quinta-feira, 27 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 7

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 7



O pseudônimo nada ocultou; nosso Grande Othelo panfletário foi imediatamente descoberto, acabou sendo quase um flagrante delito. Era de domínio público na comunidade escolar a fama de versejador do Zé Ninguém, desde o vilancete à Lindaura Risoleta, o qual ela saiu mostrando para meio mundo como prova da sua competência sedutora. Tanto que até aos ouvidos esclerosados da velha diretora chegou a notícia sobre a verdadeira autoria da ousada irreverência, mas o divino limbo da diretoria não se conspurcaria a ponto de ocupar-se com a preferência vocabular do Zé Ninguém. A questão foi delegada ao inspetor de alunos, Dr. Gaudêncio. É curioso que um simples inspetor desses ostentasse o título de doutor, mas nesta terra abençoada por Deus qualquer um que detenha certo poder, por insignificante que seja, já vai sempre sendo tratado por senhor doutor.
Zé Ninguém, intimado a comparecer à saleta do Dr. Gaudêncio, foi logo escutando: “Moleque safado!, que incontinência é essa de metedor e meter culhões nas paredes da escola?!”. Acompanhando um silêncio covarde, o silêncio do Zé Ninguém, derramou-se um suor frio pelas costas dele. Mas diante da ameaça de expulsão, ocorreu-lhe um argumento: “Excelentíssimo senhor doutor, toda pessoa humana do sexo masculino, do qual a propósito o senhor é um representante exemplar, bem, todo homem normal tem um culhão direito e um culhão esquerdo, que os anatomistas insistem em denominar de testículos; portanto o culhão é apenas o nome popular do que eu e Vossa Excelência carregamos entre as pernas, nada mais natural. E quanto ao ato de se meter, é graças a ele que minha mãe me pariu, e sua santa mãe lhe pariu”.
Escutando esta singela explicação, Dr. Gaudêncio hesitou entre três procedimentos, a saber: considerar seu interlocutor um débil mental; crê-lo momentaneamente privado do pleno gozo das faculdades mentais; ou assassiná-lo imediatamente em legítima defesa da honra. Preferindo a segunda opção, deu por finda a questão: “Olha rapaz, vê se esquece as anatomias, e volta aos versinhos de amor. Passar bem, pode ir”. Dr. Gaudêncio era moralista.
Moral é para quem tem tendências imorais, truculentas, cruéis. Mas quem tem índole inofenciva e civilizada pode viver perfeitamente sem conhecer as leis das condutas morais. Era o caso do Zé Ninguém, um beatíssimo amoral.
Amoral também era Cleópatra Rockefeller que ganhava dinheiro inescrupulosamente, de qualquer maneira dentro do código da confraria capitalista. A diferença para o irmão é que ela podia prejudicar a outrem e manter a mesma leveza de consciência do Zé Ninguém. Instigada pelo episódio do manifesto, Cleópatra Rockefeller bisbilhotou os pertences fraternos onde encontrou uma potencial mina de dinheiro, ou seja, os poemas que lá estavam guardados esperando o dia em que um espírito empreendedor os desse o devido respeito sob a forma de lastro-ouro. Levou furtivamente alguns exemplares à universidade que freqüentava para um mestre os avaliar.
Esses teóricos de literatura! Tratando das obras consagradas, as consagram ainda mais, encontrando sempre nova genialidade em algum significado oculto que nem os próprios autores conceberiam. Quanto aos novos autores, via de regra os desdenham à priori. Conforme a avaliação docente, os poemas do Zé Ninguém eram lixo. Percebendo o preconceito, Cleópatra Rockefeller fez cópias dos poemas do irmão com uma mínima alteração, que consistia somente em atribuir suas autorias a ilustres poetas falecidos. Vendeu que foi uma beleza! E a inspiração do Zé Ninguém foi transbordando o perímetro do colégio, ainda que sob diversos e indesejados pseudônimos, e para o monetário júbilo de Cleópatra Rockefeller.
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2 comentários :

Elga Arantes disse...

Quem tem uma irmã como Cleo Rock, não precisa de inimigo, durante umas três encarnações...

Marcos Satoru Kawanami disse...

Elga,

as pessoas regeneram, nunca pioram.