segunda-feira, 3 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 4



CAPÍTULO IV

A parceria com o músico;
roubo de samba e briga com
um malandro,
silencia-se o cavaquinho.



A fim de conduzir Maria Fumaça a uma vida normal, eu tentei arrumar-lhe um emprego na fábrica de tecidos. Seria bom, trabalharíamos juntas. Apresentei-a ao gerente que, apesar de ter feito reparo na má aparência dela, aceitou contratá-la. Numa atitude impetuosa e besta, bem ao seu conforme, Maria Fumaça comemorou mamando uma garrafa de cachaça e batucando a noite inteira pelos botequins da Avenida Central. De manhã, bati em sua porta a caminho do trabalho; não obtendo resposta, acreditei que ela já havia rumado para a fábrica; lá chegando, verifiquei o contrário: a desgraçada dera-se o luxo de faltar ao primeiro dia, entorpecida de pinga na idéia. Não careceu comparecer no dia seguinte, o gerente foi inflexível: “A nobreza não precisa trabalhar, e a fábrica, portanto, não precisa da nobreza. Diga à sua colega que ela é nobre demais para se rebaixar ao trabalho.”
Todavia, sem trabalho não se ganha dinheiro honestamente, e sem dinheiro ninguém vive nem vivia naquele Rio de Janeiro. Pois Maria Fumaça descobriu um jeito de sustentar-se sem realmente trabalhar, ao menos sem um serviço regular. Fome não passava, continuou roubando galinhas. Dinheiro para as despesas e para gastar na boemia veio da própria boemia. Se antes bebera para comemorar a contratação, bebeu também depois para amargar a demissão. E já totalmente embriagada à custa do meu dinheirinho, estando a gente num cabaré da Lapa, subiu no palco o Marcos Cavaquinho a tocar e cantar. Maria Fumaça se animou ao som estridente do cavaco lembrando, talvez, da noitada no Mangue; levantou-se e começou a fazer uma mímica caricatural da música. O público gostou, a cena se repetiu com as canções seguintes, ao final das quais minha amiga, que jamais vacilava por qualquer vintém, estendeu o boné para receber espontâneas e generosas gorjetas. Esta parceria com Marcos Cavaquinho passou a ser o ganha-pão de Maria Fumaça. Isto até chegar a vez da navalha.
Confusão e conflito, no sentido violento destas palavras, eram uma constante em Maria Fumaça; gratuitamente poderia desafiar e provocar qualquer infeliz com uma baforada de fumaça na cara pelo simples motivo de não simpatizar com a dita cara. Coisa que não se deve fazer. Por conta disso ganhou uma cicatriz no queixo e perdeu um amigo, ou melhor: perdemos um amigo. Naquele tempo, alguns malandros estavam começando a armarem-se com revolver, mas em primeira instância dispunham da navalha. De modo que, tirando satisfações numa discussão, Maria Fumaça quase teve o queixo arrancado a navalhada, e o pobre-diabo do Marcos Cavaquinho recebeu um golpe mortal no pescoço. Tudo por causa do roubo de um samba. Um malandro pediu que o Marcos cantasse um samba inédito de sua autoria; tendo aprovado, fez com que o compositor o repetisse várias vezes enquanto outro malandro, atrás do Marcos, anotava a letra e memorizava a melodia. Era um truque comum, mas nosso amigo tinha vocação para trouxa, e caiu feito um pato. Percebendo o esquema, Maria Fumaça deu a famosa baforada na cara do ladrão de samba, dizendo: “De nós quatro aqui, tem três otários: meu amigo, teu amigo e tu. Dá o fora, ou o pau vai quebrar!”
O pau quebrou. Maria conseguiu se safar a tempo, mas o Marcos dançou... Para sempre o cavaquinho silenciou.

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NOTE BEM: Depois que o ministro da saúde comentou que sexo faz bem, minha mulher se recusa a forunfar comigo. Será que ela está querendo que eu morra logo, ou arranjou um amante? Tomara que esteja querendo que eu morra logo...
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