quarta-feira, 12 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 11




CAPÍTULO XI
Maria Fumaça apronta
uma molecagem para cima dum marinheiro, e se refugia
na minha casa.


Memorável foi a vez que Maria Fumaça viu-se na contingência de permanecer por três dias escondida em minha casa sem o reboliço a que ela estava acostumada. Foram dias de inquietação pela necessidade de ficar quieta.
Ao longo de nossa vida conjugal, meu finado marido galgou uma posição social privilegiada, permitindo à nossa família até certas regalias de conforto. Porém, seu começo foi o de um humilde livreiro itinerante, uma espécie de caixeiro-viajante muito comum naqueles tempos. Sua rotina exaustiva era caminhar a cavalo de déu em déu, batendo de porta de fazenda em porta de fazenda pelas plagas interioranas fluminenses a vender livros, num tempo em que livro ainda era considerado e bem quisto como mídia. Sabe-se que a grande ignorância pode significar felicidade; meu marido, contudo, acreditava que o grande conhecimento era que dava felicidade; dizia que tinha que ilustrar a “caboclada ignorante”, e passava a semana toda fora espalhando livros pelas estradas. Numa dessas ausências dele é que Maria Fumaça aproveitou para se esconder em nossa casa e salvar a sua pele.
Havia chegado ao porto um navio estrangeiro do qual desembarcou um marinheiro meio “brucutu”: forte, mal-encarado, e ignorante no sentido de ignorar as normas civilizadas de convívio, enfim, um brutamontes perigoso. Muito afeita ao perigo, Maria Fumaça teve logo sua atenção voltada para o marinheiro que, segundo ela, impressionaria qualquer um mesmo que fosse apenas pela altura e corpulência. Imagine-se, Maria Fumaça impressionada por um homem..., mas não, claro que era somente curiosidade; além do mais ele mostrava total desconhecimento de nosso idioma, o que deu ensejo a nova maquinação pervertida na mente doida e cheia de besteira da Maria. Assim, subtraíu do infeliz considerável valor pecuniário com um inocente joguinho de cartas, durante o qual foi ensinando-lhe o baixo calão da língua portuguesa e curiosas noções de anatomia qual designar por bunda o que usualmente chamamos de cabeça (obviamente uma total e discrepante inversão de valores, mas que, tratando-se de quem trata este relato, torna-se uma coisa até previsível e quase nada extravagante).
Bem, depois de perder bastante dinheiro e aprender que bunda significa cabeça em português, o avantajado marinheiro, inconsolável com as apostas perdidas, desandou a encher a cara de cachaça, e reclamava em voz alta: “Oh, que dói no bunda! Dói muto meu bunda...”. Os brasileiros presentes à cena do gringo não agüentaram muito tempo e logo caíram na gargalhada. Ora, a gargalhada é linguagem universal, o marinheiro percebeu o ridículo e se enfezou com Maria, partindo para cima dela. Foi uma correria. O brutamontes sapecava quem lhe estivesse na frente, e Maria se embrenhava onde mais tinha gente; o resultado foi uma baita pancadaria que minha amiga não quis pagar para ver: foi parar lá em casa ainda de madrugada. Eu ainda não tinha filhos, e meu marido estava viajando, de modo que a solidariedade pôde falar mais alto em nome da velha amizade infantil.
Maria ficou em minha casa por apenas três dias a fim de o seu querido marinheiro não a encontrar na casa dela e sumir de novo no Atlântico. Na confusão da fuga, porém, ela deixara cair da boca o cachimbo, fato este que fez aqueles breves três dias render uma eternidade. Eu bem que quis comprar-lhe outro cachimbo, mas o pudor feminino me impedia: onde já se viu uma senhora de família sair à cata de cachimbo e fumo? E também seria melhor ninguém ficar sabendo do paradeiro de Maria Fumaça.
Foram dias de inquietação para nós duas. Ela me seguia aonde quer que eu fosse na casa a fazer-me perguntas indiscretas sobre a vida conjugal: “Como foi a primeira noite?...”. “Vai saber disso com teu Santos Dumont, vai.”. “Me disseram que ele morreu.”. Ela se sentia viúva, coitada; nesse ponto Maria Fumaça tinha um pouco de santa.
Quando deixava de lado as perguntas, punha-se a riscar fósforos um atrás do outro, e, quando não era isso, era rasgar meus panos-de-prato e assim por diante que nem lembro mais. Francamente, o vício escraviza até as pessoas de índole mais indomável.
Passado o sufoco, tudo voltou à serena rotina de afazeres domésticos em meu lar, e de excelsa vadiagem no cais do porto.
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2 comentários :

Mirze Souza disse...

Desde o começo, eu já achei que ela tinha mais de santa do que de outros adjetivos.

São para esses que vem o Reino de Deus.

Beijos

Mirze

Viiii disse...

Às vezes me pergunto se existem mais Marias Fumaças espalhadas por aí... Um tipinho de pessoa no mínimo curioso, né?
abraços