quarta-feira, 26 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 6

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 6



No Hospital da Glória, uma junta médica ainda fundia os cérebros e queimava as pestanas no esforço de sentenciar com precisão qual era o distúrbio do Zé Ninguém, em cujo sonho já decorrera dois anos, quando ele teve que aturar, com toda a diplomacia, a vaidade de Cleópatra Rockefeller: “Não, não vou! Não vou de ônibus, nem morta, e pronto. Só te acompanho se formos de automóvel”. Dr. Cacareco não tinha carro. Nem ele, nem sua esposa sabiam guiar; Amélia, por ser apenas prendada em artes do lar, mulher de verdade; e Petit Cacá por uma questão ideológica: sentiria desconforto ao operar uma máquina de tamanha complexidade que fugia ao seu domínio tecnológico; o doutor era lamentavelmente um teórico, nada mais. Irmã dos mil argumentos, Cleópatra Rockefeller rebateu em cima: “Ora, então vamos de táxi”. Quem pagaria o táxi? Zé Ninguém, naturalmente; ele é quem estava convidando... Muito caro, ele não possuía o numerário suficiente. “Minha querida, que tal o Metrô?”.
Havia uma peça teatral sendo encenada por alunos da escola em que estudava o Zé Ninguém. Sua irmã se administrava a contento, burocrática e economicamente a contento, mas carecia-lhe o encanto comum aos jovens, de maneira que Zé Ninguém a convidou com muita propriedade à peça intitulada Aurora da Minha Vida.
Cedendo à diplomacia do meio termo, Cleópatra Rockefeller aprumou o tailleur e, maldizendo a própria sovinice que a impedia de desembolçar sem prejuízo a corrida do táxi, submeteu-se ao “terrível constrangimento” de ir se sacolejando dentro do verme metálico do subterrâneo metropolitano. Na estação onde tomariam o trem, ela comunicou enojada ao irmão que os passageiros, ao atravessarem as roletas de ingresso, podiam ser vistos igual uma manada de bovinos atravessando uma porteira de fazenda, “Oh, que humilhação!”.
Aquela comparação surtiu um poderoso efeito no Zé Ninguém, não pela metáfora, mas pela lembrança impossível de que ele já havia vivenciado a mesma situação, em idênticas condições, e com a irmã. Não seria uma recapitulação instantânea, pois ele soube de antemão que a sua roleta emperraria, e efetivamente emperrou. Coisas das plagas vizinhas aos milagres ainda fogem às luzes da ciência.
A peça dizia respeito à infância e juventude dum grupo de amigos que passaram a vida sempre só planejando o futuro sem nunca terem vivido o presente com a devida consciência. A apoteose dá-se no final, quando, velhos, as personagens cantam sua nostalgia: “Oh, que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”.
Cleópatra Rockefeller gostou da peça no geral, e quiçá tenha tirado bom proveito, porém não furtou-se ao comentário de que o encerramento tinha o ranço de um Romantismo exagerado, coisa ultrapassada. E o Zé Ninguém, para evitar conflito e por preguiça, obviamente concordou.
Todavia, ainda com a opinião da irmã na mente, tendo sido contrariado por uma colega de turma na escola, colega que o impediu de ler o discurso de Graça Aranha numa representação da Semana de Arte Moderna de 1922, o Zé Ninguém fez reparo em aspectos do Modernismo que o desgostavam tanto quanto a pieguice do Romantismo. Então, relatou seus pareceres a Sócrates Clarimundo através da cortina de fumaça que se impunha entre eles, cada qual dum lado do tacho de frituras na várzea do futebol. Depois de bastante troca de idéias, Sócrates declarou que, sendo um rústico sofisticado, ele achava o Romantismo coisa de efeminados, e o Modernismo coisa de maricas. Aí os dois deliberaram redigir um manifesto estético em prol do talento autêntico. Num primeiro momento Sócrates Clarimundo esboçou as idéias num guardanapo de papel, lá mesmo, sobre a carrocinha engordurada. Posteriormente, o Zé Ninguém deu sua contribuição rítmica, e o texto saiu assim:


Manifesto Rudista

Sim, eu confesso que sou rude.
Jamais gostei do Romantismo,
mas ruim mesmo é o Modernismo
que tirou da arte a virtude
que tinha a métrica e a rima.
O verso livre só me anima
se a idéia for muito boa,
do contrário é coisa à toa.

Apesar de deveras rude,
orgulho-me desta atitude;
pois sou franco na poesia,
e abomino a hipocrisia
que permeia a sociedade.
Porém, tenho a capacidade
de as gentes enternecer
ao cantar que o anoitecer
tem claridade diferente
do seu celestial parente,
o também belo alvorecer.
Eis sutileza, esplendor!
Não nego os lirismos que calham.
Porque para o mal metedor...
até os culhões atrapalham.


Foi um escândalo! De madrugada, um pouco antes do alvorecer, o Zé Ninguém pulou o muro da escola com heroísmo idealista, e afixou em diversas paredes algumas cópias dos versos acima. A primeira aula chegou a atrasar devido ao alvoroço decorrente da divulgação do Manifesto Rudista. Seus autores até que foram bem modestos, assinaram com pseudônimo: Grande Othelo.
No seu sonho, o Zé Ninguém ia arquivando toda a sua produção textual com vistas ao seu ambicioso projeto literário de celebrizar-se pelas letras. Consolo para o cientista frustrado, e o militar inapto.
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