terça-feira, 25 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 5

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 5



A princípio, devido à Lei da Inércia que explica o pendor humano pela preguiça, Zé Ninguém desprezava as leituras, seguindo o seu muito conveniente sofisma de que tais leituras contaminariam seu pensamento independente. Logo, porém, entendeu que não existe originalidade absoluta no que concerne a idéias: a Natureza é a origem de toda analogia que fundamenta as abstrações mentais, as quais movem-se numa reação em cadeia; assim, em todo pensamento há um mínimo de plágio. Ele, então, conheceu a sede por conhecimento; verificou também que até aquele momento vivera pouquíssimo e mesmo uma vida inteira seria insuficiente para desvendar o funcionamento das coisas e das gentes. Despencou a ler tudo que lhe chegava ao alcance, agia a “vontade de força”.
Devido a uma atração passional e, portanto, irracional pelas coisas vetustas e passadas, Zé Ninguém escolheu a dedo os livros mais antigos da biblioteca doméstica do Dr. Cacareco. Após tê-los lido em sua totalidade não importando se tratavam de Estética Musical ou Mecânica Celeste, ele reparou que, quanto mais aprendia, mais percebia sua grande ignorância. Com esta inquietação, saiu um dia a vagar pela cidade à cata da palavra impressa. Sentindo falta do futebol, do qual andava meio afastado devido às leituras, dirigiu-se ao campo de várzea, onde encontrou o Sócrates Clarimundo em seu afã gorduroso, calorento e... filosófico. “Ô, mestre, boa tarde. O senhor sabe onde vendem livro velho?”. “No sebo, eu só compro lá. Não conhece? Sebo é loja de coisa velha, em geral livros. Tem um na rua do Teatro Municipal, bem na frente”. Zé Ninguém achou graça no nome sebo, parecendo-lhe mui afim de ser freqüentado por um filósofo ensebado como o Sócrates Clarimundo. Incontinenti, rumou para lá.
“Casa mal-assombrada” foi o primeiro parecer do rapaz acerca do Sebo. Antigas fitas de vídeo, discos musicais ainda do tempo do vinil (pré compact disc), e livros, montanhas de livros entulhados à revelia ou apinhados em rotas estantes de madeira ou metal, mas todas empoeiradas, com insetos ou ferrugem; tudo fazia pesar a atmosfera precariamente iluminada do prédio de sobrado que sediava o Sebo. Uma fascinação comparável a viajar-se no tempo acometeu Zé Ninguém perplexo com a certeza de encontrar-se envolto em séculos de informação.
Já queria o dia fenecer quando Zé Ninguém cambaleava de volta para casa equilibrando a pilha de livros que comprara. Pilha eclética: compêndios de História Natural, Inglês, e Astronomia; uma novela alemã; contos de Mark Twain; e poemas de Manuel Bandeira.
Nos dias subseqüentes, foi lendo tudo ao mesmo tempo, um pouco de cada por jornada. O que o impelia era uma ânsia viceral por adquirir conhecimento; qualquer conhecimento; viajar o mundo e relacionar-se com pessoas vivas e mortas jamais por ele imaginadas, das mais variadas qualidades, caráteres, culturas.
A leitura surtiu efeito. Logo frutificou em bagos opulentos de eloqüência em versos do grande Zé Ninguém, o herói da nulidade!
Numa experiência incipiente com o Inglês que estudava pelo método de Sócrates Clarimundo, ou seja, o auto-didatismo, elaborou um soneto à custa de não pouco esforço da parte de seus escassos miolos e débil vigor mental. Eis o dito cujo:

WE?

Loneliness is a so natural state
of any living matter you will find;
’cause when I was a child, now I remind
myself: I was alone, that was my hate!

I had a mother, a father, a faith,
and the true love of my sister, so kind...
come from the very equal flesh of mine,
and, yet, I was I behind the soul’s gate!

Now, where’s my faith, my sister, where am I?
in this spinning sphere which just says good bye
to teach us good bye, to teach us to pass...

As our life goes too fast, we’re lonely as
the fast space-ship that goes faster as far
it is from us, from the Origin we are!


O leitor atento estará se perguntando: Como ele aprendeu Inglês se estava sonhando?
Correto, mas já esclareci em ocasião anterior... Tudo que nosso jovem e pretensioso versejador sonha flui tão somente das deduções oníricas em curso e conhecimentos prévios. Exemplo: ele conhecia alguns poemas de Manuel Bandeira e noções de Astronomia; quanto a Mark Twain, só o nome lhe parecia familiar, e o que dele leu foi inventado com a vertiginosa liberdade propiciada pelo devaneio de alguém a dormir.
E o Inglês, a própria escola já o havia ensinado um pouco.
.

2 comentários :

tonhOliveira disse...



Vou perder o AMIGO...
Por culpa da sinceridade e da preguiça!

Gostei... mas não li!

Ahahahah!

É muito longo MARCOooooooooooS!

Abraços!

Elga Arantes disse...

Já li.