segunda-feira, 24 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 4

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 4



Quase todas as tardes, à hora do lazer, Zé Ninguém jogava bola num campo de várzea perto de casa. Jogava invariavelmente o futebol, esporte originário da Inglaterra, e incorporado como uma das grandes instituições da cultura nacional brasileira. Empolgante, onze de cada lado, uma bola: está armado o espetáculo ao léu da arte.
Nos locais onde há aglomeração de indivíduos, e em especial de jovens, sempre aparece um ambulante vendendo guloseimas, porque comer, todo o mundo come; é mania que as pessoas têm. Eis que na mencionada várzea, o vendedor de frituras Sócrates Clarimundo fazia uns trocados com a molecada. O pedido era feito e fritado alí, na hora, em cima de uma carrocinha equipada com fogareiro e tacho cheio de gordura; era um trabalho senão seboso, um tanto ensebado.
Certa vez, um menino pediu: “Tio, me vê aí uns dois quibes”. “Espera aí;”, disse Clarimundo, “dois quibes, ou mais que dois?”. E o menino: “Ah, mais ou menos dois”. “Mais ou menos é medida de esfíncter do intestino reto”. Ein?! O que seria aquilo? “É medida de cu, amiguinho”.
Zé Ninguém, que ouviu a palestra acima, intrigou-se com a personalidade daquele humilde fritureiro, figura pitoresca. Barriga protuberante, calva gotejante de suor, sempre de avental branco encardido e um sapato preto todo amacetado dando a impressão de os pés estarem cravados no chão, Sócrates Clarimundo aparentemente em nada se destacava de qualquer trabalhador autônomo em luta pela subsistência. Jamais freqüentara qualquer estabelecimento de ensino, e aprendera a ler com recortes de jornal sob auxílio da Divina Providência da força de vontade. Era um batalhador rústico, mas que ousava umas filosofias se lhe ensejavam ocasião. Era o que restava por entreter esse pobre coitado, frustrado pela profissão, fadigas, e dissabores da existência.
Ainda que com o sexo oposto Zé Ninguém assumisse a postura do tímido, não se lhe impunha constrangimento algum conversar com homens; de modo que foi logo arrebanhando divertidos diálogos com Sócrates Clarimundo, nos quais escutava coisas do tipo: “Deus não dá asa a cobra”, “Mar não tem cabelo”, “Nem tudo é tão difícil quanto parece, nem tão fácil quanto se imagina”, “Homem não trai a mulher; cumpre uma necessidade, pois o nosso brinquedinho é de armar, o delas é só de encaixar”. Um dia o rapaz perguntou se Clarimundo gostava de vender frituras, ao que este respondeu: “Você está doido?! Eu hei-de um dia ser professor. Vou ensinar minhas filosofias para esses petimetres engomadinhos deixarem de frescura. Ah, se vou!”. E qual seria a sua linha de pensamento? “Pois sou anarco-monarquista. A Monarquia é necessária porque tudo que presta tem um dono, e o dono do Brasil era o imperador. Enquanto que a Anarquia serve para deixar o povo tirar um sarro da cara da nobreza e amenizar o despotismo imperial. Repare, é a harmonia perfeita”.
Sócrates Clarimundo motivou uma guinada na poética de Zé Ninguém, que passou a compor versos na linha dos transcritos a seguir:

Trancado neste quarto escuro
sou um prisioneiro de mim.
Não sofro qualquer privação, mas juro
que sofro por um mal que não tem fim.
E este mal é um bem
que só o conhece quem não o tem.

Eu mesmo não o conheço,
mas fizeram-me crer que ele existe;
abstrata é a causa por que padeço,
e perdida é a luta que persiste.

Minha vontade segue perdida:
não quero nada, mas quero a glória!
Minha vida é uma constante partida
rumo a uma cabal e intangível vitória...


E assim, o nosso interno do Hospital da Glória entrou na fase especulativa do seu sonho.
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