domingo, 2 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 3






CAPÍTULO III
Do hospital para o Mangue;
uma toada romântica,
Marcos Cavaquinho, o cabaré,
uma paródia.




Creio que depois de velha, com muitos anos de janela, eu possa conceder-me o direito de dizer algo sobre a vida. Se não me engano, existem dois tipos de boêmios: os que saem na noite singelamente para brincarem igual crianças, e os que saem, sabendo ou não, movidos por um instinto às vezes camuflado, que essencialmente é a busca de sexo. O álcool é quase uma fatalidade: se uns o bebem por prazer do vício, outros bebem pela busca de prazer frustrada. A esses boêmios é que se deve a ascenção e decadência do esplendoroso Largo da Lapa até finais da década de 1930. Amiúde freqüentavam a Lapa artistas populares do calibre de um Orlando Silva, que iam gastar e ganhar dinheiro em recintos como o Cabaré Apolo. Neste cenário, uma figura obrigatória foi o músico Marcos Cavaquinho, outro miserável sobrevivente do Estácio que agora ingressa no meu relato.
Maria Fumaça tardava em receber alta no hospital... três, quatro, cinco dias, e nada. Impacientei-me. No sexto dia, saindo eu da fábrica de tecidos onde trabalhava, sou surpreendida pelo Marcos Cavaquinho a me esperar junto ao portão com seu inseparável cavaquinho embaixo do braço, encolhido com toda a timidez de seus raquíticos dezoito anos de rapaz judiado: “Antônia, eu fiz uma canção para você. Pode ouvir?”, ao que respondi: “Tá bom, mas agora estou indo pro hospital. Venha comigo, você vai me ajudar, é hoje que eu tiro Maria Fumaça daquela porcaria!”. Eu tinha surrupiado um jaleco de pano branco da fábrica, o qual cairia bem demais na pessoa do Marcos para fantasiá-lo de médico, pois os peculiares sapatos e calça branca de sambista ele já estava usando. Meu plano, em primeira instância, era eu mesma me vestir de enfermeira a fim de conduzir minha amiga para fora do hospital, contudo, já que um homem me acompanhava, vestido de médico ele imporia mais autoridade para o plano dar certo. Lembrando depois de tantos anos, atino que o plano tinha tudo para falhar com um rapazola ridículo vestido de médico. Mesmo assim, deu certo. Eu fiquei na portaria segurando o cavaquinho, enquanto a nossa caricatura de médico se embrenhava pelos corredores do hospital à cata da Maria. Em dez minutos aparece um guarda e um enfermeiro arrastando para fora o tonto do Marcos que, em vez de se explicar, gaguejava. Percebendo que o iam levar para o distrito policial, eu me pronunciei em seu auxílio: “Pega leve, pessoal! Nós só viemos buscar uma amiga, porque vocês parecem ter esquecido ela perdida aí dentro.”. O enfermeiro perguntou de quem se tratava; eu disse que era a mulher da tentativa de suicídio lá no Estácio. Nisso, o enfermeiro se exaltou de certa forma aliviado: “Ah!, a Maria Fumaça, aquilo não é mulher... é mais macho que eu! Ateou fogo na cama gritando que estava perdida no mundo, e precisou de cinco homens para impedi-la de incendiar o prédio inteiro. Pensamos que era caso de manicômio, já íamos chamar o pessoal da Praia Vermelha, mas, se vocês se responsabilizam, podem levar por favor.”
Na rua, já livre das ataduras que a prendiam, Maria Fumaça em altos brados desembestou a metralhar contra o hospital sua coleção de palavrões, o que chegaria a levar o resto do século XX se não fosse a intervenção de Marcos Cavaquinho convidando-nos para ir ao Cabaré Apolo, onde ele deveria se apresentar em alguns números musicais naquele dia: “Você vai ouvir a sua canção em primeira audição!”, disse-me. De onde estávamos até a Lapa era um bocado de chão; na celeste abóbada, a Lua havia usurpado o trono do Sol; assim, tomamos um bonde rumo ao nosso destino; desta vez, sem calote, o Marcos pagou.
O cabaré estava lotado, Benedito Lacerda se apresentava, casais dançavam no salão, nós estávamos chegando atrasados mas o povo alegre nem reparou. Em breve, silenciada a flauta do outro, Marcos Cavaquinho subiu no tablado e me dedicou uma toada assim:

Antônia, linda menina
Da brasileira nação,
Reluz de tanta alegria
Que tem no seu coração.

Ai ai, ai ai...
É doce a minha paixão!

Eu tive a felicidade
De vir no Estácio morar,
Pois nessa grande cidade
De Antônia é o lugar.

Que o sentir que aflorou
Em minha alma persista,
Pois sei que se confirmou
Em nossa primeira vista.

Decreto agora uma lei
Que vale só para mim:
Eu esquecer nunca hei
Sua ternura sem fim.

Ai ai, ai ai...
É doce a minha paixão!

Foram os únicos versos que alguém me dedicou. Coitadinha de mim? De modo algum. Cada qual dá o que pode: Marcos deu-me versos pueris, meu marido deu-me austeridade; aos dois dou minha saudade.
Escutando a toada, Maria Fumaça deu muitas risadas só mesmo compreencíveis para quem compreendia a perversão ímpar de sua mente. Ao final das apresentações todas, ela propôs: “Agora vamos cair no Mangue, é minha vez de cantar!”. “Como assim?”, admirou-se o Marcos, “Na zona de prostituição, as únicas mulheres que entram são as putas.”. “Toda mulher é um pouco puta.”, concluiu Maria Fumaça, e eu emendei: “Toda mulher é, menos eu e você, ora essa...”. Todavia, fomos: “Eu quero ver o Marcos comer alguém.”, intimou Maria Fumaça.
Na minha companhia, Marcos não teve coragem de catar uma prostituta; porém, numa das casinhas do Mangue, acompanhou ao cavaquinho a paródia da sua própria toada cantada por Maria Fumaça, uma coisa meio besta e pervertida bem ao talhe dela. Tento, e o pior é que consigo reconstituir de memória a maldita paródia pertinente à minha própria pessoa:

Antônia era do norte
Do interior do sertão;
Vivia sempre alegre
No meio da amplidão.

Ai ai... ai ai,
Aquilo que era bão!

Um dia esta menina
Desatou a lamentar
Queria ver a cidade,
E foi pro Rio morar.

Faz hoje um mês que a Antônia
Conheceu o João Leitão
No morro lá do Alambique,
E viu o que era bão.

Antônia toda acanhada
Entrou no seu barracão;
No meio da madrugada...
Antônia deu pro Leitão!

Ai ai... ai ai,
Aquilo que era bão!

Foi assim a feliz saída de Maria Fumaça do hospital, sobrevivendo ao suicídio por ingestão de potassa, quase indo parar no hospício da Praia Vermelha, e varando a madrugada na zona do baixo meretrício.
Glamourosa Maria Fumaça!

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