sexta-feira, 28 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 8

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 8



Desde que o Zé Ninguém começou a freqüentar as partidas de futebol, Sócrates Clarimundo perambulava pelas cercanias daquele campo de várzea, e o mesmo hábito manteve anos a fio no tempo onírico que transcorria nos quinze minutos realmente passados desde a entrada do nosso paciente no Hospital da Glória. E a questão já era: quando a final Sócrates Clarimundo viria a cumprir sua promessa de lecionar? “Ah, meu amigo, sendo casado, pobre, e tendo filhos pra criar, sem um diploma primário sequer, minha vida nunca será compatível com o magistério. Nada vale meu auto-didatismo, o que vale nesta terra de bacharéis é uma folhazinha de celulose prensada com a inscrição da palavra diploma”. No fim das contas, nem todo o mundo nasce fadado às posições mais conceituadas. Sócrates, porém, era um talento, como tantos anônimos perdidos, castrado pela burocracia acadêmica. Nasceu pobre.
Com fortaleza, o mestre da várzea suportou a ingrata fatalidade, mantendo o ânimo sempre firme no afã de conciliar os estudos fragmentados com o suor da labuta, as palestras filosóficas junto à rapaziada com a fumaça das frituras.
Um dia, ele nutria especial expectativa pela visita do Zé Ninguém, revelando seu tique nervoso de estalar os dedos das mãos e o tornozelo direito; olhava rapidamente para todos os lados ao redor do campo, e andava em círculos já mancando por tanto estalar o tornozelo. Quando enfim se encontraram, foi enxugando a testa enquanto atropelava as palavras para comunicar ao amigo algo sinistro. Era o soneto em versos alexandrinos dedicado à Lindaura Risoleta: um estudante aparecera na várzea recitando-o decor e cobrindo-o de elogios. “Ótimo, mas minha antiga musa já o havia praticamente exposto em praça pública!”, ponderou o Zé Ninguém; ao que lhe retrucou o outro com os olhos fora da caixa: “O troço brabo é que me disse o moço que teu soneto foi escrito por José Régio, um português!”. Mistério... Mistério, não, novamente ignorância.
Cleópatra Rockefeller seguia lucrando desinibidamente com os poemas do Zé Ninguém, o qual não conhecia um suspiro de direito autoral, e remanescia na peculiar ignorância de prole-otário, ou melhor, proletário.
“E agora, Zé Ninguém?”. “Sei lá, há-de ser armação da Lindaura..., só pode”. “Só pode é o cacete. Estrela não carece de sol pra brilhar: a guria nem lembra que tu existe”. Mais uma frase contundente de Sócrates Clarimundo. E a dúvida imperava.
Perdeu noites de sono, aperreou-se deveras o Zé Ninguém até que o boato dos poemas com autor fantasma correu os bairros da cidade e chegou ao conhecimento das autoridades civis. Só então Cleópatra Rockefeller sentiu-se imersa até o pescoço no rio de lodo da contravenção. Como já tivesse clientela cativa no seu comércio à moda de Literatura de Cordel, não mais necessitava das assinaturas ilustres, e, despudoradamente como antes, continuou a vender a produção do Zé Ninguém, mas agora atribuindo-lhe a verdadeira origem. Claro que de pronto o bardo tomou conhecimento da tramóia, era bem ao talhe da irmã aquele procedimento ignóbil, mas, advertido pela apaziguadora mamãe Amélia, vislumbrou o benefício considerável que a empresa da irmã poderia trazer para seu projeto literário em prol do reconhecimento social que malograra com a ciência e a carreira militar. Vê-se que o Zé Ninguém ignorava os versos de Dorival Caymmi: “Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”. O próprio Caymmi desprezou o que cantava, tendo arrebanhado admiradores para sua glória, e riqueza para sua velhice. Em verdade, todo artista deseja alguma forma de glória, festiva ou silenciosa, opulenta ou gozando a modesta satisfação de contemplar o triunfo alcandorado que sua obra encontra no olimpo do reconhecimento.
O comércio dos poemas já devidamente atribuídos ao Zé Ninguém seguiu com a mesma fluência dos seus poemas por outrem assinados. Bom sinal. Deixai fazer, deixai passar!
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