sexta-feira, 7 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 8





CAPÍTULO VIII
Uma revange escatológica;
parte de mim uma idéia que
nem tive jamais,
homem também chora.


“Pô, Antônia, sábado passado fiquei na pinimba depois que saí da tua casa, fome da brava...”, foi o que me disse Maria Fumaça num dia quando eu rumava para o trabalho, e a encontrei regressando do carteado. “Mas você disse que tinha perdido a fome.”, ponderei. “E eu sou lá de ter frescura pra perdê a fome?! Falei aquilo só pra não dar mole pro teu coroa. Deixa pra lá, agora eu tô querendo é finalmente me vingá do mês de cadeia que o Gomeleira me deu. O galho é que o veadinho é a própria polícia em pessoa.”. “Manda ele à merda, e esquece essa besteira.”, sugeri a fim de evitar futuras complicações.
Para quê abri a boca? Minha amiga partiu do “mandar à merda”, fez a cagada, deitou, e rolou por cima.
Godofredo Gomeleira, guardinha muito enjoado; mesmo depois de liberar a Maria, sempre que por acaso a encontrava, submetia sua inimiga figadal a uma vistoria completa atrás de algum pretexto para conduzi-la novamente à cadeia. Então, Maria Fumaça teve sua idéia com requintes da mais pura porcaria. Encheu um saco pela metade com serragem, defecou abundantemente em cima, e pôs mais uma fina camada de algodão a fim de ocultar as fezes. Saiu carregando o saco pela vizinhança à cata do Gomeleira.
Após quase duas horas de procura angustiante, ela já pensava, com preguiça, em desistir: ora, quando não desejava encontrá-lo, encontrava; agora que desejava, não encontrava. Regressando a casa, parou num botequim para um trago de pinga e para acender o cachimbo; estava lá, sorrindo-lhe com ironia, o guarda Godofredo Gomeleira. Maria o encontrara; todavia, acreditando que a graça estava consigo, Gomeleira foi se manifestando: “Vejam só! Eis que um anjo, ou melhor, uma anja desce à terra! Salve a nossa soberana pitadeira de cachimbo, a Rainha do Estácio!”, os bebuns todos levantaram os copos num brinde, “Mas, vem cá, o que é que a senhorita vai levando aí no saco? Jóias, diamantes, hein alteza?”, ao que Maria aproveitou: “Alteza é a puta sentada no trono da privada, e o que eu estou levando é merda! Valeu?” “Eu vou dizer se é merda.”, sentenciou Gomeleira enfiando com gosto a mão no saco da sua surpresa.
Perfeito. Só sei que Maria Fumaça veio muito satisfeita me contar que o nosso amado guarda chegou a tremer e chorar de tanta raiva que passou vendo sua mão rebocada de bosta humana (a pior das bostas), as fezes de Maria Fumaça (a pior das gentes).
Gomeleira não poderia reclamar, pois Maria o avisara acerca do que continha o saco. Restava apenas ficar chorando de raiva e de vergonha no meio dos bebuns de botequim.
Tal foi a gloriosa vingança da ralé sobre o poder, da Maria Fumaça sobre o guarda-civil Godofredo Gomeleira.

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2 comentários :

Luciana Horta disse...

Voltarei para ler os capílulos anteriores!

Bom final de semana!

Luciana (Catadora de Palavras)

Viiii disse...

Essa Maria Fumaça não era filha de gente! :O