sábado, 1 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 2





MARIA FUMAÇA


CAPÍTULO II
Maria Fumaça vai à luta;
o jogo-do-bicho, o conflito,
o veneno.




Maria Fumaça começou a ganhar a vida honestamente, na contravenção. Cuidava de um ponto do jogo-do-bicho numa vizinhança próxima ao Estácio. Isto até o dono do ponto descobrir que ela era do sexo feminino, pois esse detalhe em sua anatomia extra-terrestre não era uma coisa muito óbvia. Ficava sentada ao rés do morro do Valongo com o cachimbo apagado sempre na boca, de boné, calça de homem e um paletó ensebado, exatamente onde ainda hoje fica o ponto do bicho do bairro da Saúde, exatamente alí: quem disse que só inglês gosta de tradição?
Este primeiro e último emprego decente da minha amiga durou pouco, duas ou três semanas talvez; eu já trabalhava numa fábrica de tecido, mal lembro como foi; só sei que não tem nada de mais uma mulher recolher as apostas dum jogo tão inocente, mas o bicheiro achava que pegava mal junto à concorrência, os outros bicheiros poderiam zombar dele, achar que estava afrouxando: “Não, não pode ser, nunca... jamais! Quem foi que disse que a fuleira da Maria Fumaça trabalha pra mim?”, teria dito. “Mas, chefe, ela ganhou a simpatia dos apostadores. Parece homem, mas é mulher, agrada a gregos e troianos.”
É, o chefe nem era grego nem troiano, Maria Fumaça nem era homem nem mulher, anulava-se na sociedade, teria que voltar à sua criminosa vida pregressa: o furto de galinhas. Enlouqueceu, achava ridículo o modo de ser das mulheres, eram todas “putas vaidosas” que se vestiam como um embrulho de presente e se pintavam feito palhaço; por outro lado, ela nascera fêmea e nunca seria um homem ou mais que um corpo estranho na sociedade. “Antônia, o que sou eu?!”, perguntava-me; e eu, sem encontrar resposta melhor, dizia-lhe: “Você é a Maria Fumaça.”
Creio que foi por essa época que sua mãe morreu cuspindo os bofes, a tuberculose matava a doidado. Minha pobre amiga ficou sozinha no mundo; se é que aquela figura mitológica tinha pai, nós nunca o vimos. Sem conseguir emprego em lugar algum, pediu-me dinheiro emprestado; depois fiquei sabendo que comprou potassa e bebeu. Bebeu um gole insignificante de uma solução muito diluída, e fez um escândalo; arrombou a porta da casa, rolou pela escada que dava acesso à rua, e saiu aos berros se contorcendo com os olhos esbugalhados. No meio do percurso, aproveitou para se vingar de alguns de seus numerosos desafetos quebrando vidraças, chutando cachorros, distribuindo cascudos na molecada, e finalmente passando uma rasteira no guarda-civil Godofredo Gomeleira, seu inimigo número um e, na verdade, um fariseu por demais sacana, embora seu vigário o tivesse em alta conta chamando-o de “Santo Homem”.
Encontrada moribunda, minha amiga foi internada no Hospital São Francisco Xavier. A desgraçada era uma praga até para morrer.
O bairro inteiro ficou sabendo. Muita gente quis ir visitá-la no hospital, menos por compaixão do que pela ansiosa e frustrada expectativa de ver o tão conveniente fim de Maria Fumaça.

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4 comentários :

Paulo Vitor Cruz disse...

grande maria fumaça... mto bacana a história dela..

Viiii disse...

Maria Fumaça definitivamente nasceu com uns neurônios a menos, rsrs... Mas então, o que houve depois?
Ouvi dizer que vazo ruim não quebra!!!

Adriana Godoy disse...

Muito legal sua história...essa Maria Fumaça é das minhas...bj

Mirse Maria disse...

Marcos!

Eu não sabia que eram capítulos.

Vou ler todos. Este está o máximo. Gosto de pessoas assim. Ela podia até ser louca mas era verdadeira.

Amei!

Beijos

Mirse