domingo, 23 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 3

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 3



No primeiro ano dos estudos secundários, novas áreas do conhecimento entravam na vida acadêmica da rapaziada. Uma delas era a Física Clássica, pela qual Zé Ninguém se afeiçoou deveras, pois este estudo era o que mais compensava os aborrecimentos de perder toda uma manhã de juventude enfurnado numa sala de aula, uma vez que a Física desvelava as leis que regem o mundo, a realidade mesmo do quotidiano; e suas primeiras noções apraziam pela simplicidade ao elucidar que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, e a cada ação corresponde uma reação igual e contrária. Mas os cálculos matemáticos inerentes aos problemas físicos logo vieram a estorvar, e Zé Ninguém constatou que seu negócio mesmo eram as aulas de Literatura do professor Zé Coisinha
Coisinha conseguia prodigiosamente objetivar temas tão subjetivos como amor, raiva, gratidão, inveja, altruísmo, egoísmo, etc., convergindo todos eles a convenções sociais do inconsciente coletivo engendrado por impulsos dos instintos às vezes dissimulados, às vezes reprimidos. Quanto à poesia, ele era não menos preciso: “Poemas são rimados e metrificados; o resto é prosa, a qual pode ser prosa-poética, ou prosa-prosa mesmo”. Com o professor Coisinha não havia frescura nem esses modismos estéticos excessivamente afetados; Coisinha era bruto, ou na gíria popular: Macho de três culhões! Mas as peculiaridades anatômicas do Coisinha não vêm ao caso. Era um bom professor. Sem querer, dando noções de Teoria Literária, ao analisar rimas e métricas ensinou os rudimentos técnicos do verso para Zé Ninguém. O poema analisado foi um vilancete medieval, no estudo do trovadorismo. Zé Ninguém ficou com aquilo na cabeça, matutando, matutando. Isto ele sonhava como novidade, a olvidar um obscuro dia chuvoso de sua infância em que folheou uma antologia de estudos sobre poesia na biblioteca do Dr. Cacareco.
Eis que Zé Ninguém empreende compor e efetivamente compõe um poema, um vilancete, havia de ser um vilancete. Então, qual o porquê do poema? Todo efeito tem uma causa. Para o efeito: poema, correspondia a causa: menina bonitinha.
A referida causa era uma donzela mui adequada a cativar qualquer idealizador romântico: moreninha, mirradinha, lânguida, de olhos grandes e sempre úmidos. Seria um anjo? Seria santa? Seria virtuosa qual mamãe Amélia, a mulher de verdade?
Lindaura Risoleta –é o nome da bela– caminhava toda pudica num intervalo de recreio ameno à sombra das jaqueiras apinhadas de jacas moles e podres do pátio escolar imundo quando acometeu a Zé Ninguém o fulminante estremecimento de encanto ao divisá-la. Apaixonou-se pela incógnita, atribuíndo-lhe os mais elevados valores intelectuais e sentimentais. Ainda mais porque ela usava, à guisa de pequena manta, uma blusinha verde-água. De mantinha!, e da tão singela cor verde-água. Estava convicto: “É santa”.
Sonhou com Lindaura Risoleta. Acordou de madrugada. Não dormiu mais. Escreveu seu primeiro poema, o incipiente vilancete:

Ai! Tão singela donzela,
Tu me deste muita mágoa
Com tua blusa verde-água.

Não falo a Deus, pois não me ouve;
Não Se dá com as paixões,
Por mais que primando O louve
Em pueris orações,
Ou em vibrantes canções.
Mas me deste tu mais mágoa
Com tua blusa verde-água.

Evocando a maior coragem da sua existência até alí, respirou fundo, cerrou o punho esquerdo atrás das costas, e com a mão direita entregou o poema a Lindaura Risoleta como se estivesse assinando sua própria sentença de morte. Foi quase uma morte. Ela, que o convencera ser tão mimosa e virtuosa, abriu um sorriso pervertido, a crua identidade do Diabo.
Aquele vilancete foi um pacto com o Diabo. Zé Ninguém atava-se inexoravelmente com os laços abrasivos da poesia. Lindaura escravizou-o com a pueril esperança de lograr a graça de um amor correspondido. Em realidade a esperança move a vida, mas faz sofrer; a esperança dá e tira ao mesmo tempo; é a dor intrínseca da vida. E dest’arte sucederam-se centenas de versos da pena de Zé Ninguém. Pendeu sua predileção pelos sonetos, e teve sua fase da métrica alexandrina. No auge do idílio escreveu:


Singela qual jamais com lira pôs em verso,
da mais alcandorada poética, a prática;
singela qual a franca e pura matemática,
poema em que se lê as leis do universo.

Graciosa qual jamais pincel em tela fina
esboçar-lhe as feições ousou por mão mortal;
graciosa qual somente em mundo surreal
pudesse tantas formas ter uma menina.

De que o amor existe é prova prazerosa
para os olhos de quem a vê e logo ama,
para o peito do bardo que em delírios clama.

Diante de virtude assim tão primorosa,
não haverá quem não viva por lhe louvar,
não haverá quem não morra por lhe amar.


Vários versos sem hemistíquio, e o tolo Zé achando que faz alexandrinos. Entanto, singela..., graciosa..., oh!, ao que parece boiando na superfície capciosa do lago amoroso, sim. Mas quem despreza o barco da prudência e no dito lago se arroja, afunda de imediato. Teria sido dura, mas bondosa, se Lindaura Risoleta tivesse logo desiludido seu bardo aparvalhado, rechaçando-o de pronto. No entanto, aceitava as humildes ofertas poéticas sempre sorrindo, graciosa..., singela...
Mas “la dona è mobile”. Sempre um amável, formoso rosto, em riso ou pranto é enganoso. Tal a lástima; mulher de verdade, só mamãe Amélia que passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer. Passar fome, cá venhamos, é pedir um pouco demais. Porém, o mínimo de probidade seria dar sinceridade a quem dava amor. Por que nutrir a esperança do tolo rapaz? Vaidade. Ela nada queria com a pessoa dele, queria os poemas; colecionava-os e os exibia a todos qual fossem troféus; elegias à sua beleza e feminilidade. Ora, pois, quem há-de querer algo com o Zé Ninguém? Tudo acabou quando ela passou a namorar outro. Foi penoso, mas edificante. Talvez os penitentes tenham razão em sua busca de plenitude pelo sofrimento. Acaso é pouco prazeiroso o alívio de descalçar sapatos apertados após ter andado com eles um dia inteiro?
A partir de então, os versos de Zé Ninguém assumiram um tom mais crítico e investigativo. Tudo sonhado, tudo deduzido.
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Um comentário :

Elga Arantes disse...

Entendi... No fim das contas, há que se ter sorte. Eu não tive um professor Zé coisinha que conseguisse "objetivar temas tão subjetivos como amor, raiva, gratidão, inveja, altruísmo, egoísmo, etc., convergindo todos eles a convenções sociais do inconsciente coletivo engendrado por impulsos dos instintos às vezes dissimulados, às vezes reprimidos. Quanto à poesia, ele era não menos preciso: “Poemas são rimados e metrificados; o resto é prosa, a qual pode ser prosa-poética, ou prosa-prosa mesmo”.

Por isso, não escrevo sonetos... nem gosto... ou faço como dobradinha que não gosto sem nunca ter comido, não gosto pelo cheiro... Apesar que o 'não gostar' foi mais intenso antes de saber da existência de sonetos cômicos, ou irônicos, ou sarcásticos, sei lá... qual o nome dessa coisa, pois?

Já ouvi essa parte da história, em outro formato, mas pelo mesmo autor, certo?