sábado, 29 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 9

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 9



Conforme previamente referido, o Zé Ninguém ainda na infância verificou que furtava-se-lhe o vigor mental para em futuro próximo abraçar uma profissão ligada à pesquisa científica. Não resistiu. Buscava entanto a veleidade da glória, “vontade de força” que bole com o sossego das gentes.
Bem antes de ingressar na universidade, idealizava ele cursar jornalismo. Certificando-se, porém, que muitos jornalistas tinham outras e variadas profissões, apresentando graça no manejar a linguagem mesmo sendo eles advogados, engenheiros, médicos, e alguns sem qualquer formação superior, o Zé Ninguém fraquejou quanto ao jornalismo para estudar Astronomia.
Depois de formado, com o precioso canudo (diploma) de bacharel, aí quem sabe poderia também contribuir em algum jornal. Por enquanto, contentava-se em participar dum jornaleco fuleiro do Diretório Acadêmico, em que seus poemas eram bem-vindos junto com desenhos cômicos do Amigo da Onça, personagem do falecido cartunista Péricles da revista O Cruzeiro. Assim, dava continuidade a uma mania de tempos passados: ver qual era a safadeza que o Amigo da Onça aprontara na semana.
Sabe-se que a Ciência engendra grande surto de ateísmo nos meandros acadêmicos. Céticos foram Luis Pasteur, Karl Marx, Charles Darwin, e tantos outros. Por outro lado, seguindo a linha de Isaac Newton, que asquadrinhava as profecias bíblicas, o Zé Ninguém teve sua religiosidade incrementada com os estudos astronômicos. O estopim de tudo foi uma aula de eletro-magnetismo em que viu, na prática, como a força magnética agia mesmo no vácuo; ora, o nada permitindo interações era indício razoável de que as almas poderiam habitar este nada, após a morte. Analogamente, a força gravitacional agia no vácuo, e era a mais corriqueira na vida de qualquer um. Eis que o Zé Ninguém passou a contemplar os astros, enxergando lá em cima a prova da sua própria imortalidade...
No ônibus, a caminho do observatório, sempre viajava uma moça chamada Claudinéia, que atraía o olhar do Zé Ninguém. De início, vencendo sua timidez para com o sexo oposto, ele travou um esboço de diálogo, donde saiu ciente apenas que ela era funcionária da universidade, e deveria ser alijada de qualquer pretensão amorosa, porque tinha noivo. Achou o nome dela feio, mas achou o resto muito bonito. Certa feita, a formosa moçoila apareceu vestindo uma blusa preta toda pontilhada de ciscos cor de prata. Ah!, o Zé Ninguém não resistiu: ver aquele corpinho esbelto envolto em noite estrelada era notícia de primeira página. Inspirado numa canção de Noël Rosa e Ary Barroso, com a caligrafia de analfabeto imposta pelos solavancos do ônibus, escreveu:


Vestindo Estrelas?

Quando à noite olho as as estrelas
na abóbada celeste,
fico distraído ao vê-las,
a ver o que você veste.

E dos amores que tive
desde sempre até agora,
só um no meu peito vive,
que canta, dança e chora.

Seu vestido tem estrelas,
fico distraído ao vê-las,
tudo somente porque
sempre sonho com você.


Destacou a página do seu caderno, e a entregou à Claudinéia afobado e esbaforido pela ousadia. Onde já se viu? Ela era noiva comprometidíssima, ia se casar!
Fernando Pessoa é que sabia das coisas: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Foi a melhor atitude sentimental que cometeria em toda sua existência o Zé Ninguém. No mesmo dia, à noite, regressando das aulas, sua musa deu-lhe sorrindo um bilhete com os seguintes dizeres:


Seja Eterno

Deixe que o hoje se
Reflita no amanhã
Para que este dia
Seja eterno.

Refletindo amizade
Neste grande milênio
Para que neste dia
Sejamos eternos.


Claudinéia (no ônibus)


Valeu a pena! Talvez a “vontade de força” que o Zé Ninguém buscava fosse apenas vontade de afeto. E o afeto sincero de uma só pessoa vale a glória do mundo.
A bem da verdade, Claudinéia casou-se com o referido noivo. O pobre Zé Ninguém assistiu à cerimônia do casamento, da sua resignação cabal. Mas a amizade proposta nos versinhos imperfeitos da moça que vestiu estrelas fez-se fato.
Escuta, Zé Ninguém! Põe a vaidade da glória de lado, segura a tenra mão da amizade, e aguarda a vinda messiânica do amor. Se não vier, para que viver?
Mas tudo isso era apenas sonho. A amizade é um grande sonho, o amor é o maior dos sonhos.
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