sábado, 8 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 9




CAPÍTULO IX
Um calote na Tabacaria Africana;
Maria Fumaça e a guerra,
o meu casamento,
a gula e a guerra.


A indumentária é como que um cartão de visita para os braços da sociedade, mas pode ser o contrário. A sociedade propriamente dita nunca foi o habitat natural de Maria Fumaça, que circulava muito mais à vontade no assim chamado sub-mundo dos segregados do que nos meios pacatamente burgueses da classe média, ou mesmo dos pobres honestos de favela. Dito isto, os trajes de Maria Fumaça não irão escandalizar: vestia preto desde o sapato com fivela grande até o boné de aba curta; era um breu total; bem, toda breu na íntegra não tenho certeza, nunca vi sua roupa íntima, se é que usava..., e o paletó, de tão esfarrapado, foi adquirindo tons de cinza. O modo de vestir-se, aliado à sua magreza cadavérica, outorgavam-lhe um aspecto desgraçado de escória da civilização ocidental. Foi essa figura funesta que o vendedor da Tabacaria Africana viu entrar em seu estabelecimento naquela memorável tarde de maio de 1942, quando Maria Fumaça conseguiu, por bem ou por mal, adquirir fumo inglês.
Ela ouvira falar que o fumo inglês era o melhor que havia para cachimbo, e quis porque quis um punhado dele; mas custava muito dinheiro: “Qual o motivo desse tal fumo ingreis ser tão caro?”, perguntou ao vendedor, o qual respondeu: “A Inglaterra está na guerra. Agora tudo é a guerra, é a guerra...”. Então ela pediu um naco de fumo comum. Manuseou um pouco o fumo, jogando-o de uma mão para a outra. Depois, entregando de volta o naco, disse: “Me troca ele pelo fumo ingreis.”. O vendedor pegou de volta o fumo nacional, e entregou-lhe o fumo inglês: “Mais alguma coisa?”, perguntou, já aguardando o pagamento; entretanto, sua elegante freguesa simplesmente agradeceu e foi saindo sem pagar, ao que o vendedor advertiu: “A senhora não pagou a compra.”, e ela: “Não paguei porque não comprei, eu apenas troquei este fumo ingreis pelo fumo brasileiro que eu já tinha.”. O vendedor pensou um pouco, e disse triunfal: “Mas a senhora também não pagou pelo fumo nacional!”. “Não paguei, mas também não levei. É a guerra, é a guerra...”, fulminou Maria Fumaça, deixando o vendedor aparvalhado, que provavelmente assim demorou o bastante para que minha amiga sumisse tal qual a fumaça, pois ela, ao me contar o ocorrido, declarou ter dado um belo calote sem onerar-se de um tostão sequer pelo excelente fumo que adquiriu.
Este golpe repetiu-se muitas vezes em lugares sempre diferentes e desprevenidos. No final, tudo era por causa da guerra, da maldita guerra. Bendita guerra!
Naquele mesmo mês de maio, o mês das noivas, aconteceu a cerimônia do meu casamento. Tive receio de convidar Maria Fumaça, pois meu marido certamente estranharia e se desgostaria com sua extravagante pessoa; porém, com a mesma certeza, seria muito mais desastroso se minha amiga descobrisse depois que não fôra convidada. Convidei. Na cerimônia religiosa, tudo correu tranqüilamente, Maria Fumaça não foi, já não posso dizer o mesmo da festa.
Ao final de festas familiares qual aniversários infantis e casamentos, é normal que os convidados levem para seus lares o resto da comida que por ventura sobre. No entanto, depois de tomar todas as cervejas que lhe caíram na mão, muito antes do fim da festa Maria Fumaça deliberou despejar nos bolsos do paletó as bandejinhas tanto de doces como de salgados, tudo misturado. Meu finado sogro, pensando que aquilo fosse apenas um efeito da bebida, tentou dissuadi-la oferecendo-lhe outra cerveja. Ela nem deu moral: também era a guerra, era a guerra... “A comida está racionada. É a guerra...”
Assim sucedeu-se o meu casamento, com o duplo estorvo de uma despropositada Guerra Mundial e de uma ébria Maria Fumaça; ainda procuro saber qual das duas era pior.
.

Um comentário :

Viiii disse...

Já estou começando a ficar com dó do fim da Maria Fumaça.. Ou será que milagres acontecem e ela finalmente conseguiu achar um rumo aceitável na vida?