sábado, 22 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 2

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 2



O corpo vegetativo de Zé Ninguém passou a receber alimentação parenteral por meio de soro injetado numa veia oposta ao cotovelo de um dos braços. O estranho é que, ainda que sonhando, ele nunca se mexia, nem seu ritmo cardíaco se alterava. Sim, seria um tipo de coma; e nenhum dos sentidos o ligava à realidade. Mistério? Não. Ignorância mesmo.
Zé Ninguém, conforme referido, contava, por essa época, quinze lindas primaveras sobre sua terra natal, o continente chamado Brasil. Quinze anos..., era homem feito. Ao menos acreditava que sim. Acreditava também, e neste caso com ponderado entendimento, que a suprema instrução já lhe fora dada, a qual consistia tão somente em, há alguns anos, ter sido alfabetizado e aprendido as quatro operações matemáticas; a partir daí conquistaria o Mundo!
Por influência do Dr. Cacareco, o menino Zé Ninguém crescera com a vontade de vir a ser um grande cientista. Constatou, porém, com amarga contrariedade que, conforme crescia em tamanho, parecia diminuir em inteligência a ponto de ombrear com a mediocridade. Então, seu brio um tanto megalômano inculcou-lhe a idéia de tornar-se um ilustre militar, só por vaidade infantil; de maneira que escolheu a arma cujo uniforme afeiçoou-lhe qual sendo o mais formoso: o branco imaculado da nossa gloriosa Marinha.
Um militar obedece ordens, nunca deve ser do contra. Zé Ninguém era do contra. Os rapazes interessados em ingressar nas armas preparavam-se para o exame de admissão freqüentando cursos pagos além da escola comum. Zé Ninguém achava isso um comércio ignóbil, e estudou por conta própria. Resultado: reprovação. Lástima!, inapto para a carreira militar, restou-lhe arriscar a sorte na sinuosa senda da Literatura. Não que ele levasse jeito, tivesse dom para a coisa, mas o que ele queria a todo custo era sentir-se superior, com uma “vontade de força” tão doentia que só poderia ser cotejada com a de Friedrich Wilhelm Nietzsche!
Talvez isso explique o sono profundo que se abateu sobre o nosso rapazola que, no que lhe conserne, segue sua vida qual de costume. Há poucos instantes sua carcaça inerte penetrava no Hospital da Glória, enquanto que ele em si voltava radiante da escola a fim de compartilhar com a irmã Cleópatra Rockefeller as literaturas do professor Zé Coisinha, e a divina sapiência metafísico-teológica do professor Zé dos Santos:
“Sabe, Cléo, a força vem de cima..., mas isso é mera conotação.” Foi dizendo enfunado de soberba. Ao que a pecuniária Cleópatra Rockefeller retrucou com não menos pretensão: “Na verdade, a força mesmo vem é da Bolsa de Valores de Nova Iorque...”
Ao contrário do irmão Ninguém, a Rockefeller tinha uma sabedoria pragmática característica às pessoas que sabem fazer dinheiro; não só dinheiro, mas muitas amizades, e um punhado de desafetos. Enfim, Cleópatra Rockefeller tinha bem à flor da pele o pertinente instinto de sobrevivência, além dos demais instintos. Mesmo que pensemos a toda hora e, assim, pensemos por instinto, Zé Ninguém pensava que o ato de pensar tolhia-lhe boa monta de instintos; essa intelectualização da sua intolerância às próprias debilidades o consolava na sua apatia perante a vida. Já Cleópatra Rockefeller pouco pensava, ela vivia. Com apenas dez anos de idade angariara seus primeiros dinheiros vendendo chocolates e barganhando lapiseiras usadas no recreio da escola, e aos doze ousara a façanha de empregar cinco meninos a seu serviço no ofício de engraxate de sapatos, fundando uma mini-empresa prestadora de serviço, e entrando no corredor dos capitalistas. Sempre tudo coisa honesta, “Cosa Nostra”.
A índole condolente de Zé Ninguém logo protestou: “Você não tem vergonha de fazer aqueles meninos trabalharem para você em troca de comissão, escovas e graxa? Eles estão iludidos, não dependem de você”. Com seu sorriso habitual de superioridade, Cleópatra Rockefeller esclareceu que o segredo é fazer os empregados acreditarem que os patrões são imprescindíveis. É, o mundo é dos espertos; até uma criança sabe isso. “E ainda,” continuou a irmã, “quanto pior se tratar seus inferiores, mais eles te respeitarão.” Zé Ninguém contemplou a irmã com toda a ingenuidade do seu olhar; esmurrou-a bem na boca, e berrou: “Respeita o teu superior! Eu!”
Mamãe Amélia quase arrancou-lhe o couro a chicotadas: Zé Ninguém não era nada superior a Cleópatra Rockefeller. E violência não dá respeito a ninguém; só dão mesmo as chicotadas respeito à mamãe.
Mas isso foi quando os dois irmãos ainda eram crianças. Agora, ele com quinze anos de idade, e ela com dezessete, a situação mudara; já haviam se estudado bastante e finalmente aderido à benfazeja e sacrossanta hipocrisia das relações familiares, cuja análoga diplomacia articula seus tentáculos permeando todas as sociedades humanas. Portanto, “Bom dia Dra. Rockefeller. Podre de rica, ou rica de podre? Brincadeirinha, mana.”, e ela: “Tudo bem, prole-otário querido”. E assim seguia a vida, ou melhor, o sonho de Zé Ninguém.
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