quinta-feira, 13 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 12








CAPÍTULO XII - FIM
A guerra; a Captura;
a partida; o fim;
um amigo que fez o favor de escrever
para descanso da minha caligrafia ilegível de velha.


Ah, sim, claro! Houve uma segunda e última vez em que Maria Fumaça esteve em minha casa. Foi fugindo da tal da Captura.
Era o tempo da Segunda Guerra Mundial, estava feia a coisa. De primeiro até que não, o povo nem sentiu: o presidente Getúlio Vargas, que se agarrava e se rebolava no poder havia quase quinze anos, foi astutamente tirando vantagem da guerra, ora pendendo para o Eixo, ora pendendo para os Aliados. Mas quando a Alemanha (dizem) resolveu afundar uns navios brasileiros, aí o caso encrespou; declaramos guerra à Alemanha, à Itália e ao Japão; a colônia nipônica já era numerosa em indivíduos no estado de São Paulo, e, pela patente distinção étnica, estes imigrantes eram facilmente identificados por todo mundo, e comeram o pão que o diabo amassou..., crianças japonesas eram surradas nas ruas, adultos eram presos, e seus domicílios e estabelecimentos comerciais eram invadidos até mesmo a cavalo pelo exército; isto, ao mínimo pretexto. As guerras engendram tanto crime: exemplo é a injustiça que se cometeu contra este povo que tanto deu de seu esforço em benefício do Brasil.
A população civil urbana em geral sofreu privações, principalmente devido ao racionamento de alguns produtos alimentícios como açúcar e farinha de trigo. No clima de insatisfação que se verificava, o ditador Getúlio Vargas via-se na contingência de reprimir algumas manifestações contra o governo; esta repressão era feita pela “Captura”, a lendária polícia secreta que punha medo na gente.
Maria Fumaça que, quando não procurava confusão, a confusão a procurava, esteve também fugida da Captura. Foi se esconder lá em casa outra vez, e agora com a presença do meu marido e da minha primeira filha ainda pequena! E era da polícia que corria. Que fuzarca...
A besta estava em pleno exercício da vadiagem na Avenida Rio Branco, quando viu aquele bando de rapazes engalanados no seu garbo varonil a fazer uma passeata contra a ditadura. Que maluquisse! Getúlio gostava sim do poder, mas creio que sempre gostou de seu país, era um patriota certamente. Porém a rapaziada queria agitar o pedaço, e a Maria, vendo naquilo uma bela patuscada, estava com a faca e o queijo na mão. Engajou-se na marcha, e a cada grito de “fora Getúlio!”, gritava sua boca pervertida: “fôda o Getúlio!”.
Sem muito demorar, a cavalaria desbaratou os manifestantes, tudo se desintegrando quase ao nada. Mas minha amiga, bem visada pelos observadores secretos em conseqüência dos despautérios que gritava, provavelmente teve sua fotografia fichada nos arquivos da Captura. Tentaram prendê-la primeiramente no cais do porto, depois no botequim, depois no carnaval, depois no bonde, depois no morro, enfim, na minha casa; mas, e é que conseguiram? Nada! Maria sumia tal qual a fumaça.
Então meu marido disse: “Tudo bem que você seja amiga de infância da minha esposa, e eu também seja a favor da democracia (você sabe o que é isso?), mas nós temos criança pequena em casa; aqui não é esconderijo; então, você vem comigo para onde estou partindo numa viagem de negócios.”.
Eles foram. Pegaram um trem na Central.
Nunca mais soube dela.
Meu marido, ao regressar, disse-me apenas que Maria Fumaça ficara numa estação no meio do caminho para Ouro Preto, estado de Minas Gerais. Disse-me também que, no fundo, ela não era má pessoa. Acredito.
Aqui encerra-se meu relato das aventuras e desventuras de Maria Fumaça, que hora mergulha na posteridade, e, sem a comprovação de sua morte, como que ascende ao céu, e acomoda divinamente o seu traseiro no Olimpo Eterno da Desmesura, ao destro lado de Baco.
Por finalizar, agradeço estimadamente à prestimosa atenção deste meu amigo que fez o favor de escrever o que eu lhe ditava para descanso da minha mão já sem força. Ele, a meu pedido de manter-me incógnita, é que há de assinar estas memórias.

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