à prática do insensato, ao mal caminho.
—Pois eu digo que o desequilíbrio de Hurtado foi o bom caminho. Ele era bandido e portava-se como tal, era astuto e por isso nunca era pego; suas ações eram ditadas pelo ruim; sua vida, pecado; sua consciência, limpa; ele, feliz. Naquele momento da confissão, suas convenções dissolveram-se. A fé, equilíbrio de outros, foi, no caso de Hurtado, refúgio do desequilíbrio. De maneira que o problema reside primeiro nas convenções, segundo na quebra das mesmas; e ainda depende da personalidade.
—Quer dizer que todos estamos sujeitos?
—Desde que deixemos de crer nas razões dos motivos de nossas ações, nas diretrizes de nossas vidas. Seja uma balança, dum lado os motivos, do outro a crença; esta desaparece e os motivos não têm mais resposta, seu peso faz pender a haste, eis que se estabelece o desequilíbrio. O resultado imediato é aparentado pelo profundo desgosto, desânimo, tristeza; o que hodiernamente recebeu na terminologia psiquiátrica a designação de depressão.
—A amargura, a tristeza —deduzia ele alumiado —a tristeza do Policarpo, de Lima Barreto? era ele desequilibrado?
—Policarpo? —Francisco fez surpreso —Vejamos o sonhador major Policarpo Quaresma: não, desequilibrado não, triste, quiçá...Mas você conhece a estória?
—Sim.
—Bem, as convenções dele nunca se quebraram. O seu martírio veio de fora. Aos dezoito anos convencionou: seu ideal seria a pátria, a pátria seu maior afeto, e pela pátria viveria. No cárcere, anos depois, uma lágrima despontava em sua face a percorrer rugas sexagenárias, testemunhas do ideal, do amor da vida de um pobre bastardo do mundo, que sempre fechou os olhos ao que até os cegos poderiam ver, que até o último minuto guardou seguro no peito aquele mesmo sopro inquieto dos dezoito anos, e que uma vida depois diante do pelotão de fuzilamento não reconheceria a pátria na farda verde-oliva do soldado cujo pau-de-fogo viria a deferir-lhe o projétil letal; pois nos dias de prisão em Villegagnon, era também a pátria carcereiro; ele não via.
Pode ser que as convenções de Quaresma tenham sido firmadas no sonho, mas importante é não ter ele sido desperto. É, pois, exemplo de equilíbrio. As convenções são arbitrárias, pessoais, o indivíduo as determina sem regras a seguir; elas são as regras. Não há verdade única que indique as convenções, absolutamente.
Meu caso foi, na ocasião em que desacreditei da importância da civilização existir da forma que existe, ter negado a todas as convenções possíveis. O desequilíbrio foi completo. Acredite, é um estado entre afogante e afogado.
Francisco calou esperando a reação do primo, ao que este lhe perguntou admirado:
—E você ainda está assim?
—Creio que não —fez o outro balançando a cabeça. Hoje pela manhã, pouco antes de ligar para você e convidá-lo a acompanhar-me no assistir o desfile das armas, foi aí, idéias que vinham fermentando em minha mente quase no inconsciente deixaram a estéril passividade da divagação e expandiram-se para o campo saudável da ação: Convencionei-me! E para tal fazer é de mister a humildade de adotar valores que a Humanidade criou, ainda que careçam de razão plausível. E o que resta é viver, ter aspirações, decepções, pelejar pelas esquinas da vida, ter momentos de glória (alheia, pessoal ou coletiva), momentos de prantina e consolo, tristeza e alegria; é ter mais a arrepender-se do que fez que do que deixou por fazer, é não ter medo de estar iludido; é também tomar parte nos sentimentos da coletividade, sim; de seus anseios e lutas. É viver também... —e a música sobressai-se à voz dele
Nesse instante a banda executa a Canção do Soldado. Ele corre para ver. Marcha o último destacamento de infantaria.
Alguns aplaudiam, outros cantavam, todos em manifestação. Acercando-se da multidão que começava a se dispersar, Francisco, endireitando o corpo, pôs-se encostado ao lado do priminho, e ambos a cantar:
"Como é sublime
saber amar;
com a alma adorar
a terra onde se nasce!
Amor febril..."

A manhã estava por terminar. O nosso raquítico sol do meio-dia da independência, com toda deferência reservada ao dia, despontava por entre as sombras da senhora chuva que já se apressava em tomar rumo de seu caminho para reclamar em outras freguesias, pois terça-feira, por decreto, tudo haveria de estar seco e limpo, o céu aberto, uma temperatura agradabilíssima, um domingo fantástico, e as chaminés fumegantes, é claro. Era o fim de mais um sete de setembro. Como de costume, o pessoal do palanque, que não tomou chuva, saía aborrecido mas aliviado por ter se findado o maçante compromisso. Os militares a ponto de chorar de emoção (embaixo da armadura de ferro: coração de manteiga). Os demais, cada um a sua maneira: muitos, pela falta de recreio melhor, vieram sem nada a perder e saiam satisfeitos com a máscara do cidadão exemplar; outros, típicos foliões (finados, carnaval, tanto faz); a maioria alegre sem saber por quê.
Os dois meninos nossos conhecidos, igualmente, plenos de contentamento seguiram atrás marchando logo que a derradeira coluna de fuzileiros passou: os pés a chapinhar nas poças, sobrancelhas cerradas, o sangue à cadência do bombo, áurea radiante. Os sentidos vagando inertes no infinito sagrado; em nada pensariam?
Tomados de benévola ingenuidade, brilhavam seus bons olhos, seus olhos sãos.
E aquele que, nunca tendo convencionado sua vida segundo os paradigmas engendrados pelas vivências, ainda assim veio a sofrer uma única decepção sequer, aquele nunca existiu.
.