quinta-feira, 6 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 7














CAPÍTULO VII
Um sábado no Estácio;
eu descansava carregando pedra,
almoço de frango suspeito,
estupidez de papai.



Toda vez que chega sábado, ainda hoje tenho uma sensação desagradável de fadiga; era o dia da semana em que eu encontrava tempo para a obrigatória tarefa de lavar roupa. Naquela época não havia as facilidades que as donas de casa têm hoje, como máquinas de lavar; tudo era lavado à mão, e a gente achava um grande progresso ter água encanada.
Num sábado desses da vida, debruçada sobre o tanque a esfregar com sabão uma cueca do meu irmão, senti um cheiro de queimado; pensei que fosse o fogão-à-lenha, virei-me e, por surpresa, dei de cara com Maria Fumaça a fumar seu cachimbo com um sorriso pouco discreto de zombaria. Falei-lhe: “Menina, vai fazê tuas macumbas em outra freguesia.”, e ela: “É isso memo, vou pros arcos. Por que você nunca mais apareceu por lá?”. Eu expliquei que estava namorando um rapaz muito sério, queria arrumar um casamento, não poderia decepcioná-lo com orgias noturnas no Largo da Lapa. “Tá bom, Antônia, já vi que você nasceu pra ficá lavando cuecas...”, ridicularizou-me. Perguntei se ela dissera aquilo por ciúme ou por inveja. Minha amiga se enfezou: “Inveja é claro que não, caralho! Agora, ciúme? Tá me chamando de sapatão?”. A fim de voltar ao meu afazer, resolvi pôr um fim na discussão, dizendo: “Maria, as vidas são sempre diferentes umas das outras. Você sabe o que quer, e eu sei o que quero. Cada qual que cave o seu.”
Nesta visita, Maria trouxera um frango (cuja procedência não precisou esclarecer); o assamos e comemos no almoço.
Sou obrigada aqui a dar conta deste fato: Maria Fumaça comendo era um atestado de indigência. Logo que o frango foi posto à mesa, ela avançou nele arrancando-lhe as duas coxas de uma vez. Alternava mordidas entre uma coxa e outra, quando disse de boca cheia e derrubando saliva na toalha: “Melhor do que uma merda dessa, só pão com meleca... Mas cadê a cachaça?”. Meu pai não bebia, nem tolerava a entrada de bebidas alcoólicas em nossa casa; também não tolerava a Maria Fumaça, uma afronta ambulante às famílias direitas do Estácio de Sá. A um salto pondo-se de pé e exalando macheza por tudo quanto era buraco, berrou papai: “Olha aqui, sua fedorenta, pega esse teu frango e vai terminá de comê ele no botequim que é lugar de ter cachaça para desocupadas feito você!”
Na verdade, meu pai invejava Maria Fumaça; ele era daqueles que ocultam de si mesmos a própria opinião idiota de que, para ser macho, o homem tem que beber cachaça. E ele não agüentava beber. Por isso enfureceu-se tanto e espinafrou Maria, tocando-a de casa.
Tola demonstração de autoridade..., uma temeridade, posso dizer; até parece que papai não conhecia minha amiga de infância. Realmente, ela só não fez um estrago lá em casa porque o otário valente desta vez era meu pai, digo meu, entenda-se. Mesmo assim, Maria não deixou muito barato: “O senhor é que faça o favor de pegá esse frango e enfiá no rabo! Antônia, outro dia nos encontramos, perdi a fome, vou embora.”
Ela saiu de nariz empinado, porém levando as duas coxas que estava segurando.
Maria Fumaça era besta, mas não era burra.
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