terça-feira, 11 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 10




CAPÍTULO X
Adeus Lapa boêmia;
um delegado da moralização,
retirada para o cais do porto,
versos nostálgicos.


Depois que me casei, afrouxou-se definitivamente meu convívio com Maria Fumaça; restaram estas boas(?) lembranças que aqui vou dando fé em conformidade com a singela beatitude recomendada pela iconoclastia das pertinentes convenções da moral e dos bons costumes.
A falar de moral, por aquela época apareceu um doutorzinho delegado que resolveu “moralizar” a Lapa fazendo as coisas mais ridículas. Proibiu a música e o consumo de bebidas a partir da meia-noite, proibiu o jogo, e proibiu as mulheres; ou seja, proibiu a vida na Lapa, e o bairro morreu. Maria Fumaça viu-se assim obrigada a encontrar outro reduto para sobreviver sem suar a camisa, e transferiu a jogatina noturna para o cais do porto. Para lá foram também prostitutas que não encontraram mais um lugar adequado como o Mangue que estava sendo demolido. Não que Maria Fumaça fosse uma delas, mas sentia-se bem à vontade no meio da putada, conforme ela mesma gostava de chamar o conjunto de putas. No meio delas se sentia a mulher que jamais seria, e o homem que sonhava ser.
As coisas se ajeitaram, mas foi uma fase de nostalgia e decadência. Guardo até hoje um recorte de jornal que celebrou a extinção da boemia romântica nos arcos. Trata-se de uma suposta letra de samba cujo autor preferiu o anonimato ao desconforto com a polícia. Eis que aqui a reproduzo:


E o Largo da Lapa?

Descendo o Morro de Santa Teresa
No bonde que parece uma carroça
“Coisa nossa, muito nossa”...
Passando pelo aqueduto, desolado,
Relembro a Lapa do passado,
Passado que então vivi
Num sonho colorido
Que neste samba sentido
Vou lembrando para mim e para ti.

Na Lapa se criou Wilson Batista
Cumprindo a sina de ser artista
A fazer polêmica danada
Com o insuperável Noël.
E sem nunca ter hora marcada,
Do Estácio sempre chegava Ismael.
No meio de tantos bambas
Dava-se o apogeu do nosso Samba!

Mas de repente do Cabaré Apolo
Não sobrou nem alicerce no solo,
Saindo nas revistas bem na capa:
Acabaram com o Largo da Lapa.
(e a Lapa sumiu do mapa)


Essa estória de moralização eu nunca engoli; os policiais sempre freqüentaram até o Mangue; o delegado estava é querendo mostrar serviço e aparecer. Neste nosso mundo, muitas vezes vale não o que é, mas o que parece. A Lapa acabou, mas os boêmios continuaram espalhados por tantos outros rincões da Cidade Maravilhosa.
E agora, Maria Fumaça?
E agora nada! Ela nunca foi de se preocupar. Foi levando.
.

6 comentários :

Adriana Godoy disse...

Eta! A boemia nunca acaba, ela só transfere de lugar. Gostei, Marcos da letra do "autor desconhecido", vê se pode? Maria Fumaça também não acaba nunca...beijo

Marguerita disse...

"Neste nosso mundo, muitas vezes vale não o que é, mas o que parece."
Uma certa boemia nos dá um ar de gente de verdade.

* tua irmã deve ser muito maluca beleza!
Admiro pessoas que não possuem medo de altura.
Os cânions pediam para que eu pulasse! Foi até engraçado desafiar meu medo.
rs!

Bjo

Erika Freitas disse...

Hoje dá até pena de ir na Lapa. Não é nem de longe o que era em seus tempo de pura boemia. Ai, que vontade de voltar no tempo e me acabar no samba na Lapa!

Marguerita disse...

Ri muito com teu comentário e acabei concordando!
Tudo depende da cabeça!

kkkkkkkkkkkkkkkkk

Marianna disse...

A Geografia vai indo bem, apesar de estar me estressando um bocado =P Final de curso é um nó. A vida por aqui anda bagunçada, mas já, já entra nos eixos... =D

Mirze Souza disse...

Boa estória!

Escreva um livro.

Eu comprarei.

Beijos

Mirze