segunda-feira, 31 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 11

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 11


Amigo da Onça, qual é a safadeza da semana? Zé Ninguém prosseguia fiel no jornaleco da faculdade. Dessa vez, deliberou justamente sacanear os velhinhos da ABL (Academia Brasileira de Letras). O Zé Ninguém achava graça na desmedida soberba dos acadêmicos se auto-intitularem imortais. Então, desenhou o Amigo da Onça que, com a elegância de costume, no velório de um afamado acadêmico, perguntava com a mais pérfida inocência: “Ora, se é imortal, morreu por quê?”.
Sabe-se que o motor da humanidade é o medo, que gera a ambição, que gera as demais vontades. O desenho do Zé Ninguém foi um escândalo reproduzido em vários periódicos e revistas de todo o Brasil. Seu autor já sedimentava notoriedade abrangente, efetivava-se qual jornalista. Incomodados que estavam com o jovem petulante, o pessoal da ABL astutamente entendeu que era melhor tê-lo como amigo admirado e admirador do que tê-lo como um Amigo da Onça.
A respeito da poesia do Zé Ninguém, notas e críticas elogiosas saíram na imprensa por parte de vários acadêmicos imortais, até que ele entrou pela primeira vez nos sacrossantos recintos da ABL, numa pomposa cerimônia em que lhe era consedida uma menção honrosa à guisa de confraternização, com direito a todos envergando o fardão; menos o Zé Ninguém, é claro.
Era verão. E a velharada com aquela vestimenta antiquada, quente, pesada. Mormaço no ambiente, suor em toda parte, nas mãos e tudo que por elas se tocava. Aqui e ali, despudorados cochilos com direito a filete de baba escorrendo pelo canto da boca aberta, mórbida. Uma dentadura de repente rola pelo tapete vermelho aveludado..., dentadura! De quem é? Não aparece o dono, ou... a dona. E os discursos da falsa amizade resumiam-se a uma prodigiosa listagem de todos os adjetivos positivos da língua portuguesa, pecando tão somente por não ter sido elaborada em ordem alfabética.
Quase no encerramento da cerimônia, chegou a vez do homenageado pronunciar-se. Num modesto discurso, o Zé Ninguém fez considerações sobre o caos estético ensejado pelas vanguardas artísticas, incomodando a muitos com sua simpatia pela ultrapassada poética parnasiana. Mas o momento apoteótico foi a última declaração: “Confesso que, de tudo que escrevi até hoje e de tudo que por ventura ainda eu venha a escrever, agrada-me em primeiro lugar um poema intitulado Vestindo Estrelas?, o qual veio-me de improviso, em pleno ônibus, e sem maior elaboração. Tudo porque aqueles versos ensejaram a mais franca e inusitada retribuição: foi a única e tão sublime ocasião em que fui correspondido neste meu afã lírico. Agora, vo-lo apresento”. E declamou com braços trêmulos as simplórias redondilhas oferecidas à Claudinéia do seu sonho.
O diretor-chefe de uma renomada editora veio ao encontro do Zé Ninguém já na saída, descendo as escadarias da ABL. Tratava-se do Dr. Lino Grande, que foi logo elogiando o traje (alugado) do pobre rapaz, a eloqüência de suas idéias (gaguejou o discurso todo), e a originalidade dos versos declamados (foram inspirados numa antiga canção de Noël Rosa e Ary Barroso). Mesmo assim, a euforia do Dr. Lino Grande era real, queria publicar as poesias completas do Zé Ninguém: “É a oportunidade da tua vida, homem!”. “E quais as condições..., homem?”. Aí, o editor tossiu disfarçando o embaraço: “Bem, nós somos uma empresa; apesar de lidarmos com criação, nosso objetivo é o lucro, não podemos arriscar. Olha, a primeira edição do teu livro infelizmente terá que ficar a total proveito da editora; mas se vender bastante, e vai vender, a partir da segunda edição te caberá dez por cento de direito autoral”. “Só se for agora!”, assentiu o Zé Ninguém afoito por ver sua palavra na letra de forma impressa e encadernada de um livro. Um respeitável livro!
Tal foi a glória do Zé Ninguém.
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Um comentário :

Marguerita disse...

Respondendo...
Boa-noite!

;)