terça-feira, 4 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 5





CAPÍTULO V
Lembrança de um funeral;
seu vigário pecador, defunto molhado;
enfim, cadeia.


Morto o nosso querido amigo, nada mais restou a ser feito: o que se pode fazer por um cadáver?, a carcaça do ser-em-si, um envólucro orgânico que retorna à condição de matéria bruta. É estranha essa lenga-lenga de compaixão pelos finados e medo da morte; se antes de nascermos houve uma eternidade na qual não éramos da mesma forma que não seremos depois de mortos, o medo de morrer só se explica pela ânsia de concretizar projetos, mas ocorre que sempre queremos mais; por quê?; nesse ponto o instinto supera pujantemente a razão.
Bem, ainda que ao defunto fosse tudo indiferente, a comunidade do Estácio solidarizou-se em proporcionar-lhe um enterro decente. Maria Fumaça é que, plena de boa intenção, pôs tudo a perder. Veio a calhar precisamente o dístico de que o Inferno está cheio de boas intenções.
Apesar de ser a urbe bandeirante a que leva o título de Cidade da Garoa, no dia do funeral de Marcos Cavaquinho era a carioca urbanidade que se deixava banhar por fina e perniciosa garoa. A Natureza chorava sua morte, como quereriam dizer os românticos. Ismael e mais três homens carregavam o caixão, seguidos por pequeno mas seleto cortejo (a fina flor da ralé carioca e duas velhas e desdentadas carpideiras, as quais se revezavam mui profissionalmente na arte de chorar pelo falecido). Logo no começo do trajeto rumo ao cemitério, Maria Fumaça teve sua idéia alcandorada. Estávamos nós passando em frente da igreja Nossa Senhora da Piedade quando ela, de queixo inchado, anunciou: “Turma, olha a igreja aí! Seu vigário tem que abençoar nosso defunto.”. A infeliz foi dizer isto para quê?... Fomos barrados na porta. O pároco não queria abençoar “sambista encrenqueiro morto em briga de pecadores”. “Pecador é Vossa Santidade o cu da mãe! e lá vai a primeira pedra!”, gritou Maria Fumaça, derrubando seu vigário com uma pedrada certeira na testa. A infeliz foi fazer isto para quê?... O impertinente guarda-civil Godofredo Gomeleira, que acompanhava-nos de longe louco por uma arruaça, precipitou a distribuir cacetadas a torto e direito debandando o cortejo; o caixão se espatifou no chão, e Maria foi levada presa ao distrito policial. É claro que o Marcos nem se incomodou; ficou ao léu, de boca escancarada e com os braços e pernas ligeiramente afastados tomando garoa na rua deserta.
Que baixo! Que decepção eu senti... se bem que não deveria; nada eu tinha de estranhar neste proceder de Maria Fumaça, considerando minha longa convivência com ela.
Depois, voltei com Ismael, e providenciamos um improviso de enterro rápido para o Marcos Cavaquinho.
Lembro, a pesar de tudo é bom lembrar..., parece que foi ontem aquela garoazinha chata a encharcar meu vestido preto.
Maria Fumaça passou um mês no distrito lavando assoalho para o seu querido guarda Gomeleira, o “Santo Homem”.
Bem feito!
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