quarta-feira, 5 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 6











CAPÍTULO VI
De volta à ativa;
erro ao interpretar preto-velho,
surge um mito do jogo
na Lapa.



Maria Fumaça pouco se importava com a maneira de ganhar a vida; na verdade, não constava entre suas preocupações o justo ganho da vida; creio que nem com a vida ela se preocupava. “Maria Fumaça só achava graça na própria desgraça”, diria Noël Rosa.
Minha querida e maldita colega saiu do distrito policial ainda mais raquítica do que quando entrou, se possível era isso. Tão jovem, já tão feia: cabelo curto mal cortado sempre em desalinho, dentes todos cariados a ensejar terrível mal hálito, magra seca de pele e osso; um trapo de gente, mas valente; valente ao ponto da ignorância; e ignorante ao ponto da santidade. Maria Fumaça era um milagre personificado, sua existência por si só contrariava as leis da Física; por exemplo, com ela não tinha apenas Ação e Reação; tinha Ação, Reação, Vingança e Tripudiação. O guardinha Godofredo Gomeleira que se cuidasse...
Livre, novamente na rua, nossa doida Maria Fumaça retorna ao Largo da Lapa.
Não que ela estivesse preocupada em ganhar dinheiro, este vinha como uma singela conseqüência de sua diversão: a trapaça, o roubo, a ilegalidade. Com a morte do Marcos Cavaquinho, ela não encontrou mais quem consentisse em dividir o palco com suas mímicas grotescas; na verdade, grotesca era tão somente sua aparência. Certa feita na macumba, escutou de preto-velho: “Ahn ahn, misinfia, teu futuro há de se encontrá nas carta”, dando a entender que ela deveria procurar alguém que lesse sua sorte nas cartas do tarô. Maria, porém, entendeu mui bonitamente que a jogatina é que ia lhe dar futuro como sua verdadeira vocação e arte neste pervertido mundo de Deus.
Entregou-se ao baralho.
A derrota não entrava na concepção de jogo dela. Maria jogava, é bem verdade, por mera diversão; mas aí é que está: jogava apostando dinheiro, e perdê-lo não lhe parecia uma diversão. Convenhamos, neste ponto Maria Fumaça tinha razão. Por isso trapaceava descaradamente, e ganhava ao risco da própria vida. Ora, jogava com malandros da Lapa, malandros que constituíam a parte perigosa da ralé.
Chegou a tirar da boêmia jogatina mais dinheiro do que eu na fábrica com trabalho honesto. Teria ela razão? Sei lá... Parecia satisfeita. Danada!
Pois é, Maria Fumaça lograva ser mais malandra do que os malandros homens. Fez fama sob os Arcos da Lapa, era a “imbatível”, um desafio para pouca esperteza e muito dinheiro, desafio para otários incautos. A malandragem a evitava, mas toda noite aparecia um mais alegre para desafiá-la no cartiado.
Anos a fio, tal foi a sorte de Maria Fumaça. Bendito preto-velho...
Eu, por meu turno, admirava minha amiga, mas reconhecia que nunca alcançaria sua esperteza de estado-de-graça. Então, passei a estudar à noite e namorar aos domingos. Morrer solteira e analfabeta? Jamais!

.

4 comentários :

Marcos Satoru Kawanami disse...

eu não sou escritor nem puta.

sou garçon.

Marcos Satoru Kawanami disse...

o que, pensando bem, dá no mesmo...

Adriana Godoy disse...

Olha só, essa Maria Fumaça tá demais, tirante "seu cabelo curto mal cortado sempre em desalinho, dentes todos cariados a ensejar terrível mal hálito, magra seca de pele e osso; um trapo de gente" o rsto é uma beleza só...muito bom, Marcos, aguardo o próximo texto. Bj

Viiii disse...

Também concordo com a amiga da Maria Fumaça (que não me lembro o nome - já foi mencionado?), solteira e analfabeta realmente não dá, kkk!